A ILHA
A ilha era deserta e o mar com medo
de tanta solidão já te sonhava:
ia em vento chamar-te para longe
e longamente em espuma te esperava.
À cinza dos rochedos atirava
na grande madrugada adormecida,
já saudosos de ti, os braços de água,
sem ter acontecido a tua vida.
Sim, meu amor, antes de Zarco vir
provar o sumo e o travo à solidão,
no litoral de pedra pressentida
o mar imaginava esta canção.
E as lúcidas gaivotas desse tempo
talhavam como um voo o teu amor:
o início de lava e sal que deixa
(talvez) neste poema algum esplendor.
Carlos de Oliveira
(1921-1981)
domingo, 30 de agosto de 2015
SÚPLICA
Para alguém, foi, do teu olhar a flama,
Como, após noite escura, a luz d'aurora.
Da «selva oscura» entre a sombria trama,
Ouve, mulher, como esse alguém t'implora.
Oh, baixa sobre mim o olhar fulgente!...
Que o teu olhar é bálsamo que inora,
Do céu sobre este seio, em que, latente,
Remorde, há muito, o cancro de um anseio,
De um desejo insensato e sede ardente
De um não sei quê, que em teu olhar eu leio.
Ângelo de Lima
(1872-1921)
PORTUGAL SACRO-PROFANO LUGAR ONDE
Neste país sem olhos e sem boca
hábito dos rios castanheiros costumados
país palavra húmida e translúcida
palavra tensa e densa com certa espessura
(pátria de palavra apenas tem a superfície)
os comboios mansos têm dorsos alvos
engolem povoados limpamente
tiram gente de aqui põem-na ali
retalham os campos congregam-se
dividem-se nas várias direcções
e os homens dão-lhes boas digestões:
cordeiros de metal ou talvez grilos
que mãe aperta ao peito os filhos ao ouvi-los?
Neste país do espaço raso do silêncio e solidão
solidão da vidraça solidão da chuva
país natal dos barcos e do mar
do preto como cor profissional
dos templos onde a devoção se multiplica em luzes
do natal que há no mar da póvoa de varzim
país do sino objecto inútil
única coisa a mais sobre estes dias
Aqui é que eu coisa feita de dias única razão
vou polindo o poema sensação de segurança
com saúde de um grito ao sol
combalido tirito imito a dor
de se poder estar só e haver casas
cuidados mastigados coisas sérias
o bafo sobre o aço como o vento na água
País poema homem
matéria para mais esquecimento
do fundo deste dia solitário e triste
após sucessivas quebras de calor
antes da morte pequenina celular e muito pessoal
natural como descer da camioneta ao fim da rua
neste país sem olhos e sem boca
Ruy Belo
(1933-1978)
O HOMEM E O MAR
Homem livre, tu sempre adorarás o mar!
O mar é o teu espelho; a tua alma contemplas
Na sua ondulação, no infinito vaivém,
E o teu espírito é fosso não menos amargo.
Gostas de mergulhar na tua própria imagem;
Chegas mesmo a beijá-la, e o teu coração
Distrai-se algumas vezes do seu próprio som
Com o rumor dessa queixa indomável, selvagem.
Sois ambos, afinal, discretos, tenebrosos:
Homem, ninguém conhece os teus fundos abismos;
Ó mar, ninguém conhece os teus tesouros íntimos,
Tanto que sois dos vossos segredos ciosos!
E porém, desde sempre, há séculos inumeráveis,
Que os dois vos combateis sem piedade ou remorso,
De tal modo gostais da carnagem, da morte,
Ó lutadores eternos, irmãos implacáveis!
Charles Baudelaire
(1821-1867)
In "As Flores do Mal"
Trad. de Fernando Pinto do Amaral.
domingo, 23 de agosto de 2015
INTERFERÊNCIA
Quem veio bater à minha porta? Quem?
Quem me fez abrir a janela e a noite morta?
O caminho estava deserto e o seu silêncio tinha horas.
Vento? Esta noite tem a paz e o sossego da morte.
Só eu e as estrelas sentíamos a solidão fantástica...
Nos ouvidos e na ansiedade guardei o rumor que chamou,
As minhas mãos tiveram a carícia doutras mãos perdidas
E uma companhia invisível acendeu uma luz na minha alma...
Alguém terá pensado em mim, longe?
Alberto de Serpa
(1906-1992)
Quem veio bater à minha porta? Quem?
Quem me fez abrir a janela e a noite morta?
O caminho estava deserto e o seu silêncio tinha horas.
Vento? Esta noite tem a paz e o sossego da morte.
Só eu e as estrelas sentíamos a solidão fantástica...
Nos ouvidos e na ansiedade guardei o rumor que chamou,
As minhas mãos tiveram a carícia doutras mãos perdidas
E uma companhia invisível acendeu uma luz na minha alma...
Alguém terá pensado em mim, longe?
Alberto de Serpa
(1906-1992)
À ÁGUA
Canta, porque um alegre deus o acompanha!
Quantos mais tombos, mais a voz levanta!
Canta, porque vem limpo da montanha!
Espelho do céu, é quanto mais partido
Que mais imagens tem da grande altura.
E quebra-se a cantar, enternecido
De regar a paisagem de frescura.
Água impoluta da nascente,
És a pura poesia
Que se dá de presente
Às arestas da humana penedia...
Miguel Torga
(1907-1995)
sábado, 22 de agosto de 2015
ÁSPERA POESIA
Áspera poesia
quase sem palavras.
Agora o silêncio
torce-se em meus nervos
e é assim que nascem
estes versos duros.
À severa face
de meus breves poemas
lancem o desprezo
da vossa alegria.
