terça-feira, 28 de Outubro de 2014

OS DIAS


Dias como mendigos procurando
por uma terra vã espigas de nada:
que rosas de miséria colheremos?
que esmolas de luar no pó da estrada?


Fechando as mãos não colho mais que a imagem
da tua sombra, meu amor de trigo:
a bruma desses rios que em segredo
nascem em mim para morrer comigo.

Rios de luz concreta, proibida,
de que meus versos são a simples névoa;
ah, pudesse eu cantar; a vida levo-a
sem te ver bem a esta luz perdida.

Ó doce prisioneira do crepúsculo,
quando virá teu rosto de harmonia
como o fulgor de um astro debruçar-se
na terra dos meus pés, áspera e fria?


Carlos de Oliveira

(1921-1981)
In "Terra de Harmonia"

domingo, 26 de Outubro de 2014

 PARA QUE TU ME OUÇAS


Para que tu me ouças
as minhas palavras
adelgaçam-se por vezes
como o rasto das gaivotas sobre a praia.


Colar, guizo ébrio
para as tuas mãos suaves como as uvas.

E vejo-as tão longe, as minhas palavras.
Mais que minhas são tuas.
Vão trepando pela minha velha dor como a hera.

Elas trepam assim pelas paredes húmidas.
Tu é que és a culpada deste jogo sangrento.
Elas vão a fugir do meu escuro refúgio.
Tu enches tudo, amada, enches tudo.

Antes de ti povoaram a solidão que ocupas,
e estão habituadas mais que tu à minha tristeza.

Agora quero que digam o que eu quero dizer-te
para que tu ouças como quero que me ouças.

O vento da angústia ainda costuma arrastá-las.
Furacões de sonhos ainda por vezes as derrubam.
Tu escutas outras vozes na minha voz dorida.
Pranto de velhas bocas, sangue de velhas súplicas.
Ama-me, companheira. Não me abandones. Segue-me.
Segue-me, companheira, nessa onda de angústia.

Mas vão-se tingindo com o teu amor as minhas palavras.
Ocupas tudo, amada, ocupas tudo.

Vou fazendo de todas um colar infinito
para as tuas brancas mãos, suaves como as uvas.


Pablo Neruda
(1904-1973)
In "20 Poemas de Amor e Uma Canção Desesperada"
Tradução: Fernando Assis Pacheco

QUERO DESAPARECER MAS NÃO MORRER.


Quero desaparecer mas não morrer
Quero não ser e perdurar
e saber que perduro
Bato às portas da morte
e retiro-me
Chamo a vida e fujo envergonhado
Quero ser toda a minha alma e não posso
quero ser todo o meu corpo e não o alcanço.



Vicente Huidobro
(1893-1943)
Tradução: Ricardo Marques

sábado, 25 de Outubro de 2014

ESTA GENTE.


Esta gente cujo rosto
Às vezes luminoso
E outras vezes tosco

Ora me lembra esvcravos
Ora me lembra reis

Faz renascer meu gesto
De luta e de combate
Contra o abutre e a cobra
O porco e o milhafre

Pois a gente que tem
O rosto desenhado
Por paciência e fome
É a gente em quem
Um país ocupado
Escreve o seu nome

E em frente desta gente
Ignorada e pisada
Como a pedra do chão
E mais do que a pedra
Humilhada e calcada

Meu canto se renova
E recomeço a busca
Dum país liberto
Duma vida limpa
E dum tempo justo


Sophia Mello Breyner Adresen
(1919-2004)
O SUOR.


No mar encontra a água seu paraíso ansiado
e o suor seu horizonte, seu fragor e plumagem.
O suor é um tronco transbordante e salgado,
uma onda selvagem.


Chega a idade do mundo mais remota
para oferecer à terra a fronde sacudida,
a sustentar a sede e o sal gota a gota,
a iluminar a vida.

Filho do movimento, primo do sol, irmão
da lágrima, deixa vagueando pelas eiras,
de abril a outubro, do inverno ao verão,
douradas trepadeiras.

