quarta-feira, 30 de março de 2011

José Gomes Ferreira


XXXVII


(Prega, prega, Voz Solene!)


Homem,
preso pela sombra a todas as pedras,
preso pelos olhos a todas as aves,
preso pelo corpo a todas as raízes,
preso pela sede a todas as fontes:

Olha bem de frente para as algemas,
asas pesadas de frio,
e levanta-te a cantar.

Ah! mas não deixes que nenhum eco
enferruge os teus passos de resignação.

Nem escutes
no tinir das cadeias
sinos de céus arrastados!

Nem te cegues a inventar
nas úlceras dos espartos
sinais de começo de asas.

Que ninguém se iluda de liberdade
nem sangue de grito nos pulsos.

Levanta-te a cantar
-através de pântanos e de rochas
esburacadas de caveira...-
e leva de rastos o mundo
a que te prendem todas as grilhetas
-homem livre que caminhas
amarrado ao Carro da Morte
até o Grande Silêncio.

José Gomes Ferreira
(1900-1985)
In "Poesia-I" 5ª Edição.
Compugráfica Lisboa 1972.

Miguel Torga


ALENTEJO


A luz que te ilumina
Terra da cor dos olhos de quem olha
A paz que se adivinha
Na tua solidão
Que nenhuma mesquinha
Condição
Pode compreender e povoar!
O mistério da tua imensidão
Onde o tempo caminha
Sem chegar...

Miguel Torga
(1907-1995)
In "Diário XII"
Sousel, 20 de Outubro de 1974.

Miguel Torga


SECURA


Tarde de primavera.
Como quem é do mundo,
Bebo sol e quimera,
E mergulho as raízes mais no fundo.

Vida!
O tutano da terra - seiva!
A semente aquecida
No carinho da leiva!

O que um ser de dois pés sabe dizer!...
Infelizmente, isto de germinar,
Nem se faz a morrer,
Nem se faz a pensar."

Miguel Torga
(1907-1995)
In "Diário I"
Coimbra, 30 de Março de 1938.

domingo, 27 de março de 2011

José Gomes Ferreira


JÁ NÃO É O AMOR DO MUNDO


Já não é o amor do mundo
que me impele contra as grades.
Mas esta dor de vergonha
diante das pedras e das árvores
a acusarem-me de ramos estendidos:
«Eh! cobarde dos pequenos minutos
coroados de pétalas de tédio
nega ao menos o teu destino vil
de morrer em vão!»

José Gomes Ferreira
(1900-1985)
in "Poesia-I 5ªedição (1972)

sábado, 26 de março de 2011

Gunnar Ekelõf


SNAKEHEAD


Muito se pode dizer acerca do Diabo:
Ele não está morto, está vivo.
Como poderia ele ter sido abolido
por um deus que sempre está ausente?

Ele está presente:
Vê com os teus próprios olhos, vê com os seus olhos.
Pode revelar-se em qualquer parte.
Talvez seja bom, talvez sejas tu
talvez tu sejas mau, mas tu existes:
Então o que é um bem ausente? um mal presente?
Uma força: sempre activa!

Gunnar Ekelôf (Suécia)
(1907-1968)
In "Rosa do Mundo 2001 Poemas para o Futuro"
Trad. de Ana Hatherly.

Marko Rístic


MEMENTO


Nenhum dia sem sangue
Nenhum dia sem sonho
O primeiro e o último
Nenhum dia sem fundo

A noite no fundo do dia
Nenhuma sem manhã
Nenhuma sem vigília
Hoje e amanhã

A neve não cai para matar o mundo
A morte o vai matando
Mas a opressão o vai oprimindo
O mundo não cai para mudar a neve
A chuva o vento a cidade
Outrora ou agora

A não cai para amedrontar você
Da prisão e da armadilha
Da má notícia-insónia
E da manhã-cesto
Cheia de uvas cheia de metal
Cheia de sol cheia de trevas

A treva não cai para lembrar a queda
Sobretudo aquilo que bate e mata
O medo não cai para lembrar a miséria
De tudo aquilo que dói e arde

Cai para todo animal
Mostrar-nos o rastro
No medo na morte na neve

Se é diabo ou demónio
No vale ou na colina

Mundo consciência dia e sonho
Sangue na neve
Neve queda morte e pão
Sangue no pão
Guerra paz irmão e banquete
Sangue no vinho

Nenhuma noite mas que não lembre o dia
Nenhum sonho sem vigília
Nenhum dia sem terror
Nenhuma irmã sem irmão ensanguentado
Nenhuma que consiga não odiar até ao fim

Até o último bocado sangrento de pão
Até o último bocado sangrento de guerra
Até o último golpe de vingança
Até a primeira noite sem morte
Até a primeira manhã sem submissão
E o primeiro dia sem fundo

Marko Rístic (Sérvia)
(1902-1984)
In "Rosa do Mundo 2001 Poemas para o Futuro"
Trad. de Aleksandar Jovanovic