Que eu estou aqui
entre o mar e a terra
à espera do vento.
José Terra
(1928-2014)
In "Canto Submerso"
Áspera poesia
quase sem palavras.
Agora o silêncio
torce-se em meus nervos
e é assim que nascem
estes versos duros.
À severa face
de meus breves poemas
lancem o desprezo
da vossa alegria.
Que eu estou aqui
entre o mar e a terra
à espera do vento.
José Terra
(1928-2014)
In "Canto Submerso"
ESCUTAI AGORA
Escutai agora
seu canto submerso,
os muros que crescem
de silêncio e angústia,
seus lábios de pedra
que o orvalho não toca.
Nos umbrais da morte,
intranquilo e só,
ele está velando
a forma indecisa,
o corpo ondulante
da imaginação.
Coração já gasto
pelo esforço longo
de sobrevivência!
José Terra
(1928-2014)
In "Canto Submerso"
BÓIAM LEVES, DESATENTOS
Bóiam leves, desatentos,
Meus pensamentos de mágoa
Como, no sono dos ventos,
As algas, cabelos lentos
Do corpo morto das águas.
Bóiam como folhas mortas
À tona de águas paradas.
São coisas vestindo nadas,
Pós remoinhando nas portas
Das casas abandonadas.
Sono de ser, sem remédio,
Vestígio do que não foi,
Leve.mágoa, breve tédio,
Não sei se pára, se flui;
Não sei se existe ou se dói.
Fernando Pessoa
(1888-1935)
Bóiam leves, desatentos,
Meus pensamentos de mágoa
Como, no sono dos ventos,
As algas, cabelos lentos
Do corpo morto das águas.
Bóiam como folhas mortas
À tona de águas paradas.
São coisas vestindo nadas,
Pós remoinhando nas portas
Das casas abandonadas.
Sono de ser, sem remédio,
Vestígio do que não foi,
Leve.mágoa, breve tédio,
Não sei se pára, se flui;
Não sei se existe ou se dói.
Fernando Pessoa
(1888-1935)
É PELA TARDE.
E as ruas lembram singulares colmeias,
Que a alegria dos outros me entristece
E aguço o faro para as dores alheias.
Um que, impaciente, para o lar regresse,
As viaturas que se cruzam cheias
Dos que fazem da vida uma quermesse,
São para mim, faminto, odor de ceias.
Sentimento cruel de quem se afasta,
Por orgulho repele, e se desgasta
No esforço de fugir à multidão.
Mas castigo de quem, por imprudente,
Já não pode deter-se na vertente
Que vai da liberdade à solidão."
Reinaldo Ferreira
(1922-1959)
NEVOEIRO
Quem poderá saber que estranha bruma
Brotou caladamente em minha volta
Pra que eu perdesse as horas uma a uma
sem um gesto, sem um grito, sem revolta.
Quem poderá saber que estranhos laços
que sabor de morte lento e amargo
sugaram todo o sangue dos meus braços -
o sangue que era sede do mar largo
Quem poderá saber em que respostas
Se quebrou o subir do meu pedido
Para que eu bebesse imagens decompostas
à luz dum pôr de sol enlouquecido
Sophia Mello Breyner Andresen
(1919-2004)
Quem poderá saber que estranha bruma
Brotou caladamente em minha volta
Pra que eu perdesse as horas uma a uma
sem um gesto, sem um grito, sem revolta.
Quem poderá saber que estranhos laços
que sabor de morte lento e amargo
sugaram todo o sangue dos meus braços -
o sangue que era sede do mar largo
Quem poderá saber em que respostas
Se quebrou o subir do meu pedido
Para que eu bebesse imagens decompostas
à luz dum pôr de sol enlouquecido
Sophia Mello Breyner Andresen
(1919-2004)
CANTARES
Tudo passa e tudo fica
porém o nosso é passar,
passar fazendo caminhos
caminhos sobre o mar
Nunca persegui a glória
nem deixar na memória
dos homens minha canção
eu amo os mundos subtis
leves e gentis,
como bolhas de sabão
Gosto de ver-los pintar-se
de sol e grená, voar
abaixo o céu azul, tremer
subitamente e quebrar-se…
Nunca persegui a glória
Caminhante, são tuas pegadas
o caminho e nada mais;
caminhante, não há caminho,
se faz caminho ao andar
Ao andar se faz caminho
e ao voltar a vista atrás
se vê a senda que nunca
se há de voltar a pisar
Caminhante não há caminho
senão há marcas no mar…
Faz algum tempo neste lugar
onde hoje os bosques se vestem de espinhos
se ouviu a voz de um poeta gritar
“Caminhante não há caminho,
se faz caminho ao andar”…
Golpe a golpe, verso a verso…
Morreu o poeta longe do lar
cobre-lhe o pó de um país vizinho.
Ao afastar-se lhe viram chorar
“Caminhante não há caminho,
se faz caminho ao andar…”
Golpe a golpe, verso a verso…
Quando o pintassilgo não pode cantar.
Quando o poeta é um peregrino.
Quando de nada nos serve rezar.
“Caminhante não há caminho,
se faz caminho ao andar…”
Golpe a golpe, verso a verso.
Antonio Machado
(1875-1939)
(Tradução de Maria Teresa Almeida Pina)
sexta-feira, 21 de agosto de 2015
| COMO AS ESPIGAS |
| Finalmente (embora saibas que não há nem fim nem princípio): deves dizer ainda que há uma rosa de espuma no teu peito e que o seu perfume não se esgota. E que lá também existe uma fonte onde bebem as flores silvestres. Mas não humildes, como ias chamar-Ihes: altas como as espigas do vento, que no vento se esquecem e que no vento amadurecem. Albano Martins in Escrito a Vermelho |
OS SOBREIROS SONHAM
Os sobreiros sonham
sonhos desvairados,
que só os pastores
e as pedras suspeitam.
