quinta-feira, 3 de março de 2011

Amândio César


QUE HORA É ESTA?


É em vão que o sol doira
As asperezas da terra:
Secou na seara loura
Toda a esperança que ela encerra.

Baldadas todas as horas,
Todos os passos sem fim:
Murchou de vez o alecrim,
Secaram roxas amoras.

É quente a água das fontes,
Escalda o sangue nas veias:
São de fogo os grãos de areias
E as pragas negras dos montes.

Para quê lutar ainda
Numa luta sem sentido?
Sofre-se por se ter sofrido
Estas angústia que não finda.

Angústia que sobe à boca
Que amarga como a amargura
-Existência mal segura,
Fazenda que mal dá roupa.

Cansaram-nos assim de tudo,
Todos nos pesam de mais
-Os poetas são jograis
E o seu cantar quase mudo.

Amândio César
(1921-1987)
In "As Margens da Memória"

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