segunda-feira, 9 de novembro de 2015


 SONHO

Era um menino a sonhar
com um cavalo de cartão.
O menino abriu os olhos
e não viu o cavalinho.
Com um cavalinho branco
ele voltou a sonhar;
pelas crinas o prendia...
Assim não te escaparás!
Mal o conseguiu prender,
logo o menino acordou.
Tinha a sua mão fechada.
O cavalinho voou!
O menino ficou sério,
pensando não ser verdade
um cavalinho sonhado.
Já não voltou a sonhar.
E o menino fez-se moço
e o moço teve um amor,
e dizia à sua amada:
Tu és de verdade ou não?
Quando o moço se fez velho
pensava: Tudo é sonhar,
o cavalinho sonhado
e o cavalo de verdade.
E quando chegou a morte,
o velho ao seu coração
perguntava: Tu és sonho?
Quem saberá se acordou!

António Machado
(1875-1939)
Trad. de José Bento.

 MORTE AO MEIO-DIA.

No meus país não acontece nada
à terra vai-se pela estrada em frente
Novembro é quanta cor o sol consente
às casas com que o frio abre a praça

Dezembro vibra vidros brande as folhas
a brisa sopra e corre e varre o adro menos mal
que o mais zeloso varredor municipal
Mas que fazer de toda esta cor azul

que cobre os campos neste meu país do sul?
A gente é previdente tem saúde e assistência cala-se e mais nada
A boca é pra comer e pra trazer fechada
o único caminho é direito ao sol

No meus país não acontece nada
o corpo curva ao peso de uma alma que não sente
Todos temos janela para o mar voltada
o fisco vela e a palavra era para toda a gente

E juntam-se na casa portuguesa
a saudade e o transístor sob o céu azul
A indústria prospera e fazem-se ao abrigo
da velha lei mental pastilhas de mentol

O português paga calado cada prestação
Para banhos de sol nem casa se precisa
E cai-nos sobre os ombros quer a arma quer a sisa
e o colégio do ódio é a patriótica organização

Morre-se a ocidente como o sol à tarde
Cai a sirene sob o sol a pino
Da inspecção do rosto o próprio olhar nos arde
Nesta orla costeira qual de nós foi um dia menino?

Há neste mundo seres para quem
a vida não contém contentamento
E a nação faz um apelo à mãe
atenta a gravidade do momento

O meu país é o que o mar não quer
é o pescador cuspido à praia à luz do dia
pois a areia cresceu e o povo em vão requer
curvado o que de fronte erguida já lhe pertencia

A minha terra é uma grande estrada
que põe a pedra entre o homem e a mulher
O homem vende a vida e verga sob a enxada
O meu país é o que o mar não quer.

Ruy Belo
(1933-1978)
 AS PALAVRAS

Quebram as palavras o cristal.
Quebram as palavras,
com as suas asas brandas
de delicada ave,
a dureza rude das montanhas.
Quebram as palavras até
os varões de ferro das prisões.
De palavras contra palavras,
às vezes saltam mais violentas chispas,
de irredutível inimizade carregadas,
que do próprio entrechocar
feroz das armas sem perdão,
como, pelo contrário, podem
subitamente florir
incontíveis simpatias,
fulminantes paixões,
avassaladores desejos de mútua posse.

Palavras incendeiam
um entusiasmo, ou o mundo.
Palavras elucidam,
medem, ou tranquilizam,
ou, antes, obscurecem,
confundem, ou perturbam.
Palavras acarinham, consolam, vivificam,
ou magoam, ou ferem, ou são mesmo mortais.
Palavras fazem rir,
ou desencadeiam rios
de comovido pranto.
Palavras são a face mais expressiva das coisas.
Palavras são as coisas na sua abstracção.

Nunca palavras foram, como as que confiei
à mulher que é minha, à mulher de quem sou,
nem palavras tão claras, nem palavras tão negras,
das nossas alegrias,
das nossas apreensões,
nem palavras tão ágeis
de frágil devaneio,
nem palavras tão densas, na sua precisão,
dos sérios pensamentos, ou das decisões graves,
nem palavras tão fundas,
como fundas raízes,
nem palavras apenas balbuciadas de leve,
nem, inclusivamente, palavras só pensadas,
por inutilidade de as dizermos sequer,
expressas e entendidas
num nosso mero olhar.