Sonham que são livres
e vão pelo mundo,
com raízes de água
e cabelos soltos.
No céu por lavrar,
as nuvens são cardos
e o sol um milhafre
que esvazia os olhos.
Dos sonhos só resta
a angústia que os ousa.
A angústia é concreta.
Os sonhos são sombras.
Seguros à terra
com garras de bronze,
os sobreiros sonham
impossíveis rumos.
Armindo Rodrigues
(1904-1993)
Os sobreiros sonham
sonhos desvairados,
que só os pastores
e as pedras suspeitam.
Sonham que são livres
e vão pelo mundo,
com raízes de água
e cabelos soltos.
No céu por lavrar,
as nuvens são cardos
e o sol um milhafre
que esvazia os olhos.
Dos sonhos só resta
a angústia que os ousa.
A angústia é concreta.
Os sonhos são sombras.
Seguros à terra
com garras de bronze,
os sobreiros sonham
impossíveis rumos.
Armindo Rodrigues
(1904-1993)
NEM SEMPRE SOU IGUAL
Nem sempre sou igual no que digo e escrevo.
Mudo, mas não mudo muito.
A cor das flores não é a mesma ao sol
De que quando uma nuvem passa
Ou quando entra a noite
E as flores são cor da sombra.
Mas quem olha bem vê que são as mesmas flores.
Por isso quando pareço não concordar comigo,
Reparem bem para mim:
Se estava virado para a direita,
Voltei-me agora para a esquerda,
Mas sou sempre eu, assente sobre os mesmos pés —
O mesmo sempre, graças ao céu e à terra
E aos meus olhos e ouvidos atentos
E à minha clara simplicidade de alma ...
Alberto Caeiro / Fernando Pessoa
(1888-1935)
quinta-feira, 20 de agosto de 2015
VOA MEU SONHO
Voa, meu sonho, voa sobre as planícies geladas,
Voa sobre as árvores mortas do Inverno,
Paira sobre a lonjura das belas noites de estrelas,
Nunca pares, continua a voar cada vez mais.
Arde, minha saudade, como chama eterna,
Arde na escuridão onde tudo se apagou e foi há muito.
Eterna é esta saudade, é a vida, é a ousadia,
E o fogo que salta sobre o véu de cinzas.
Compreende que para quem nada conseguiu,
E junto à praia nunca repousou,
Não há morte para alta fogueira que ardeu,
Não há medida para terras azuis da sua saudade.
O meu coração vive de saudade em saudade.
Sempre para desconhecida costa se volta –
A saudade de um poeta não obedece às leis do espaço,
A terra dos sonhos não tem fronteiras.
Bertel Gripenberg.
(1878-1947)
In "Rosa do Mundo 2001 Poemas Para o Futuro"
Trad. José Agostinho Baptista
Voa, meu sonho, voa sobre as planícies geladas,
Voa sobre as árvores mortas do Inverno,
Paira sobre a lonjura das belas noites de estrelas,
Nunca pares, continua a voar cada vez mais.
Arde, minha saudade, como chama eterna,
Arde na escuridão onde tudo se apagou e foi há muito.
Eterna é esta saudade, é a vida, é a ousadia,
E o fogo que salta sobre o véu de cinzas.
Compreende que para quem nada conseguiu,
E junto à praia nunca repousou,
Não há morte para alta fogueira que ardeu,
Não há medida para terras azuis da sua saudade.
O meu coração vive de saudade em saudade.
Sempre para desconhecida costa se volta –
A saudade de um poeta não obedece às leis do espaço,
A terra dos sonhos não tem fronteiras.
Bertel Gripenberg.
(1878-1947)
In "Rosa do Mundo 2001 Poemas Para o Futuro"
Trad. José Agostinho Baptista
terça-feira, 18 de agosto de 2015
AQUI NA ORLA DA PRAIA, MUDO E CONTENTE DO MAR.
Aqui na orla da praia, mudo e contente do mar,
Sem nada já que me atraia, nem nada que desejar,
Farei um sonho, terei meu dia, fecharei a vida,
E nunca terei agonia, pois dormirei de seguida.
A vida é como uma sombra que passa por sobre um rio
Ou como um passo na alfombra de um quarto que jaz vazio;
O amor é um sono que chega para o pouco ser que se é;
A glória concede e nega; não tem verdades a fé.
Por isso na orla morena da praia calada e só,
Tenho a alma feita pequena, livre de mágoa e de dó;
Sonho sem quase já ser, perco sem nunca ter tido,
E comecei a morrer muito antes de ter vivido.
Dêem-me, onde aqui jazo, só uma brisa que passe,
Não quero nada do acaso, senão a brisa na face;
Dêem-me um vago amor de quanto nunca terei,
Não quero gozo nem dor, não quero vida nem lei.
Só, no silêncio cercado pelo som brusco do mar,
Quero dormir sossegado, sem nada que desejar,
Quero dormir na distância de um ser que nunca foi seu,
Tocado do ar sem fragrância da brisa de qualquer céu.
Fernando Pessoa
(1888-1935)
Aqui na orla da praia, mudo e contente do mar,
Sem nada já que me atraia, nem nada que desejar,
Farei um sonho, terei meu dia, fecharei a vida,
E nunca terei agonia, pois dormirei de seguida.
