CAMPO DE BATALHA
O poeta caminha, sem destino, desesperado,
vagando o olhar sobre as pilhas de cadáveres
- homens que partiram das suas terras para virem
apodrecer aqui, adubo amontoado.
O poeta escreve sobre os mortos! Recorda
as infâncias tão próximas, as lágrimas na estação,
os beijos da família, o abraço dos amigos,
o comboio enfeitado de flores e de bandeiras.
Estendidos na planície revolvida
nem moscas nem traições os incomodam.
Uma bomba transformou-os em quietude,
as mãos vazias, os amores parados...
Livres da angústia pela morte,
não sofrerão doenças ou velhice.
Haverá missas pela sua alma
e trigo semeado, em breve, neste solo.
Cada um deles esta rígido e perfeito
com direito a um crepe no retrato.
Imperfeita, no conjunto, só a bomba,
mas trabalha-se nela com afinco.
Egito Gonçalves
(1920-2001)
In "Sonhar a Terra Livre e Insubmissa..."
domingo, 16 de dezembro de 2012
OS INQUIRIDORES
Está o mundo coberto de piolhos:
Não há palmo de terra onde não suguem,
Não há segredo de alma que não espreitem
Nem sonho que não mordam e pervertam.
Nos seus lombos peludos se divertem
Todas as cores que, neles, são ameaças:
Há-os castanhos, verdes, amarelos,
Há-os negros, vermelhos e cinzentos.
E todos se encarniçam, comem todos,
Concertados, vorazes, no seu tento
De deixar, como restos de banquete,
No deserto da terra ossos esburgados.
José Saramago
(1922-2010)
In "Os Poemas Possíveis"
Está o mundo coberto de piolhos:
Não há palmo de terra onde não suguem,
Não há segredo de alma que não espreitem
Nem sonho que não mordam e pervertam.
Nos seus lombos peludos se divertem
Todas as cores que, neles, são ameaças:
Há-os castanhos, verdes, amarelos,
Há-os negros, vermelhos e cinzentos.
E todos se encarniçam, comem todos,
Concertados, vorazes, no seu tento
De deixar, como restos de banquete,
No deserto da terra ossos esburgados.
José Saramago
(1922-2010)
In "Os Poemas Possíveis"
GOSTARIA DE DESCREVER.
gostaria de descrever a emoção mais simples
alegria ou tristeza
mas não como os outros fazem
procurando chegar a dardos de chuva ou sol
alegria ou tristeza
mas não como os outros fazem
procurando chegar a dardos de chuva ou sol
gostaria de descrever a luz
que está a nascer em mim
mas sei que não se parece
com nenhuma estrela
porque não é tão brilhante
nem tão pura
e é inconstante
que está a nascer em mim
mas sei que não se parece
com nenhuma estrela
porque não é tão brilhante
nem tão pura
e é inconstante
gostaria de descrever a coragem
sem arrastar atrás de mim um leão poeirento
e também a ansiedade
sem agitar um copo cheio de água
sem arrastar atrás de mim um leão poeirento
e também a ansiedade
sem agitar um copo cheio de água
dizendo de outra maneira
daria todas as metáforas
em troca de uma palavra
arrancada do meu peito como uma costela
por uma palavra
contida dentro dos limites
da minha pele
daria todas as metáforas
em troca de uma palavra
arrancada do meu peito como uma costela
por uma palavra
contida dentro dos limites
da minha pele
mas aparentemente isso não é possível
e só para dizer — eu amo
corro em círculos como um louco
apanhando mãos cheias de pássaros
e a minha ternura
que afinal de contas não é feita de água
pergunta à água por um rosto
corro em círculos como um louco
apanhando mãos cheias de pássaros
e a minha ternura
que afinal de contas não é feita de água
pergunta à água por um rosto
e a ira
diferente do fogo
pede-lhe emprestada
uma língua loquaz
diferente do fogo
pede-lhe emprestada
uma língua loquaz
tudo tão emaranhado
tudo tão emaranhado
em mim
que o senhor de cabelo branco
desfez o emaranhado de uma vez por todas
e disse este é o sujeito
e este é o complemento
tudo tão emaranhado
em mim
que o senhor de cabelo branco
desfez o emaranhado de uma vez por todas
e disse este é o sujeito
e este é o complemento
adormecemos
com uma mão debaixo da cabeça
e com a outra
num aterro de planetas
com uma mão debaixo da cabeça
e com a outra
num aterro de planetas
os nossos pés abandonam-nos
e tocam a terra
com as suas raízes minúsculas
que de manhã
arrancamos dolorosamente
e tocam a terra
com as suas raízes minúsculas
que de manhã
arrancamos dolorosamente
Zbigniew Herbert
(1924-1998)
In "Escolhido Pelas Estrelas"
Trad. de Jorge Sousa Braga.
