sábado, 27 de junho de 2015

PUREZA


Para sermos nós mesmos-
era preciso que as palavras
fossem menos que palavras,
que as ideias fossem menos que ideias,
que os gestos menos que os gestos,
e os sentidos menos que sentidos,
que tudo interiormente
fosse em si e só por si-
-para cada um de nós
deixar de ser o próprio e toda a gente.


11/1/1939

Jorge de Sena
(1919-1978)
CANÇÃO SINGELA


Dantes eu era
bem mais feliz
do que agora.
E talvez não.
Sou tão feliz
agora como
o era dantes;
Talvez até
o seja mais.
Mas o que estou
é mais cansado.

(5/09/1938)


Jorge de Sena
(1919-1978)

sexta-feira, 19 de junho de 2015

INFELICIDADE


Se eu pudesse trincar a terra toda
E sentir-lhe um paladar,
Seria mais feliz um momento ...
Mas eu nem sempre quero ser feliz.
É preciso ser de vez em quando infeliz
Para se poder ser natural...
Nem tudo é dias de sol,
E a chuva, quando falta muito, pede-se.
Por isso tomo a infelicidade com a felicidade
Naturalmente, como quem não estranha
Que haja montanhas e planícies
E que haja rochedos e erva ...
O que é preciso é ser-se natural e calmo
Na felicidade ou na infelicidade,
Sentir como quem olha,
Pensar como quem anda,
E quando se vai morrer, lembrar-se de que o dia morre,
E que o poente é belo e é bela a noite que fica...
Assim é e assim seja ... 



Alberto Caeiro / Fernando Pessoa
(1888-1935)

domingo, 14 de junho de 2015

AS TRÊS PALAVRAS MAIS ESTRANHAS

Quando pronuncio a palavra Futuro,
a primeira sílaba já pertence ao passado.

Quando pronuncio a palavra Silêncio,
destruo-o.

Quando pronuncio a palavra Nada,
crio algo que não cabe em nenhum não-ser.


Wistawa Szymborska
(1923-2912) 
In "Instante"
Trad. de Elzbieta Milewska e Sérgio Neves.
TUDO

Tudo -
palavra atrevida e enfunada de soberba.
Deveria escrever-se entre aspas.
Aparenta nada omitir,
tudo reunir, abarcar, conter e ter.
Porém, não é mais
do que um farrapo do caos.


Wislawa Szymborska
(1923-2012)
In "Instante"
Tradução de Elzbieta Milewska
e Sergio Neves.

sábado, 6 de junho de 2015

 ESTES POEMAS QUE CHEGAM


estes poemas que chegam
do meio da escuridão
de que ficamos incertos
se têem autor ou não
poemas às vezes perto
da nossa própria razão
que nos podem fazer ver
o dentro da nossa morte
as forças fora de nós
e a matéria da voz
fabricada no mais fundo
de outro silêncio do mundo
que serão eles senão
uma imensidão de voz
que vem na terra calada
do lado da solidão
estes poemas que avançam
no meio da escuridão
até não serem mais nada
que lápis papel e mão
e esta tremenda atenção
este nada
uma cegueira que apaga
a luz por trás de outra mão
tudo o que acende e me apaga
alumiação de mais nada
que a mão parada
alumiação então
de que esta mão me conduz
por descaminhos de luz
ao centro da escuridão
que é fácil a rima em ão
difícil é ver se a luz
rima ou não rima com a mão

Herberto Helder
(1930-2015)
In "Poemas Canhotos"

 

 A AMADA NAS ALTAS MONTANHAS.


Coisa amada nas montanhas
amador ao rés das águas
por mais que subam as águas
e arrebatem as montanhas
e as engulam inteiras
haverá coroas de pedra
sustentadas pela espuma
a coisa amada é coroa
pesando em minha cabeça
assim os ferros nas águas
como entram na carne branda
os espigões da memória
se a coisa amada me lembra
e tanto me dói na memória
e através da minha dor
se torna tão poderosa
coisa amada nas montanhas
..............................................

Herberto Heder
(1930-2015)
In "Poemas Canhotos"