A vida é como uma sombra que passa por sobre um rio
Ou como um passo na alfombra de um quarto que jaz vazio;
O amor é um sono que chega para o pouco ser que se é;
A glória concede e nega; não tem verdades a fé.
Por isso na orla morena da praia calada e só,
Tenho a alma feita pequena, livre de mágoa e de dó;
Sonho sem quase já ser, perco sem nunca ter tido,
E comecei a morrer muito antes de ter vivido.
Dêem-me, onde aqui jazo, só uma brisa que passe,
Não quero nada do acaso, senão a brisa na face;
Dêem-me um vago amor de quanto nunca terei,
Não quero gozo nem dor, não quero vida nem lei.
Só, no silêncio cercado pelo som brusco do mar,
Quero dormir sossegado, sem nada que desejar,
Quero dormir na distância de um ser que nunca foi seu,
Tocado do ar sem fragrância da brisa de qualquer céu.
Fernando Pessoa
(1888-1935)
CANÇÃO DE VIAGEM NO RIO CHIKUMA
Ontem foi outra vez assim,
Também hoje será assim,
Para quê tanta agitação nesta vida,
Sempre ansiosos pelo dia de amanhã?
Muitas vezes desci ao vale
Onde se detém o sonho do crescimento e do declínio
E vi as ondas do rio hesitantes,
Água cheia de areia que enrola e regressa.
Ah! A velha mansão - que diz ela?
A ondulação na margem - o que responde?
Em silêncio pensa no tempo que passou,
Cem anos como se fosse ontem.
Os salgueiros do Rio Chikuma crescem frágeis:
A Primavera frívola, a água afastando-se.
Sozinho vagueio entre as rochas.
E a esta margem prendo os meus cuidados.
Shimazaki Tóson.
(1872-1943)
In "Rosa do Mundo 2001 poemas Para o Futuro"
Trad.
José Alberto Oliveira
REGRESSO AO LAR Ai, há quantos anos que eu parti chorando Deste meu saudoso, carinhoso lar!... Foi há vinte?...há trinta? Nem eu sei já quando!... Minha velha ama, que me estás fitando, Canta-me cantigas para eu me lembrar!... Dei a volta ao mundo, dei a volta à Vida... Só achei enganos, decepções, pesar... Oh! a ingénua alma tão desiludida!... Minha velha ama, com a voz dorida, Canta-me cantigas de me adormentar!... Trago d'amargura o coração desfeito... Vê que fundas mágoas no embaciado olhar! Nunca eu saíra do meu ninho estreito!... Minha velha ama que me deste o peito, Canta-me cantigas para me embalar!... Pôs-me Deus outrora no frouxel do ninho Pedrarias d'astros, gemas de luar... Tudo me roubaram, vê, pelo caminho!... Minha velha ama, sou um pobrezinho... Canta-me cantigas de fazer chorar! Como antigamente, no regaço amado, (Venho morto, morto!...) deixa-me deitar! Ai, o teu menino como está mudado! Minha velha ama, como está mudado! Canta-lhe cantigas de dormir, sonhar!... Cante-me cantigas, manso, muito manso... Tristes, muito tristes, como à noite o mar... Canta-me cantigas para ver se alcanço Que a minh'alma durma, tenha paz, descanso, Quando a Morte, em breve, ma vier buscar!..
Guerra Junqueiro
(1850-1923)
domingo, 16 de agosto de 2015
P`RA TUDO QUANTO É NASCIDO
P’ra tudo quanto é nascido
dizem que o sol alumeia,
mas uns têm a casa cheia
e outros o chão varrido!
Está isto mal dividido,
o mundo está mal composto,
uns vivendo com desgosto,
outros com muita alegria;
p’ra estes é sempre de dia
p’ra mim é sempre sol-posto!.
(Poeta de Santa Luzia e, segundo Manuel da Fonseca, analfabeto.)
sábado, 15 de agosto de 2015
QUANDO O AMOR MORRER
Quando o amor morrer dentro de ti,
Caminha para o alto onde haja espaço,
E com o silêncio outrora pressentido
Molda em duas colunas os teus braços.
Relembra a confusão dos pensamentos,
E neles ateia o fogo adormecido
Que uma vez, sonho de amor, teu peito ferido
Espalhou generoso aos quatro ventos.
Aos que passarem dá-lhes o abrigo
E o nocturno calor que se debruça
Sobra as faces brilhantes de soluços.
E se ninguém vier, ergue o sudário
Que mil saudosas lágrimas velaram;
Desfralda na tua alma o inventário
Do templo onde a vida ora de bruços
A Deus e aos sonho que gelaram.
Ruy Cinatti
(1915-1986)
Quando o amor morrer dentro de ti,
Caminha para o alto onde haja espaço,
E com o silêncio outrora pressentido
Molda em duas colunas os teus braços.
Relembra a confusão dos pensamentos,
E neles ateia o fogo adormecido
Que uma vez, sonho de amor, teu peito ferido
Espalhou generoso aos quatro ventos.
Aos que passarem dá-lhes o abrigo
E o nocturno calor que se debruça
Sobra as faces brilhantes de soluços.
E se ninguém vier, ergue o sudário
Que mil saudosas lágrimas velaram;
Desfralda na tua alma o inventário
Do templo onde a vida ora de bruços
A Deus e aos sonho que gelaram.
Ruy Cinatti
(1915-1986)
O AMOR É UMA COMPANHIA
O amor é uma companhia.
Já não sei andar só pelos caminhos,
Porque já não posso andar só.
Um pensamento visível faz-me andar mais depressa
E ver menos, e ao mesmo tempo gostar bem de ir vendo tudo.
Mesmo a ausência dela é uma coisa que está comigo.