sábado, 15 de dezembro de 2012
REMORSO EM FATO DE NOITE
Pela rua de névoa vai um homem cinzento;
Mas ninguém o suspeita. É um corpo vazio;
Vazio como pampa, como mar, como vento
Desertos tão amargos sob um céu implacável.
É o tempo passado, suas asas agora
Encontram entre a sombra uma pálida força;
É o remorso que, de noite, hesitando,
Em segredo aproxima sua sombra sem cuidado.
Não lhe apertes a mão. A hera altivamente
Subirá a cobrir os troncos do inverno.
Invisível na calma segue o homem cinzento.
Vós não sentis os mortos? Mas a terra está surda.
Luis Cernuda
(1902-1963)
In "Antologia Poética"
Trad. de José Bento.
tudo o que és
rubro e vivo, porém, incontido,
e pelos espaços entre os dedos escorre a areia
intemporal dos desertos irrefragáveis da vida,
da vida pura, da vida suja, da vida morta,
quando entre as nuvens vês a escuridão de um céu
sem lua, negro de horas cujo sol não abençoou,
quando a alma se te foge dos arrumos onde a guardaste,
cuidada, bem aprisionada, acondicionada nas estantes
desse armário infinito, de madeira roída pelos bichos
da memória que te corroem o cérebro exausto,
quando tudo te passa à frente à velocidade do metropolitano
do futuro e na tua cara correm os ventos quentes do abismo,
viras as costas à mortalidade, porque tudo já passou sem permissão,
porque tudo o que fizeste nunca mereceu perdão,
porque tudo o que és se condensa no espaço fechado de uma mão.
Miguel Tiago
In "Letras Ígneas"
quarta-feira, 12 de dezembro de 2012
BOM DIA, AFONSO DUARTE
Nestas ruas exaustas de morte e silêncio,
entre rios mortos e áspera solidão,
passeio contigo, Afonso Duarte.
Sob teu rosto grave, teus nevados cabelos,
seara cansada de tantas espigas,
couves e rosas, Afonso Duarte.
Um galo canta longínquo, ou é tua voz
a seiva do chão, oculta e milenária,
a cantar ainda, Afonso Duarte?
Em teu jardim de angústia (ao longe o mar) colho
no ramo quebrado nossa ave imperecível
e a dor da Pátria, Afonso Duarte.
E vendo-te, raiz e flor, a meio do teu povo,
(eu mesmo cavo e sou quem poda a vinha)
só te digo: Bom dia, Afonso Duarte.
Papiniano Carlos
(1918-2012)
In "Sonhar a Terra Livre e Insubmissa"
Edição de Fevereiro de 1973.
Nestas ruas exaustas de morte e silêncio,
entre rios mortos e áspera solidão,
passeio contigo, Afonso Duarte.
Sob teu rosto grave, teus nevados cabelos,
seara cansada de tantas espigas,
couves e rosas, Afonso Duarte.
Um galo canta longínquo, ou é tua voz
a seiva do chão, oculta e milenária,
a cantar ainda, Afonso Duarte?
Em teu jardim de angústia (ao longe o mar) colho
no ramo quebrado nossa ave imperecível
e a dor da Pátria, Afonso Duarte.
