segunda-feira, 10 de agosto de 2015

 CADA POEMA


Cada poema um pássaro que foge
do sítio assinalado pela praga.
Cada poema um traje da morte
pelas ruas e praças inundadas
na cera letal dos vencidos.
Cada poema um passo para a morte,
uma falsa moeda de resgate,
um tiro ao alvo a meio da noite
perfurando as pontes sobre o rio,
cujas águas adormecidas viajam
da velha cidade para os campos
onde o dia prepara as suas fogueiras.
Cada poema um tacto hirto
do que jaz na pedra das clínicas,
um ávido anzol que percorre
o limo brando das sepulturas.
Cada poema um lento naufrágio do desejo,
um ranger dos mastros e cabos
que sustentam o peso da vida.
Cada poema um estrondo de panos que derrubam
sobre o rugir gelado das águas
o branco aparelho do velame.
Cada poema invadindo e desgarrando
a amarga teia do enfado.
Cada poema nasce de uma cega sentinela
que grita ao fundo oco da noite
o santo e a senha da sua desventura.
Água de sonho, fonte de cinza,
pedra porosa dos matadouros,
madeira da sombra das sempre-vivas,
sino que dobra pelos condenados,
óleo funeral de duplo fio,
quotidiano sudário do poeta,
cada poema derrama sobre o mundo
o azedo cereal da agonia.

Álvaro Mutis
(1923-2013)
Tradução: Nuno Júdice

domingo, 9 de agosto de 2015

MONÓLOGO DE ESTHER

Quando te perderes dentro
do deserto da tarde
e te der sede o azul
do mar tão distante,
sentirás que és olhado,
pelo meu olhar.

Eterno príncipe, Jacob,
terás sempre companhia
contigo peregrinando
através séculos, palavras.
Suportarás a morte
como o ramo ao pássaro.

Ai, inimigo caminho
das horas, das águas,
galope de altivos archeiros
contrários à estátua
de sal do que pensou
vir a ser mármore!
Se tu cais, os teus olhos
gelarão esperanças.

Povo triste, à lembrança
das cidades abarsadas.
Nenhum repouso te acolhe
de sombra doce, ou casa.
Apenas sonhos, no fundo.

Salvador Espriu
(1913-1985)
In "Rosa do Mundo  2001 Poemas Para o Futuro)
Trad. de João Cabral de Melo Neto"
 

sábado, 8 de agosto de 2015

MATEMOS A POESIA

Viva quem dorme ao luar
Como num fofo colchão;
Quem não ouve sereias, ao molhar
O corpo inteiro e lúcido no mar,
Com arrepios de aflição.

Viva quem tem seu afazer
E preocupações de dinheiro;
Quem na vida não sabe mais do que viver
E só julga verdade o verdadeiro.

Viva quem pode gritar, lutar, barafustar
(Mas não em poemas!) como gente natural, correcta:
Esses, sim, merecem cá ficar...
- Eu não, que sou Poeta.
 
António Manuel Couto Viana
(1923-2010)

sexta-feira, 7 de agosto de 2015


 DIREMOS A VERDADE, SEM DESCANSO


Diremos a verdade, sem descanso,
pela honra de servir, sob os pés de todos.
Detestamos os grandes ventres, as grandes palavras,
a indecente ostentação do ouro,
as cartas mal distribuídas pela sorte,
o denso fumo do incenso a quem é potente.
Agora é a vil raça dos senhores,
agacha-se no seu ódio como um cão,
ladra de longe, ao pé usa cacete,
segue, para além da lama, caminhos de morte.

Com a canção construamos no escuro
altas paredes de sonho, defesa deste turbilhão.
Pela noite chega o rumor de muitas fontes:
estamos fechando as portas do medo.
 
Salvador Espriu 
(1913-1985)
DESCIDA AOS INFERNOS


Juro pelos meus olhos
que te venho pedir
o apocalipse da esperança:

a carícia da peste,
as patas dum cavalo,
o incêndio duma lança;

os dentes arrancados
à cárie da fome;

a dolorosa guerra
nos túmulos dos mortos
e dos vivos sem fome.