E eu gosto tanto dela que não sei como a desejar.
Se a não vejo, imagino-a e sou forte como as árvores altas.
Mas se a vejo tremo, não sei o que é feito do que sinto na ausência dela.
Todo eu sou qualquer força que me abandona.
Toda a realidade olha para mim como um girassol com a cara dela no meio.
Fernando Pessoa / Alberto Caeiro
(1888-1935)
O amor é uma companhia.
Já não sei andar só pelos caminhos,
Porque já não posso andar só.
Um pensamento visível faz-me andar mais depressa
E ver menos, e ao mesmo tempo gostar bem de ir vendo tudo.
Mesmo a ausência dela é uma coisa que está comigo.
E eu gosto tanto dela que não sei como a desejar.
Se a não vejo, imagino-a e sou forte como as árvores altas.
Mas se a vejo tremo, não sei o que é feito do que sinto na ausência dela.
Todo eu sou qualquer força que me abandona.
Toda a realidade olha para mim como um girassol com a cara dela no meio.
Fernando Pessoa / Alberto Caeiro
(1888-1935)
AMOR DESTA TARDE QUE ARREFECEU
só a ti canto, que não há desastre
de onde não possa ainda erguer-me
para encontrar de novo a tua face.
Amor desta tarde que arrefeceu
as mãos e os olhos que te dei;
amor exacto, vivo, desenhado
a fogo, onde eu próprio me queimei;
amor que me destrói e destruiu
a fria arquitectura desta tarde
- só a ti canto, que nem eu já sei
outra forma de ser e de encontrar-me.
Só a ti canto que não há razão
para que o frio que me queima os olhos
me trespasse e me suba ao coração;
amor exacto, vivo, desenhado
a fogo, onde eu próprio me queimei;
amor que me destrói e destruiu
a fria arquitectura desta tarde
- só a ti canto, que nem eu já sei
outra forma de ser e de encontrar-me.
Só a ti canto que não há razão
para que o frio que me queima os olhos
me trespasse e me suba ao coração;
só a ti canto, que não há desastre
de onde não possa ainda erguer-me
para encontrar de novo a tua face.
Eugénio de Andrade
(1923-2005)
HÁ SERES QUE SÃO MAIS IMAGEM QUE MATÉRIA
Há seres que são mais imagem que matéria
mais olhar do que corpo
tão imateriais os amámos
que quase não queremos tocá-los com palavras
desde a infância os buscamos
mais no sonho que na carne
e sempre no limiar dos lábios
a luz da manhã parece dizê-losHomero Aridjis
(N:1940)
Trad. de José Bento
In "Rosa do Mundo 2001 Poemas Para o Futuro"
sexta-feira, 14 de agosto de 2015
DOIS MUNDOS
A todo o momento esse dia está a chegar:
Enviaremos petições a todos os guardas prisionais
Pedindo-lhes que nos salvem de medo liberdade inverno
E nos permitam cumprir a nossa pena.
Quando finalmente nos puserem as algemas
Que o mundo perca o seu equilíbrio vergonhoso.
Entre as suas metades que formam o mundo,
Que a dos condenados possa tornar-se a maior
E os guardas, com vergonha e medo,
Uma noite destas, peçam para ficar connosco.
Matija Beckovic
(N: 1939)
In "Rosa do Mundo 2001 Poemas Para o Futuro"
Trad. de José Alberto Oliveira
TENTO POETICAMENTE
isto é
de singeleza iluminadas águas
o espaço do pleno viver
exprimir
não fosse eu homem
igual a uma multidão de homens
mas fosse eu quem sou
o anjo pétreo ou líquido
nascimento e putrefacção não me teriam tocado
o caminho de desamparo a comunhão
caminho pedras pedras bichos bichos pássaros pássaros
não ficaria tão sujo
como agora se vê nos meus poemas
instantâneos desse caminho
o que sempre se chamou beleza
beleza hoje queimou o rosto
já não consola o homem
consola as larvas os répteis os ratos
ao homem assusta
ferindo-o pela consciência
de que é migalha de pão na saia do universo
já não só o mal
a punhalada mortal nos humilha ou revolta
igualmente o bem
o abraço nos faz remexer desesperadamente
no espaço
por isso eu procurei a linguagem
em sua beleza
lá ouvi que ela de humano apenas tinha
os defeitos de fala da sombra
e os da ensurdecedora luz do sol
Lucebert
(1924-1994)
In "Rosa do Mundo 2001 Poemas Para o Fururo"
Trad. de August Willemsen e Egito Gonçalves.
isto é
de singeleza iluminadas águas
o espaço do pleno viver
exprimir
não fosse eu homem
igual a uma multidão de homens
mas fosse eu quem sou
o anjo pétreo ou líquido
nascimento e putrefacção não me teriam tocado
o caminho de desamparo a comunhão
caminho pedras pedras bichos bichos pássaros pássaros
não ficaria tão sujo
como agora se vê nos meus poemas
instantâneos desse caminho
o que sempre se chamou beleza
beleza hoje queimou o rosto
já não consola o homem
consola as larvas os répteis os ratos
ao homem assusta
ferindo-o pela consciência
de que é migalha de pão na saia do universo
já não só o mal
a punhalada mortal nos humilha ou revolta
igualmente o bem
o abraço nos faz remexer desesperadamente
no espaço
por isso eu procurei a linguagem
em sua beleza
lá ouvi que ela de humano apenas tinha
os defeitos de fala da sombra
e os da ensurdecedora luz do sol
Lucebert
(1924-1994)
In "Rosa do Mundo 2001 Poemas Para o Fururo"
Trad. de August Willemsen e Egito Gonçalves.
