domingo, 10 de março de 2013


CANÇÃO DA BEIRA-MAR
 
 
Ó mar Atlântico
à beira donde sofremos,
quando virá a maré-cheia da partida?
Ó mar de vendavais,
quando, quando?

Que triste a nossa vida,
tudo temos:
barcos, remos e tripulação,
só nos falta partir. . .

Ó mar que és um leão
com tua garra,
a vaga
despedaça a amarra
que nos prende à terra.
Queremos partir mesmo sem mestre!
Estamos fartos do marasmo
deste balanço de lago
onde apodrece nossa carne dolorida.

Que ansiedade de mar largo,
ai que desejo de Vida!
Todas as noites a lua nasce
e o mar se aquieta. . .
Faminta na beira do rio
tremendo no frio
que miséria dias e dias renova,
a tripulação inquieta
murmura chorando!
- Será amanhã a nossa lua-nova?
Ó mar, quando partimos, quando?

A noite passa,
o dia volta. . .
e no peito dos homens
sempre o mesmo grito de ansiedade e de desgraça:
- Ó mar de revolta!
montanhas de água,
oceano de vendavais,
Atlântico da partida!
A nossa mágoa, a nossa mágoa. . .
Não podemos mais. . .
Quando nos leva o mar?
Quando começa a Vida?
 
Manuel da Fonseca
(1911-1993)
In "Poemas Completos"
Edição Forja (Dezembro de 1978)

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