Quando os camponeses vão de madrugada
empurrando o arado e fugindo ao repouso,
vestem uma blusa silenciosa e dourada
de suor silencioso.

Vestimenta de ouro dos trabalhadores,
que tanto adorna as mãos como as pupilas,
pela atmosfera espalha seus fecundos olores
uma chuva de axilas.

O sabor que há na terra melhora-se e madura:
do pranto laborioso e rescendente cai o mosto,
maná dos homens, maná da agricultura,
bebida do meu rosto.

Vós que nunca suastes, e que andais elegantes
num ócio sem braços, sem música, sem poros,
não usareis a coroa dos poros gotejantes
nem o poder dos touros.

Vivereis malcheirosos, morrereis apagados:
a formosura habita nas articulações
dos corpos que movem seus membros adestrados
como constelações.

Entregai ao trabalho, companheiros, a fronte:
que o suor, com sua espada de gostosos cristais,
com seus lentos dilúvios, vos fará transparentes,
venturosos, iguais.

Miguel Hernández
(1910-1942)
Tradução: José Bento
O POETA OPERÁRIO


Gritam ao poeta da revolução:
«Seria bom ver-te a trabalhar num torno.
Versos o que são?
Simples adorno!
Trabalhar não é contigo, se calhar.»
Mas, para nós,
trabalhar
é a ocupação favorita.
Eu também sou uma fábrica
e lá por não ter chaminés,
talvez
seja muito mais difícil.
Bem sei
que não gostas de frases vãs.
Cortar carvalhos, isso sim, é trabalho.
E nós
não seremos também derrubadores de árvores?
As cabeças das pessoas tratamos como carvalhos.
Certamente
pescar é uma coisa respeitável,
lançar a rede
e apanhar esturjões!
Mas o trabalho do poeta é mais respeitável:
não pescamos peixe mas sim gente viva.
Trabalhar na forja é trabalho violento,
o ferro fundido bater e temperar.
Mas quem é
que nos pode acusar de mandriar?
Com a goiva da linguagem polimos as mentes.
Quem vale mais - o poeta
ou o técnico
que conduz as pessoas para os bens materiais?
Ambos.
Os corações são iguais aos motores,
a alma igual a um motor complicado.
Somos iguais,
camaradas na massa trabalhadora,
Proletários do corpo e da alma.
Só juntos
remoçaremos o universo
e com marchas poderemos vencer.
Das tempestades verbais defenderemos o povo.
Ao trabalho!
O trabalho é vivo e novo.


Os oradores fúteis, sem dó
ao moinho!
À fresadora!
Que a água dos discursos dê a volta à mó!

Vladimir Maiakovski
(1893-1930)
(Trad. de Manuel de Seabra)

sexta-feira, 24 de Outubro de 2014

A CORTIÇA


É preciso dizer-se o que acontece
no meu país de sal
há gente que arrefece que arrefece
de sol a sol
de mal a mal.
É preciso dizer-se o que acontece
no meu país de sal.

 
Passando o Tejo para além da ponte
que não nos liga a nada
só se vê horizonte
horizonte
e tristeza queimada.

É preciso dizer-se o que se passa
no meu país de treva:
uma fome tão grande que trespassa
o ventre de quem a leva.
É preciso dizer-se o que se passa
no meu país de treva:
mal finda a noite escurece logo o dia
e uma espessa energia
feita de pus no sangue
de lama na barriga
nasce da terra exangue e inimiga

É o vapor da sede é o calor do medo.
a cama do ganhão
a casca do sobredo.
É o suor com pão que se come em segredo.

É preciso dizer-se o que nos dão
no meu país de boa lavra
aonde um homem morre como um cão
à míngua de palavra:

Por cada tronco desnudado um lado
do nosso orgulho ferido
e por cada sobreiro despojado
um homem esfomeado e mal parido.

Ah não, filhos da mãe!
Ah não, filhos da terra!
Os enjeitados também vão à guerra.

José Carlos Ary dos Santos
(1937-1984)
“Insofrimento in Sofrimento”,
(1969)