SONHO
Penso que devo ter adormecido por algum tempo;
Pois quando acordei tinhas vindo e partido.
Apenas algumas flores permaneciam –
Flores que não podiam sequer dizer quem eram...
E uma fragrância vaga e suave no ar.
Esta noite tenho de sonhar um sonho mais longo
Para que as flores falem
E a sua fragrância estenda uma trémula ponte
Entre nós.
Purushottam Shilaram Rege
(1910-1978)
Trad.: Cecília Rego Pinheiro
In " Rosa do Mundo 2001 Poemas Para o Futuro"
Penso que devo ter adormecido por algum tempo;
Pois quando acordei tinhas vindo e partido.
Apenas algumas flores permaneciam –
Flores que não podiam sequer dizer quem eram...
E uma fragrância vaga e suave no ar.
Esta noite tenho de sonhar um sonho mais longo
Para que as flores falem
E a sua fragrância estenda uma trémula ponte
Entre nós.
Purushottam Shilaram Rege
(1910-1978)
Trad.: Cecília Rego Pinheiro
In " Rosa do Mundo 2001 Poemas Para o Futuro"
quinta-feira, 13 de agosto de 2015
FLOR DA LIBERDADE
Também nós... Também nós... E o sol recua.
Apenas o teu rosto continua
A sorrir como dantes,
Liberdade!
Liberdade do homem sobre a terra,
Ou debaixo da terra.
Liberdade!
O não inconformado que se diz
A Deus, à tirania, à eternidade.
Sepultos, insepultos,
Vivos amortalhados,
Passados e presentes cidadãos:
Temos nas nossas mãos
O terrível poder de recusar!
E é essa flor que nunca desespera
No jardim da perpétua primavera.
Miguel Torga
(1907-1995)
quarta-feira, 12 de agosto de 2015
O QUE NÃO SE RECORDA
Para voltar a ser feliz era
somente preciso ser hábil
ao recordar.
Buscávamos
dentro do coração nossas lembranças.
A alegria talvez não tenha história.
Ao olhar para dentro de nós dois
ficávamos calados.
Teus olhos eram
como um rebanho quieto
que seu tremor reúne sob a sombra
do álamo.
O silêncio
pôde mais que o esforço.
Anoitecia
para sempre no céu.
Não pudemos voltar a recordá-lo.
No mar a brisa era um menino cego.
Luis Rosales
(1910-1992)
In "Rosa do Mundo 2001 Poemas Para o Futuro"
Trad. de José Bento.
Eu
Eu, eu mesmo...Eu, cheio de todos os cansaços
Quantos o mundo pode dar. —
Eu...
Afinal tudo, porque tudo é eu,
E até as estrelas, ao que parece,
Me saíram da algibeira para deslumbrar crianças...
Que crianças não sei...
Eu...
Imperfeito? Incógnito? Divino?
Não sei...
Eu...
Tive um passado? Sem dúvida...
Tenho um presente? Sem dúvida...
Terei um futuro? Sem dúvida...
A vida que pare de aqui a pouco...
Mas eu, eu...
Eu sou eu,
Eu fico eu,
Eu...
Álvaro de Campos / Fernando Pessoa
(1888-1935)
PAÍS LONGÍNQUO
O meu sofrimento
É simples
Tal como para cuidar de um animal de um país longínquo
Não é necessário um tratador
A minha poesia
É simples
Tal como para ler uma carta de um país longín
Não são necessárias lágrimas
As minhas alegrias e penas
Ainda são mais simples
Tal como para matar um homem de um país longínquo
Não são necessárias palavras"
Tamura Ryuichi
(1923-1998)
In "Rosa do Mundo 2001 Poemas Para o Futuro"
(Trad. José Alberto Oliveira)
SEGUNDO LORCA
(Para M. Marti.)
A igreja é um negócio e os ricos
são os homens de negócios.
Quando tocam os sinos, os
pobres entram e amontoam-se e quando um pobre morre, tem uma
cruz
de madeira, e apressam-se na cerimónia.
Mas quando um rico morre,
retiram o Sacramento
e uma Cruz dourada e vão doucement, doucement
para o cemitério.
E os pobres adoram
e acham fantástico.
Robert Creeley
(1926-2005)
Tradução de José Alberto Oliveira
"In Rosa do Mundo 2001 Poemas para o Futuro"
(Para M. Marti.)
A igreja é um negócio e os ricos
são os homens de negócios.
Quando tocam os sinos, os
pobres entram e amontoam-se e quando um pobre morre, tem uma
cruz
de madeira, e apressam-se na cerimónia.
Mas quando um rico morre,
retiram o Sacramento
e uma Cruz dourada e vão doucement, doucement
para o cemitério.
E os pobres adoram
e acham fantástico.
Robert Creeley
(1926-2005)
Tradução de José Alberto Oliveira
"In Rosa do Mundo 2001 Poemas para o Futuro"
DOMINGO
A distância entre mim e o que me circunda,
sempre a repercutir-se nos meus gestos,
aflige-me e dói-me.
Olho para aquela rua vagamente,
olho em volta de mim neste café longínquo,
e todas as coisas não significam coisa alguma
e toda a gente tem escrita no rosto
quanta traição da vida!
Ah, que não consigo ser fraterno e integrar-me
e ser despreocupado e ignorante
do meu, do nosso drama...
Bem quisera esquecer-me e enlear-me
nas coisas fúteis, ingenuamente vis,
que alimentam o destino desta gente.
Mas olho para mim e sinto-me diferente,
amachucado pela lucidez duma intuição
que todas as tentativas para imiscuir-me
não conseguem mais do que exacerbar.
