sábado, 20 de Setembro de 2014

 O LIMITE


Basta. Não é insistir olhar o longo brilho
de teus olhos. Ali, até ao fim do mundo.
Olhei e consegui. Contemplei, e passava.
A dignidade do homem está na sua morte.
Mas os brilhos temporais dão
cor, verdade. A luz pensada, engana.
Basta. No caudal de luz - teus olhos - pus
minha confiança. Por eles vi, vivera.
Hoje que piso meu fim, beijo estas margens.
Tu, minha limitação, meu sonho. Sejas!

Vicente Aleixandre
(1898-1984)
 Tradução: José Bento


 TENS NOME


Teu nome,
pois tens nome. A minha vida inteira foi isso:
um nome. Porque sei que não existo.
Um nome respirado não é um beijo.
Um nome perseguido sobre uns lábios
não é o mundo, mas o seu sonho às cegas.
Assim sob a terra, respirei a terra.
Sobre o teu corpo respirei a luz.
Dentro de ti nasci: morri por isso.

Vicente Aleixandre
(1898-1984) Tradução: José Bento


 NOITE ABERTA



 Bem-vinda a noite para quem vai seguro
e com os olhos claros olha sereno o campo,
e com a vida limpa olha com paz o céu,
sua cidade e sua casa, sua família e sua obra.

   Mas de quem vacilante anda e vê sombra, vê o duro
cenho do céu e vive o castigo de sua terra
e a malevolência de seus seres queridos,
inimiga é a noite e sua piedade acosso.

   E ainda mais neste páramo da tão alta Rioja,
onde se abre com tal claridade que deslumbra,
tão próxima palpita que muito assombra, e muito
penetra na alma, fundamente a perturba.

   Porque a noite sempre, como o fogo, revela,
melhora, pule o tempo, a oração e o soluço,
dá pureza ao pecado, limpidez à lembrança,
castigando e salvando toda uma vida inteira.

   Bem-vinda a noite com seu belo perigo.

 
Claudio Rodríguez
(1934-1999)
Tradução: José Bento
In "Antologia da Poesia Espanhola Contemporânea"
SINA

O dia amanheceu feliz,
Queria subir aos montes,
Queria beber nas fontes,
Queria perder-se nos largos horizontes...
Mas a vida não quis.


Miguel Torga
(1907-1995)
HAVIA NA MINHA RUA
 
 
Havia
na minha rua
uma árvore triste.

Quebrou-a o vento.

Ficou tombada,
dias e dias,
sem um lamento.

(Assim fiquei quando partiste...)
 
 
Saúl Dias
(1902-1983)
In "Poesia de Amor"
(Antologia Portuguesa)
Livraria Tavares Martins
Porto (1945)

sexta-feira, 19 de Setembro de 2014



VADIAR A HORAS MORTAS


É na noite acolhedora
cheia de aromas dispersos
que me sinto mais abandonado,
mais só.
E a noite recebe-me, 

acalenta-me.

Quase me sinto feliz da minha solidão.

Noite,
chave da consolação
e da compreensão de tudo.
Vadiar
a horas mortas
nas ruas solitárias
de iluminação fraca.

Ouvir esquecido
o bater das horas na torre
ao longe.

Tempo que passa e que esqueço.


João José Cochofel
(1919-1982)
In "Instantes"
(1937)

quinta-feira, 18 de Setembro de 2014


 A VIDA DA MORTE


Ouvir chover não mais, sentir-me vivo;
o universo convertido em bruma
e em cima a consciência como espuma
por onde as compassadas gotas crivo.

Morto em mim tudo quanto seja activo,
enquanto toda a visão a chuva esfuma,
e lá em baixo a abismo em que se suma
da clepsidra a água; e o arquivo

desta memória, de lembranças mudo;
o ânimo saciado em inércia forte;
sem lança e por isso já sem escudo,

todo à mercê dos vendavais da sorte;
este viver, que é o viver desnudo,
- não é acaso já o viver da morte?

Miguel de Unamuno
(1864-1936)
Tradução: José Bento