A CASA VAZIA
Abre a porta e acende a luz.
____________________É muito tarde
e sabe que ninguém o espera em sua casa.
______________________________Tudo
continua no seu lugar e o silêncio pesa
sobre as coisas mudas que o ignoram.
Vai de cá para lá, pelo corredor, pelos aposentos
vazios, e não sabe o que fazer, porquê esta noite
está tudo tão longe.
______________Pega num livro.
Fica a ler uns momentos.
__________________Depois, ouve
enfadado uma música.
________________Entretanto, a madrugada
avança lentamente.
______________Talvez alguma rosa
dessa jarra que está sobre a mesa
deixe cair suas pétalas murchas.
Eloy Sánchez Rosillo
(N:24/6/1948)
Trad. de José Bento
quarta-feira, 2 de setembro de 2015
HOMENS QUE SÃO COMO LUGARES MAL SITUADOS
Homens
que são como lugares mal situados
Homens
que são como casas saqueadas
Que
são como sítios fora dos mapas
Como
pedras fora do chão
Como
crianças órfãs
Homens
sem fuso horário
Homens
agitados sem bússola onde repousem
Homens
que são como fronteiras invadidas
Que
são como caminhos barricados
Homens
que querem passar pelos atalhos sufocados
Homens
sulfatados por todos os destinos
Desempregados
das suas vidas
Homens
que são como a negação das estratégias
Que
são como os esconderijos dos contrabandistas
Homens
encarcerados abrindo-se com facas
Homens
que são como danos irreparáveis
Homens
que São sobreviventes vivos
Homens
que são como sítios desviados
Do
lugar
Daniel Faria
(1971-1999)
GEÓRGICA
Se gostas de maçãs, colhe maçãs
Do teu próprio pomar.
Guarda republicana há sempre em toda a parte
Onde não temos nada,
E a força é cega por definição.
Ora no teu pomar
Podes serenamente
Gozar o transitório paraíso.
Na pequenina haste
Que um dia tu plantaste
Nasceram frutos túmidos e doces
Que são teus.
Colhe, pois, esses frutos.
Não faças como o Adão e como a Eva, uns brutos
Que comeram maçãs, mas do pomar de Deus.
Miguel Torga
(1907-1995)
terça-feira, 1 de setembro de 2015
NA NOITE
Terás envelhecido, como eu, tua existência
será igual à minha, mais ou menos: monótonos
dias que vão passando bem lentamente, dias
em que nada acontece e é tudo igual pra nós.
Às vezes, porventura ainda lembres aquela
luz distante de Agosto que partilhamos. Talvez
sobre meu nome tenha crescido o esquecimento
e se apagasse em ti minha imagem para sempre.
Pergunto-me por vezes se em verdade fui jovem
e estive ali contigo, se existiu aquele Verão.
O sonho e a memória não são coisas diferentes:
não sei se te recordo ou se te estou sonhando.
O tempo debotou as certezas que tive.
A evidência de ontem com a idade esfuma-se.
Estou só. É de noite. Penso que minha vida,
minha própria vida, acaso, não aconteceu nunca.
Eloy Sánchez Rosilo
(N: 1948)
Trad. De José Bento.
Terás envelhecido, como eu, tua existência
será igual à minha, mais ou menos: monótonos
dias que vão passando bem lentamente, dias
em que nada acontece e é tudo igual pra nós.
Às vezes, porventura ainda lembres aquela
luz distante de Agosto que partilhamos. Talvez
sobre meu nome tenha crescido o esquecimento
e se apagasse em ti minha imagem para sempre.
Pergunto-me por vezes se em verdade fui jovem
e estive ali contigo, se existiu aquele Verão.
O sonho e a memória não são coisas diferentes:
não sei se te recordo ou se te estou sonhando.
O tempo debotou as certezas que tive.
A evidência de ontem com a idade esfuma-se.
Estou só. É de noite. Penso que minha vida,
minha própria vida, acaso, não aconteceu nunca.
Eloy Sánchez Rosilo
(N: 1948)
Trad. De José Bento.
QUANDO OLHO PARA MIM NÃO ME PERCEBO
Quando olho para mim não me percebo.
Tenho tanto a mania de sentir
Que me extravio às vezes ao sair
Das próprias sensações que eu recebo.
O ar que respiro, este licor que bebo
Pertencem ao meu modo de existir,
E eu nunca sei como hei-de concluir
As sensações que a meu pesar concebo.
Nem nunca, propriamente, reparei
Se na verdade sinto o que sinto. Eu
Serei tal qual pareço em mim? serei
Tal qual me julgo verdadeiramente?
Mesmo ante às sensações sou um pouco ateu,
Nem sei bem se sou eu quem em mim sente.
Álvaro de Campos / Fernando Pessoa
(1888-1935)
Quando olho para mim não me percebo.
Tenho tanto a mania de sentir
Que me extravio às vezes ao sair
Das próprias sensações que eu recebo.
O ar que respiro, este licor que bebo
Pertencem ao meu modo de existir,
E eu nunca sei como hei-de concluir
As sensações que a meu pesar concebo.
Nem nunca, propriamente, reparei
Se na verdade sinto o que sinto. Eu
Serei tal qual pareço em mim? serei
Tal qual me julgo verdadeiramente?
Mesmo ante às sensações sou um pouco ateu,
Nem sei bem se sou eu quem em mim sente.
Álvaro de Campos / Fernando Pessoa
(1888-1935)
OS BADAMECOS
Os badamecos
tão engraçados
sujam paredes,
são malcriados.
Andam em férias
como vadios.
Cheiram que fedem,
de mal lavados.
Têm brinquedos,
alguns perigosos,
adquiridos
pelos mais ranhosos.
E quando dormem
o seu soninho,
mijam na rua,
sonham-se grandes.
Nunca se faça
mal aos meninos,
à linda graça
de nós tontinhos.
Que nos lembremos
sempre aos demais:
Casa de filhos,
escola de pais!
Ruy Cinatti
(1915-1986)
In "Memória Dividida"
Os badamecos
tão engraçados
sujam paredes,
são malcriados.
Andam em férias
como vadios.
Cheiram que fedem,
de mal lavados.
Têm brinquedos,
alguns perigosos,
adquiridos
pelos mais ranhosos.
E quando dormem
o seu soninho,
mijam na rua,
sonham-se grandes.
Nunca se faça
mal aos meninos,
à linda graça
de nós tontinhos.
Que nos lembremos
sempre aos demais:
Casa de filhos,
escola de pais!
Ruy Cinatti
(1915-1986)
In "Memória Dividida"
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