E vendo-te, raiz e flor, a meio do teu povo,
(eu mesmo cavo e sou quem poda a vinha)
só te digo: Bom dia, Afonso Duarte.
Papiniano Carlos
(1918-2012)
In "Sonhar a Terra Livre e Insubmissa"
Edição de Fevereiro de 1973.
segunda-feira, 10 de dezembro de 2012
FECHOU-SE A MINHA VIDA DUAS VEZES ANTES DE SE FECHAR.
Fechou-se a minha vida duas vezes antes de se fechar –
Mas fica por saber
Se a imortalidade me revela
Um evento maior
Tão largo, tão incrível de pensar
Como estes que sobre ela duas vezes tombaram.
Partir é tudo o que sabemos do céu,
Tudo o que do inferno se pode precisar.
Emily Dickinson
(1830-1886)
In " Cem Poemas"
Trad. de Ana Luísa Amaral.
Fechou-se a minha vida duas vezes antes de se fechar –
Mas fica por saber
Se a imortalidade me revela
Um evento maior
Tão largo, tão incrível de pensar
Como estes que sobre ela duas vezes tombaram.
Partir é tudo o que sabemos do céu,
Tudo o que do inferno se pode precisar.
Emily Dickinson
(1830-1886)
In " Cem Poemas"
Trad. de Ana Luísa Amaral.
domingo, 9 de dezembro de 2012
SEM VITÓRIA VIVES COMIGO
Pequena e carregada.
Só lá fora, onde
as nossas almas ainda estão, na terra de ninguém,
é que se canta. Canta-se
no brilho
daquilo que passou ao nosso lado.
Nem nuvem, nem estrela – nós
não olhamos para cima.
Chega-te mais, anda:
para que não sopre duas vezes o vento
através da nossa
casa aberta.
Paul Celan
(1920-1970)
CEM ANOS DE PERDÃO
Deixaram o vento à solta,
certa noite, no sertão.
Quem deixou o vento à solta?
Namorado das palmeiras
o vento fugiu das grades,
evadiu-se da prisão.
Deixaram o vento à solta,
certa noite, no sertão.
Namorado das palmeiras
foi cantar baladas tristes
toda a noite no sertão.
Quem deixou o vento à solta
tem cem anos de perdão.
Luís da Mota
In "Cerco de arame farpado"
Deixaram o vento à solta,
certa noite, no sertão.
Quem deixou o vento à solta?
Namorado das palmeiras
o vento fugiu das grades,
evadiu-se da prisão.
Deixaram o vento à solta,
certa noite, no sertão.
Namorado das palmeiras
foi cantar baladas tristes
toda a noite no sertão.
Quem deixou o vento à solta
tem cem anos de perdão.
Luís da Mota
In "Cerco de arame farpado"
domingo, 2 de dezembro de 2012
E DE SÚBITO ANOITECE.
Viver é ver morrer, envelhecer é isso,
enjoativo, tenaz cheiro da morte,
enquanto repetes, inutilmente, umas palavras,
cascas secas, vidro partido.
Ver morrer aos outros, àqueles,
poucos, a quem verdadeiramente amaste,
desmoronados, desfeitos, como o fim deste cigarro,
rostos e gestos, imagens queimadas, enrugado papel.
E ver-te morrer a ti também,
remexendo frias cinzas, apagados perfis,
disformes sonhos, turva memória.
Viver é ver morrer e é frágil a matéria
e tudo se sabia e não havia engano,
mas carne e sangue, misterioso fluir,
querem perseverar, afirmar o impossível.
Copo vazio, trémulo pulso, cinzeiro sujo,
na luz nublada do entardecer.
Viver é morrer, nada se aprende,
tudo é um desapiedado sentimento,
anos, palavras, peles, despedaçada ternura,
calor gelado da morte.
Viver é ver morrer, nada nos protege,
nada teve o seu ontem, nada o seu amanhã,
e de súbito anoitece.
