quinta-feira, 3 de março de 2011

João Apolinário


A PRESSA DE CHEGAR



A pressa de chegar
correr correr
sem poder esperar
Chegar para morrer

A pressa de chegar
O desvario obtuso
O medo de parar
gasto pelo uso
de estar

A pressa de chegar
A pressa a louca pressa
de poder encontrar
aquilo que me esqueça
de levar

A pressa de chegar
correr correr
sem poder esperar
Chegar para morrer

João Apolinário
(1924-1988)
In "O Guardador de Automóveis"

Reinaldo Ferreira


QUE ESTRANHA, A NOSSA VERDADE


Que estranha, a nossa verdade!
Às vezes, partida a meio,
Minha ilusória unidade,
Pensando, sinto, pensei-o.

Mas quando penso o que penso
Estou-o pensando também.
Na vertigem, não me venço
E recuo e vou além

Daquilo pr'a que há defesa.
Feliz quem pode parar
Onde a certeza é certeza
E pensar é só pensar!

Reinaldo Ferreira

Reinaldo Ferreira


O FUTURO

Aos Domingos, iremos ao jardim.
Entediados, em grupos familiares,
Aos pares,
Dando-nos ares
De pessoas invulgares,
Aos Domingos iremos ao jardim.
Diremos nos encontros casuais
Com outros clãs iguais,
Banalidades rituais
Fundamentais.
Autómatos afins,
Misto de serafins
Sociais
E de standardizados mandarins,
Teremos preconceitos e pruridos,
Produtos recebidos na herança
De certos caracteres adquiridos.
Falaremos do tempo,
Do que foi, do que já houve...
E sendo já então
Por tradição
E formação
Antiburgueses
- Solidamente antiburgueses-,
Inquietos falaremos
Da tormenta que passa
E seus desvarios.

Seremos aos domingos, no jardim,
Reaccionários

Reinaldo Ferreira

quarta-feira, 2 de março de 2011

Carlos de Oliveira


CANÇÃO


Já escuro e denso o rio da memória
flui e me entristece,
se acaso lembro que chorei
o que nem lágrimas merece.

Se acaso o sono poupa o coração
e o coração vive,
já desalento
meu pensamento é tudo o que eu não tive.

Génio do longe, que voltaste a minha casa
quando menos cuidava!
Nem eu sei com que versos me perdi
de tudo e que era bom e me cantava.

Foge, inimiga sombra, volve
à sombra antiga que vens rumorejando...
E lá, pátria do esquecimento,
seja olvidado o que me fores lembrando.

Se em mim chorando me cansei de mim,
que eu não esqueça nunca
os que a meu lado vão, cantando,
sobre um chão que de lágrimas se junca.

Que eu não veja extinguir-se esse áspero lume
que, em sua voz dorida,
aquece já na sua própria desventura
o começo da vida.

Carlos de Oliveira
(1921-1981)
In "Colheita Perdida"

Jorge de Sena


DESCERRAR


Cansado, consentir-me-ei.

Nesse dia próximo ou distante,
quando me sentar,
pegará uma das mãos na outra mão,
direi consolações balsâmicas
do bálsamo guardado avaramente
lá onde a solidão cala a ternura,
direi tão doce, que estarei sorrindo
ao terminar dizendo que o destino existe...

E então, hei-de ter piedade de mim próprio

Jorge de Sena
(1919-1978)
In "Coroa da Terra"

Ruy Cinatti


OS OLHOS APARTANDO...


Os olhos apartando me disseste
Palavras? Não ouvi.
Eram apenas
O silêncio em que a noite se aprofunda.

Os céus imemoriais já tão distantes
Como se um véu de estrelas me apartasse,
De ti, forma de Luz, estranha forma;

Mas as mãos atravessam a memória,
E cintilando as espadas vingadoras
Rasgam a névoa por completo.

Ruy Cinatti
(1915-1986)
In "Poemas Escolhidos"

terça-feira, 1 de março de 2011

António Barahona



MEMÓRIA DO CAFÉ GELO

(À memória de Mário Cesariny de Vasconcelos)



No Café Gelo, um grupo de poetas
demanda o elixir de vida curta,
de longa morte lenta e absoluta
.....e sílabas secretas.

Mesas de mármore, cadeiras sépia;
eis um café à beira do abismo:
conversas incendiadas, sismo a sismo,
.....no desabar da época.

Revolta, ódio, fome, febre atroz:
no riso pode haver isto e tristeza
e grande amor do sonho, e da beleza
.....a que o grupo dá voz.

Não morreu este grupo: é perene
seu eco que deixou alto-relevo
numa parede-mestra, aonde subo
.....a pulso e tão solene!

De cima da parede espreito e vejo
uma mesa ocupada por nós todos:
assembleia de pássaros ignotos
.....em ilhas de desejo.

Vejo o corpo de glória de Lisboa
reclinado no ombro do Ernesto
para ler bem o seu ensaio honesto
.....dedicado a Pessoa.

Vejo o Herberto a discutir mui louco
com o Gonçalo Duarte e o D'Assumpção;
o Forte tem o coração na mão
.....esquerda e fala pouco.

Vejo o perfil do Saldanha da Gama,
o Virgílio em tríptico esboçado,
Raul Leal, d'Orpheu, Henoch irado
.....com lucidez de flama.

Vejo um adolescente que sou eu
e que aspirava tanto a morrer jovem,
sentado, entre nós outros, quase à margem
.....numa fresta de céu.

Manuel de Castro bebe o seu bagaço,
João Rodrigues faz desenho à pena
o Mário Cesariny põe em cena
.....a sua luz no espaço.

Passaram mais de cinquenta anos
e uma tal luz persiste, não esmorece:
ilumina a leitura até ao vértice,
.....em versos soberanos.

Poeta engalanado de galfarros,
noctívago andador com pés de jade
e poesia, amor e liberdade,
.....e mais de mil cigarros.

Nas nuvens que se formam ao redor,
repousam borboletas d'asas pandas,
inebriadas pelo fumo às ondas
.....e cada vez maior.

Rio de fumo espesso que atravessa
o jovem mágico, o das mãos de oiro,
esse que a remar não se cansa muito
.....e olha tão depressa

tal se fosse de moto a singrar
no Tejo até à foz, do céu suspenso
por um fio de voz, vindo do imenso
.....cintil azul do mar.

Na sombra, Cesariny d'alto porte,
agora dá mais luz, arde a cidade,
em poesia, amor e liberdade,
.....até matar a morte.

António Barahona,(1939)