domingo, 19 de setembro de 2010

Jacques Prévert


MANHÃ FARTA


É terrível o som
da casca de ovo cozido partido sobre o balcão
é terrível esse som
quando ressoa na memória do homem sem pão
é terrível também a cabeça desse homem
do homem sem pão
quando se olha às seis da manhã
na montra do grande armazém
uma cabeça cor de farinha
mas não é para a sua cabeça que ele olha
na montra da loja Potin
está-se nas tintas para a sua cabeça, o homem
não pensa nela
sonha
imagina uma outra cabeça
uma cabeça de vitela, por exemplo,
com molho vinagrete
ou qualquer outra cabeça que se trinque
e remexe o maxilar lentamente
lentamente
e range os dentes lentamente
porque o mundo lhe dá cabo da cabeça
e ele nada pode contra esse mundo
e conta pelo dedos: um dois três
um dois três
há três dias que não come
e por muito que há três dias repita que
Isto não pode continuar
isto continua
três dias
três noites
sem comer
e atrás daqueles vidros
aqueles pastéis, aquelas garrafas, aquelas conservas
peixes mortos protegidos pelas latas
latas protegidas pelos vidros
vidros protegidos pelos chuis
chuis protegidos pelo medo
tantas barricadas para seis míseras sardinhas...
Logo adiante o bar da esquina
café-creme e croissants quentes
o homem cambaleia
e dentro da cabeça
uma névoa de palavras
uma névoa de palavras
sardinhas para comer
ovo cozido café-creme
café com pingo de rum
café-creme
café-creme
café-crime com pingos de sangue!...
Um homem muito estimado no seu bairro
foi degolado em pleno dia
o assassino vagabundo roubou-lhe
dois francos
ou seja: um café pingado
setenta cêntimos
duas fatias de pão com manteiga
e vinte e cinco cêntimos para a gorjeta do empregado.
É terrível
o som da casca do ovo cozido partido sobre o balcão
É terrível esse som
quando ressoa na memória do homem sem pão.


Jacques Prévert
"Paroles"

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