Consola-me a certeza de que tudo isto é fictício,
e não me custa a renúncia, em troca deste contemplar
calado, discreto mas tumultuoso...
Lá fora há agitação e há bulício.
Paira sobre as coisas a inutilidade,
o frágil, o efémero...
(Chego às vezes a pensar que tudo não seja mais que representação.)
Cansado do espectáculo,
abandono esta mesa de café
e vou passear ilusões impossíveis,
até que a noite venha e eu recolha
à solidão do meu quarto
— mãos vazias e coração intranquilo.
Luís Amaro
UM DIA NÃO MUITO LONGE NÃO MUITO PERTO
Às vezes sabes sinto-me farto
por tudo isto ser sempre assim
Um dia não muito longe não muito perto
um dia muito normal um dia quotidiano
um dia não é que eu pareça lá muito hirto
entrarás no quarto e chamarás por mim
e digo-te já que tenho pena de não responder
de não sair do meu ar vagamente absorto
farei um esforço parece mas nada a fazer
hás-de dizer que pareço morto
que disparate dizias tu que houve um surto
não sabes de quê não muito perto
e eu sem nada pra te dizer
um pouco farto não muito hirto e vagamente absorto
não muito perto desse tal surto
queres tu ver que hei-de estar morto?
Ruy Belo
(1933-1978)
ALJUBE, 1938
Inerte e vã, cai a penumbra,
indiferentemente,
por sobre os movimentos nítidos, ou indecisos,
as palavras
com segurança proferidas,
ou hesitantes, de timidez ou espanto,
os risos arejados e salubres,
ou as lágrimas sem remédio
das grandes desolações,
ou dos grandes dramas.
Inerte e vã, cai a penumbra,
impassível e inelutável,
ao mesmo tempo que, por isso mesmo, justiceira,
pois tudo, afinal, se equivale e se anula,
na sucessão voraz
dos sentimentos e das circunstâncias.
Inerte e vã, cai a penumbra.
Mas eu, decidido, fito-a,
ou, antes, fito o que ela envolve e adoça,
em lugar de também me abandonar a ela,
com a sua sedução de imponderável sono.
Inerte e vã, cai a penumbra.
É o fim da tarde no horizonte manso,
que no rio acende um último lampejo,
que só adivinho,
e em mim reata uma pungente saudade,
nem percebo de quê,
nem percebo de quando,
à força de ser com certeza de mim,
de antes de eu ter saudades de nada.
Inerte e vã, cai a penumbra.
Este ruído que oiço é o de um cão a ladrar,
ou o de portas fechando-se,
ou, mais simplesmente,
o do meu coração a querer evadir-se?
Agora, os cais devem estar apinhados,
o rio magoado lentamente desliza,
e a brisa que sopra as arestas morde
dos edifícios em monte
que as colinas cavalgam.
Há incêndios finais de dolorosas chagas
nalgumas vidraças que os derradeiros raios
do sol tange ainda.
Um surdo clamor cresce das ruas cheias
de uma gente agitada, que à pressa caminha,
e em tropel assalta os carros eléctricos
que telintam aflitos.
É a hora do enorme desafio
da alegria do cansaço vencido,
da proximidade do jantar fumegante,
da preguiça, do ócio, da intimidade.
Os automóveis cruzam-se,
ultrapassam-se, velozes,
de buzinas febris ferindo os ouvidos.
Nos parapeitos das janelas amargas,
com grades e redes poeirentas e vis,
alguns pombos descuidados debicam
as migalhas de pão que nós lhes deitamos
com os dedos crispados de amor e de angústia.
Inerte e vã, cai a penumbra.
E em cada um de nós, que um pudor emudece,
chora, mais negro, mais cruel, mais duro,
mais um dia inútil, perdido para a vida.
Armindo Rodrigues
(1904-1938)
terça-feira, 11 de agosto de 2015
MARESIA
Neste mar à minha frente
O sol repousa e os nossos olhos dormem…
- Caem saudades mortas como chuva miúda,
Ou sobem, trémulas, como o vapor das algas,
Ou ficam, extáticas, como um bafo da areia,
Calmas, sobre a paisagem,
Como um véu de cambraia deixado…
Não sei se é o calor das algas,
Se é o bafo da areia que baila,
Ou se é a chuva miúda que cai neste dia de sol
Como um véu de cambraia deixado,
Sei que me lembram os signos do Zodíaco
Em boa caligrafia,
Uns signos como nem sequer eu tinha imaginado!...
E este calor que dimana da terra e nos confunde com ela,
Nos aquece as pernas de encontro à areia, numa vida exterior
Com mais sangue que a nossa e, sobretudo, cheia
Duma inconsciência que se não parece com nada,
Esta respiração pausada como as ondas, de trás para diante
Fazendo, lentas, e desfazendo
A mesma curva humaníssima e sensível,
Faz-me escrever, devagar, e com letra de menino pequeno
Sobre o chão acamado, esta palavra.
AMOR.
António Pedro
(1909-1966)
In "Rosa do Mundo 2001 Poemas Para o Futuro"
Neste mar à minha frente
O sol repousa e os nossos olhos dormem…
- Caem saudades mortas como chuva miúda,
Ou sobem, trémulas, como o vapor das algas,
Ou ficam, extáticas, como um bafo da areia,
Calmas, sobre a paisagem,
Como um véu de cambraia deixado…
Não sei se é o calor das algas,
Se é o bafo da areia que baila,
Ou se é a chuva miúda que cai neste dia de sol
Como um véu de cambraia deixado,
Sei que me lembram os signos do Zodíaco
Em boa caligrafia,
Uns signos como nem sequer eu tinha imaginado!...
