quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Gilberto Gil


AMARRA O TEU ARADO A UMA ESTRELA


Se os frutos produzidos pela terra
Ainda não são
Tão doces e polpudos quanto as peras
Da tua ilusão
Amarra o teu arado a uma estrela
E os tempos darão
Safras e safras de sonhos
Quilos e quilos de amor
Noutros planetas risonhos
Outras espécies de dor

Se os campos cultivados neste mundo
São duros demais
E os solos assolados pela guerra
Não produzem a paz
Amarra o teu arado a uma estrela
E aí tu serás
O lavrador louco dos astros
O camponês solto nos céus
E quanto mais longe da terra
Tanto mais longe de Deus

Gilberto Gil (1988)
in "Gil em Verso"

Mário Benedetti


NÃO TE RENDAS


Não te rendas, ainda estás a tempo
De alcançar e começar de novo,
Aceitar as tuas sombras,
Enterrar os teus medos,
Libertar o lastro,
Retomar o voo.

Não te rendas que a vida é isso,
Continuar a viagem
Perseguir os teus sonhos,
Destravar o tempo,
Remover os escombros, e destapar o céu.

Não te rendas, por favor não cedas,
Mesmo que o frio queime,
Mesmo que o medo morda,
Mesmo que o sol se esconda,
E se cale o vento,
Ainda há fogo na tua alma
Ainda há vida nos teus sonhos.

Porque a vida é tua e teu também o desejo
Porque o quiseste e porque eu te quero
Porque existe o vinho e o amor, é certo.
Porque não há feridas que não cure o tempo.

Abrir as portas,
Tirar os ferrolhos,
Abandonar as muralhas que te protegeram,
Viver a vida e aceitar o repto,
Recuperar o riso,
Ensaiar um canto,
Baixar a guarda e estender as mãos
Abrir as asas
E tentar de novo,
Celebrar a vida e retomar os céus.

Não te rendas, por favor não cedas,
Mesmo que o frio queime,
Mesmo que o medo morda,
Mesmo que o sol se ponha e se cale o vento,
Ainda há fogo na tua alma,
Ainda há vida nos teus sonhos
Porque cada dia é um começo novo,
Porque esta é a hora e o melhor momento.
Porque não estás só, porque eu te amo.

Mário Benedetti

José Gomes Ferreira

(Foto Fel de Cão)

Cala-te, mar!


Tu que despedaças os barcos dos pescadores
para aumentar de lágrimas nas praias
as ondas de alta morte,
e embalas peixes de sol
no desmaio das aguarelas
com poentes fulvos
a porem impossibilidades de tormentas
nos salões de seda dos palácios.

Deixa ouvir a minha voz no mundo
pegada de toda a miséria dos caminhos
de súbito tão azul nos olhos daquela Criança
a sofrer a dor cósmica de não ter pão,
o pão negro dos abismos e das vielas
fabricado com o suor cósmico dos homens.

Mas que te importa, mar?
Que te importa mais uma criança do tamanho da morte
com os olhos da cor de ignorar tudo na vida menos a fome?

O que queres é berrar, berrar uma dor qualquer sem sentido
para cobrir a minha voz de protesto de espada
- terrível como um grito insuportável de doer.

O que queres é berrar
-mar inútil! Mar enorme! Mar que dás a volta ao mundo
e és tão pequeno ao pé destas lágrimas
que me caem dos olhos,
frias e ardentes como balas.

Mar.
Lágrima de ninguém.

Não queiras cobrir-me a voz
com o furor da tua boca de espuma
onde nem há rogos de náufragos nos rasgões do vento.

Não me obrigues a rugir mais alto do que tu
numa indignação de tempestade de silêncio
que lança raios dos homens para as nuvens.
Cala essa ira de falso gigante
a esculpir rochas, a escavar penedos,
a rachar montanhas de alto a baixo com bramidos.
E tudo para quê?
Sim. para Quê?