Às palavras as deixo
discorrer, e são fontes,
ou o vento soprando.
Às palavras as moldo entre os dedos nervosos.
Às palavras as talho na bruteza da pedra,
que desbasto, afeiçoo, amacio e insuflo,
a pouco e pouco dela arrancando o que esconde.
Às palavras as mordo.
Às palavras as rasgo.
Às palavras abraço e as vergo ao meu gosto,
ao meu puro capricho, à minha decisão.
Às palavras as lanço pelo ar como dardos.
Às palavras as espalho, como à roda sementes.
Às palavras as colho, como frutos maduros.
Às palavras as prezo.
Às palavras as peso.
As palavras me doem.
De palavras me nutro.

Palavras que na sua variedade
outras defrontam, negam, desafiam,
ou nelas se completam, ou delas se iluminam,
assim a realidade comentando,
assim a realidade recriando,
melhor no-la revelam,
mais inteira e subtil.

Palavras se debruçam
de outras, misteriosas,
e são assombro, ou medo.
Palavras se interrogam e respondem,
interrogações novas levantando,
com o que o jogo intérmino prossegue,
e em seu orgulho,
humílimo afinal,
são a sabedoria.
Palavras ofegantes, mas serenas,
se esancaram,
ensanguentadas do incessante parto,
do mais alto esplendor do sol ardendo,
da mais vasta planície rodeadas,
e são a liberdadde.

Às palavras me imponho,
como delas sou escravo.
Às palavras me humilho,
como delas me ufano.
Em palavras me enredo.
Por palavras me evado.

Às palavras as escolho,
meticulosamente,
e amoroso as alinho para as pôr a cantar.
Cantai, minhas palavras.
Canta, minha canção.

Armindo Rodrigues
(1904-1993)



 AMOR

Aqueles olhos aproximam-se e passam.
Perplexos, cheios de funda luz,
doces e acerados, dominam-me.
Quem os diria tão ousados?
Tão humildes e tão imperiosos,
tão obstinados!

Como estão próximos os nossos ombros!
Defrontam-se e furtam-se,
negam toda a sua coragem.
De vez em quando
esta minha mão,
que é uma espada e não defende nada,
move-se na órbita daqueles olhos,
fere-lhes a rota curta,
poderosa e plácida.

Amor, tão chão de Amor,
que sensível és...
Sensível e violento, apaixonado,
Tão carregado de desejos!
Acalmas e redobras
e de ti renasces a toda a hora.
Cordeiro que se encabrita e enfurece
e logo recai na branda impotência.

Canseira eterna!
Ou desespero, ou medo.
Fuga doida à posse, à dádiva.
Tanto bater de asas frementes,
tanto grito e pena perdida...
E as tréguas, amor cobarde?
Cada vez mais longe,
mais longe e apetecidas.
Ó amor, amor,
que faremos nós de ti,
e tu de nós?

Irene Lisboa
(1892-1958)
HÁ JUNTO A MIM DEZ NÚMEROS EM CÍRCULO.


   Há junto a mim dez números em círculo.
O princípio e o fim. A quantidade
do que sem nome sou: o meu silêncio.
Tremo ao olhá-los. Falam? Falar-me-ão?
Neles agouro que hei-de vir já morto
chamar em minha vida. Escuto! Não!
Ninguém chama! - Ninguém.

                                                    ...Olho para mim...
Aqui estava em meu leito e já não estou!...
A quantidade de minha existência busco...
Volto a escutar: - chamam?: sim. Sou seu: ninguém.
E a minha voz entra em mim comigo longe!




Emílio Prados
(1899-1962)
Trad. de José Bento.

 QUE CORPOS LEVES, SUBTIS.

Que corpos leves, subtis,
há, sem cor,
tão vagos como as sombras,
que não podem beijar-se
a não ser pondo os lábios
no ar, contra algo
que passa e se assemelha!

Que sombras tão morenas
existem, e tão duras
que seu frio, escuro mármore
não se nos rende nunca
de paixão, entre os braços!

E que faina, ir e vir
com o amor, velozmente,
dos corpos para as sombras,
do impossível aos lábios,
sem parar, sem saber nunca
se é alma de carne ou sombra
de corpo o que beijamos,
se é alguma coisa! A tremer
de acarinhar o nada!


Pedro Salinas
(1891-1951)
Trad. de José Bento

sábado, 7 de novembro de 2015

AS SUAS MÃOS AINDA ACODEM AOS MEUS SONHOS


As suas mãos ainda acodem aos meus sonhos antecipado-se a um
grito negro, a ferros ocultos no meu coração.

A minha velhice torce os seus ossos e queima os seus cabelos, a
minha velhice envolta numa pele húmida de amor

O seu olhar vem de países a que não irei nunca.

Sobre a minha pele fervem as suas lágrimas.

Antonio Gamoneda
Trad. de Jorge Melícias.