Carlos de Oliveira
(1921-1981)
ENSAIO DE CÂNTICO NO TEMPLO

Ah, que farto que eu estou da minha
cobarde e velha terra, tão selvagem,
e como gostaria de abalar
para o norte
onde dizem que a gente é limpa e nobre, culta e rica,
viva, livre, feliz!
Então, na confraria, os irmãos diriam
reprovando: «Como pássaro que deixa o ninho,
assim o homem que deixa o lugar»,
enquanto eu, bem longe, riria
da lei, da sabedoria .
antiga desta terra tão ávida.
Porém de que me serve prosseguir um sonho-
¬aqui hei-de ficar até morrer,.
pois cobarde e selvagem também eu o sou,
e além disso amando
com dor desesperada
esta pobre,
suja, triste, desgraçada pátria minha.

Salvador Espriu
Trocar de Rosa
Traduções de Eugénio de Andrade
Na Regra do Jogo
1980
HÁ METAFÍSICA BASTANTE EM NÃO PENSAR EM NADA





O que penso eu do Mundo?
Sei lá o que penso do Mundo!
Se eu adoecesse pensaria nisso.

Que ideia tenho eu das coisas?
Que opinião tenho sobre as causas e os efeitos?
Que tenho eu meditado sobre Deus e a alma
E sobre a criação do Mundo?
Não sei. Para mim pensar nisso é fechar os olhos
E não pensar. É correr as cortinas
Da minha janela (mas ela não tem cortinas).

O mistério das coisas? Sei lá o que é mistério!
O único mistério é haver quem pense no mistério.
Quem está ao sol e fecha os olhos,
Começa a não saber o que é o Sol
E a pensar muitas coisas cheias de calor.
Mas abre os olhos e vê o Sol,
E já não pode pensar em nada,
Porque a luz do Sol vale mais que os pensamentos
De todos os filósofos e de todos os poetas.
A luz do Sol não sabe o que faz
E por isso não erra e é comum e boa.

Metafísica? Que metafísica têm aquelas árvores
A de serem verdes e copadas e de terem ramos
E a de dar fruto na sua hora, o que não nos faz pensar,
A nós, que não sabemos dar por elas.
Mas que melhor metafísica que a delas,
Que é a de não saber para que vivem
Nem saber que o não sabem?

"Constituição íntima das coisas"...
"Sentido íntimo do Universo"...
Tudo isto é falso, tudo isto não quer dizer nada.
É incrível que se possa pensar em coisas dessas.
É como pensar em razões e fins
Quando o começo da manhã está raiando, e pelos lados das árvores
Um vago ouro lustroso vai perdendo a escuridão.

Pensar no sentido íntimo das coisas
É acrescentado, como pensar na saúde
Ou levar um copo à água das fontes.

O único sentido íntimo das coisas
É elas não terem sentido íntimo nenhum.

Não acredito em Deus porque nunca o vi.
Se ele quisesse que eu acreditasse nele,
Sem dúvida que viria falar comigo
E entraria pela minha porta dentro
Dizendo-me, Aqui estou!

(Isto é talvez ridículo aos ouvidos
De quem, por não saber o que é olhar para as coisas,
Não compreende quem fala delas
Com o modo de falar que reparar para elas ensina.)

Mas se Deus é as flores e as árvores
E os montes e sol e o luar,
Então acredito nele,
Então acredito nele a toda a hora,
E a minha vida é toda uma oração e uma missa,
E uma comunhão com os olhos e pelos ouvidos.

Mas se Deus é as árvores e as flores
E os montes e o luar e o sol,
Para que lhe chamo eu Deus?
Chamo-lhe flores e árvores e montes e sol e luar;
Porque, se ele se fez, para eu o ver,
Sol e luar e flores e árvores e montes,
Se ele me aparece como sendo árvores e montes
E luar e sol e flores,
É que ele quer que eu o conheça
Como árvores e montes e flores e luar e sol.

E por isso eu obedeço-lhe,
(Que mais sei eu de Deus que Deus de si próprio?),
Obedeço-lhe a viver, espontaneamente,
Como quem abre os olhos e vê,
E chamo-lhe luar e sol e flores e árvores e montes,
E amo-o sem pensar nele,
E penso-o vendo e ouvindo,
E ando com ele a toda a hora.


Alberto Caeiro
(1888-1935)