quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

 BOM DIA, AFONSO DUARTE


Nestas ruas exaustas de morte e silêncio,
entre rios mortos e áspera solidão,
passeio contigo, Afonso Duarte.

Sob teu rosto grave, teus nevados cabelos,
seara cansada de tantas espigas,
couves e rosas, Afonso Duarte.

Um galo canta longínquo, ou é tua voz
a seiva do chão, oculta e milenária,
a cantar ainda, Afonso Duarte?

Em teu jardim de angústia (ao longe o mar) colho
no ramo quebrado nossa ave imperecível
e a dor da Pátria, Afonso Duarte.

E vendo-te, raiz e flor, a meio do teu povo,
(eu mesmo cavo e sou quem poda a vinha)
só te digo: Bom dia, Afonso Duarte.

Papiniano Carlos
(1918-2012)
In "Sonhar a Terra Livre e Insubmissa"
Edição de Fevereiro de 1973.

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