sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Cristovam Pavia


GRATIDÃO

Obrigado por todos os sonhos impossíveis,
E pelas notas de amor que o violino não vibra!
Obrigado por esta solidão que me esfarpa e me liberta!
Mas sobretudo obrigado pela lágrima que veio,
Inesperada, sorrir nos meus olhos.

Cristovam Pavia
(1933-1968)

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Zeca Afonso canta Luís Pignatelli

Luís Pignatelli


ERA DE NOITE E LEVARAM

Era de noite e levaram
Quem nesta cama dormia

Sua boca amordaçaram
Com panos de seda fria

Era de noite e roubaram
O que nesta casa havia

Só corpos negros ficaram
Dentro da casa vazia

Rosa branca, rosa fria
Na boca da madrugada

Hei-de plantar-te um dia
Sobre o meu peito queimada
Na madrugada.

Luís Pignatelli
(1935-1993)

Hélia Correia


ARTE POÉTICA

Que o poema tenha carne
ossos vísceras destino
que seja pedra e alarme
ou mãos sujas de menino.

Que venha corpo e amante
e de amante seja irmão
que seja urgente e instante
como um instante de pão.

Só assim será poema
só assim terá razão
só assim te vale a pena
passá-lo de mão em mão.

Que seja rua ou ternura
tempestade ou manhã clara
seja arado e aventura
fábrica terra e seara.

Que traga rugas e vinho
berços máquinas luar
que faça um barco de pinho
e deite as armas ao mar.

Só assim será poema
só assim terá razão
só assim te vale a pena
passá-lo de mão em mão.

Hélia Correia

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Luiza Neto Jorge



ESTA CIDADE

O lugar de repouso
está por inventar
A cidade é morna
o rio vazio
nem o mar é filho do mundo
nem o mundo é mar
nem o meu corpo
um chapéu de ilusionar

A cidade é morna
o espaço baço
nem caem da face os olhos
nem se perde o braço



Na cidade
onde há a mais
a água e a sede
vamos na rede
como animais



Os sinais chegam
pelo mesmo aqueduto
Se a água é limpa
o sangue é bruto

Exacerbadamente
vejo que onde
estamos teremos
Já temos Tejo



Tão poucas folhas caídas a desoras
menos gente que ontem em sentido
contrário ao vôo das aves

Poucas camas desfeitas com o peso
da insónia
larvas e ovos de larvas dentro da boca

Tão pouca gente a sós com a vertigem
tão pouquíssima gente nas ruas
com o astro-rei a tombar
Estão em casa a jantar



Antes que nos cubra a pedra
por lavrar
antes que o lavrador perca
a partilha

um monumento exacto há
que erigir
entre a Batalha e a Bastilha


Luiza Neto Jorge, In "Os Sítios Sitiados"
(1939-1989)

Casimiro de Brito


INSISTÊNCIA


Inútil de músculos
vivo a esperar-te
tu-que-não-sei-quem-és

Mas quando vieres
se acaso vieres
o meu corpo cobrirá o teu corpo
e serás o hálito que me falta
o suicídio
a luz

E talvez te diga: amanhece
tu-que-não-sei-quem-és
mas a quem chamo

liberdade

Casimiro de Brito

Armando da Silva Carvalho


A ORDEM


Os factos revistos
e sanados

os gestos parados
e previstos

os gritos sustidos
e correctos

os homens as coisas e os mitos
nos factos nos gestos e nos gritos

Armando da Silva Carvalho