E este calor que dimana da terra e nos confunde com ela,
Nos aquece as pernas de encontro à areia, numa vida exterior
Com mais sangue que a nossa e, sobretudo, cheia
Duma inconsciência que se não parece com nada,
Esta respiração pausada como as ondas, de trás para diante
Fazendo, lentas, e desfazendo
A mesma curva humaníssima e sensível,
Faz-me escrever, devagar, e com letra de menino pequeno
Sobre o chão acamado, esta palavra.
AMOR.
António Pedro
(1909-1966)
In "Rosa do Mundo 2001 Poemas Para o Futuro"
SEM ABRIGO
Só nos meus poemas encontro morada
Abrigo diferente não me foi cedido;
Ao próprio lar nunca me vi atraído,
E a tenda plo vento brutal foi levada.
Só nos meus poemas encontro morada.
E, se tal refúgio consigo nos matos,
Em estepes, cidades ou sítios ingratos,
Miséria nenhuma me afectará nada.
Ainda demora, mas há-de chegar
O tempo em que a força me abandonará
E em vão doces ditos irá requerer
Com que eu construía, e em que o chão irá
Guardar-me e eu me inclino pra esse lugar
Onde há uma cova no escuro a romper.
J. Slauerhoff
(1898-1936)
Trad. de Fernando Venâcio
In "Rosa do Mundo 2001 Poemas Para o Futuro"
segunda-feira, 10 de agosto de 2015
O GANHO
Nada perdeu,
Pois nada possuía,
Quem chegava inválido e despido.
Mas ganhou pouco a pouco, depressa,
o melhor de saudades, preguiça acobardada,
e uma medida rasa de incertezas
onde a ilusão com tédio vai procurar migalhas.
Pere Quart
(1899-1986)
Trad. de José Bento
In "Rosa do Mundo 2001 Poemas Para o Futuro"
BARCO SEM VOZ
No dia que a âncora enfim seja tempo de erguer,
Do porto um barco partindo, sem meta saber,
Sem voz passa: ao largo trará passageiro afinal?
Não há mão no ar, nem de lenço no adeus um sinal
P'ra quantos ficaram no cais, travessia é ruim,
O húmido olhar, negro céu fita dias sem fim.
Oh, almas penadas! O último barco não é!
Da vida deserta o último luto não é!
No mundo, amante e amado esperam em vão:
Mal sabem que amores partidos não mais voltarão.
De quantos partiram, contente lá está cada um,
Muito ano passou: da viagem não volta nenhum.
Yahyâ Kemal Beyatli
[1884-1958]
In "Rosa do Mundo 2001 Poemas Para o Futuro"
Trad. de Doina Zugravescu
Do porto um barco partindo, sem meta saber,
Sem voz passa: ao largo trará passageiro afinal?
Não há mão no ar, nem de lenço no adeus um sinal
P'ra quantos ficaram no cais, travessia é ruim,
O húmido olhar, negro céu fita dias sem fim.
Oh, almas penadas! O último barco não é!
Da vida deserta o último luto não é!
No mundo, amante e amado esperam em vão:
Mal sabem que amores partidos não mais voltarão.
De quantos partiram, contente lá está cada um,
Muito ano passou: da viagem não volta nenhum.
Yahyâ Kemal Beyatli
[1884-1958]
In "Rosa do Mundo 2001 Poemas Para o Futuro"
Trad. de Doina Zugravescu
SOBERBA
Pedi-lhe um alto canto a suavizar
meu viver rude, monótono, sombrio
Ela deu-me a cotovia de uma rima encantada...
Eu queria mil!
Pedi-lhe um exemplar do ritmo seguro
com que eu pudesse dirigir meu afã.
Deu-me um regato, um murmúrio nocturno...
Eu queria um mar.
Pedi-lhe uma fogueira de ardor jamais extinto,
para que a meus sonhos concedesse calor.
E deu-me um pirilampo de minúsculo brilho...
Eu queria um sol!
Que vã é a vida, que inútil meu impulso,
e o azul abril e o verdor do éden...
Oh tão sórdido guia da viagem nocturna:
Eu quero morrer!
Porfírio Barba-Jacob
(1883-1942)
Trad. de José Bento
In "Rosa do Mundo 2001 Poemas Para o Futuro"
COMO SE NUNCA
É algo mais que o dia o que morre esta tarde?
O vento,
- que leva ele,
que aromas arrebata?
Desatadas de súbito as folhas das árvores
cegas vão pelo céu.
Pássaros altos atravessam, adiantam-se
à luz que os guia.
Sombria claridade
será já em outro sítio
- só por um instante -
madrugada.
Com bandeiras de fumo alguém me avisa:
- Olha bem tudo isto;
isto que passa
não voltará jamais
e é como se não tivesse nunca sido
efémera matéria da tua vida.
Ángel González
(1925-2008)
In "Rosa do Mundo 2001 Poemas Para o Futuro"
Tradução: José Bento
É algo mais que o dia o que morre esta tarde?
O vento,
- que leva ele,
que aromas arrebata?
Desatadas de súbito as folhas das árvores
cegas vão pelo céu.
Pássaros altos atravessam, adiantam-se
à luz que os guia.
Sombria claridade
será já em outro sítio
- só por um instante -
madrugada.
Com bandeiras de fumo alguém me avisa:
- Olha bem tudo isto;
isto que passa
não voltará jamais
e é como se não tivesse nunca sido
efémera matéria da tua vida.
Ángel González
(1925-2008)
In "Rosa do Mundo 2001 Poemas Para o Futuro"
Tradução: José Bento
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