Juan Luis Panero
In "Poemas"
Trad. de Joaquim Manuel Magalhães.
Viver é ver morrer, envelhecer é isso,
enjoativo, tenaz cheiro da morte,
enquanto repetes, inutilmente, umas palavras,
cascas secas, vidro partido.
Ver morrer aos outros, àqueles,
poucos, a quem verdadeiramente amaste,
desmoronados, desfeitos, como o fim deste cigarro,
rostos e gestos, imagens queimadas, enrugado papel.
E ver-te morrer a ti também,
remexendo frias cinzas, apagados perfis,
disformes sonhos, turva memória.
Viver é ver morrer e é frágil a matéria
e tudo se sabia e não havia engano,
mas carne e sangue, misterioso fluir,
querem perseverar, afirmar o impossível.
Copo vazio, trémulo pulso, cinzeiro sujo,
na luz nublada do entardecer.
Viver é morrer, nada se aprende,
tudo é um desapiedado sentimento,
anos, palavras, peles, despedaçada ternura,
calor gelado da morte.
Viver é ver morrer, nada nos protege,
nada teve o seu ontem, nada o seu amanhã,
e de súbito anoitece.
Juan Luis Panero
In "Poemas"
Trad. de Joaquim Manuel Magalhães.
sábado, 1 de dezembro de 2012
DE VITA BEATA
Num velho país ineficaz,
um pouco como a Espanha entre duas guerras
civis, numa aldeia à beira mar,
possuir uma casa e poucos bens
e memória nenhuma. Não ler,
não sofrer, não escrever, não pagar contas,
e viver como um nobre arruinado
entre as ruínas de minha inteligência.
Jaime Gil de Biedma
(1929-1990)
In "Antologia Poética"
Trad. de José Bento.
Num velho país ineficaz,
um pouco como a Espanha entre duas guerras
civis, numa aldeia à beira mar,
possuir uma casa e poucos bens
e memória nenhuma. Não ler,
não sofrer, não escrever, não pagar contas,
e viver como um nobre arruinado
entre as ruínas de minha inteligência.
Jaime Gil de Biedma
(1929-1990)
In "Antologia Poética"
Trad. de José Bento.
NÃO VOLTAREI A SER JOVEM
Que é certo a vida passa
só se começa a compreender mais tarde
– como todos os jovens, decidi
levar a minha vida por diante.
Deixar marca eu queria
e partir entre aplausos
– envelhecer, morrer, eram somente
as dimensões do teatro.
Porém passou o tempo
e a verdade mais amarga assoma:
envelhecer, morrer,
é o argumento único da obra.
Jaime Gil de Biedma
(1929-1990)
In "Antologia Poética"
Trad. de José Bento.
SONETO À MANEIRA DE CAMÕES.
Esperança e desespero de alimento
Me servem neste dia em que te espero
E já não sei se quero ou se não quero
Tão longe de razões é o meu tormento.
Mas como usar amor de entendimento?
Daquilo que te peço desespero
Ainda que mo dês - pois o que eu quero
Ninguém o dá senão por um momento.
Mas como és belo, amor, de não durares,
De ser tão breve e fundo o teu engano,
E de eu te possuir sem tu te dares.
Amor perfeito dado a um ser humano:
Também morre o florir de mil pomares
E se quebram as ondas no oceano.
Sophia de Mello Breyner Andresen
(1919-2004)
Esperança e desespero de alimento
Me servem neste dia em que te espero
E já não sei se quero ou se não quero
Tão longe de razões é o meu tormento.
Mas como usar amor de entendimento?
Daquilo que te peço desespero
Ainda que mo dês - pois o que eu quero
Ninguém o dá senão por um momento.
Mas como és belo, amor, de não durares,
De ser tão breve e fundo o teu engano,
E de eu te possuir sem tu te dares.
Amor perfeito dado a um ser humano:
Também morre o florir de mil pomares
E se quebram as ondas no oceano.
Sophia de Mello Breyner Andresen
(1919-2004)
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