Para os piratas esconderem tesouros nas ressonâncias das furnas
e as nereidas deixarem-se sugar pelos polvos em núpcias de morrer?

Ah! cala-te, mar?

Cala esse tumulto vão de água, faíscas e relâmpagos
-cenário indiferente duma tragédia que os homens não entendem,
que eu pelo menos não entendo,
nem quero entender,
por mais que os meus colegas poetas chamem drama cósmico
ao teu cuspir de amor para as estrelas.

Cala-te, cala-te, mar!

Não queiras abafar a minha voz
com tempestades pagas pelos ventos ricos.

José Gomes Ferreira

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Álvaro de Campos


ESTOU CANSADO

Estou cansado, é claro,
Porque, a certa altura, a gente tem que estar cansado.
De que estou cansado, não sei:
De nada me serviria sabê-lo,
Pois o cansaço fica na mesma.
A ferida dói como dói
E não em função da causa que a produziu.
Sim, estou cansado,
E um pouco sorridente
De o cansaço ser só isto —
Uma vontade de sono no corpo,
Um desejo de não pensar na alma,
E por cima de tudo uma transparência lúcida
Do entendimento retrospectivo...
E a luxúria única de não ter já esperanças?
Sou inteligente; eis tudo.
Tenho visto muito e entendido muito o que tenho visto,
E há um certo prazer até no cansaço que isto nos dá,
Que afinal a cabeça sempre serve para qualquer coisa.

Álvaro de Campos, in "Poemas"

Ruy Belo


As velas da memória

Há nos silvos que as manhãs me trazem
chaminés que se desmoronam:
são a infância e a praia os sonhos de partida


Abrir esse portão junto ao vento que a vida
aquém ou além desta me abre?
Em que outro mundo ouvi o rouxinol
tão leve que o voo lhe aumentava as asas?
Onde adiava ele a morte contra os dias
essa primeira morte?
Vinham núpcias sem conto na inconcebível voz
Que plenitude aquela: cantar
como quem não tivesse nenhum pensamento.


Quem me deixou de novo aqui sentado à sombra
deste mês de Junho? Como te chamas tu
que me enfunas as velas da memória ventilando: «aquela vez...»?


Quando aonde foi em que país?
Que vento faz quebrar nas costas destes dias
as ondas de uma antiga música que ouvida
obriga a recuar a noite prometida
em círculos quebrados para além das dunas
fazendo regressar rebanhos de alegrias
abrindo em plena tarde um espaço ao amor?
Que morte vem matar a lábil curva da dor?
Que dor me faz doer de não ter mais que morrer?


E ouve-se o silêncio descer pelas vertentes da tarde
chegar à boca da noite e responder



Ruy Belo
(Aquele Grande Rio Eufrates)

Jorge de Sena


GLÓRIA


um dia se verá que o mundo não viveu um drama.
todas estas batalhas, todos estes crimes,
todas estas crianças que não chegaram a desdobrar-se em carne viva
e de quem, contudo, fizeram carne viva logo morta,
todos estes poetas furados por balas
e todos os outros poetas abandonados pelos que
nem coragem tiveram de matar um homem,
toda esta mocidade enganada e roubada
e a outra que morreu sabendo que a roubavam,
todo este sangue expressamente coalhado
à face íntegra da terra,
tudo isto é o reverso glorioso do findar dos erros.

um dia nos libertaremos da morte sem deixar de morrer.

Jorge de Sena
(6 de Abril de 1942)

Jorge de Sena


ESTÃO PODRES AS PALAVRAS


Estão podres as palavras — de passarem
por sórdidas mentiras de canalhas
que as usam ao revés como o carácter deles.
E podres de sonâmbulos os povos
ante a maldade à solta de que vivem
a paz quotidiana da injustiça.
Usá-las puras — como serão puras,
se caem no silêncio em que os mais puros
não sabem já onde a limpeza acaba
e a corrupção começa? Como serão puras
se logo a infâmia as cobre de seu cuspo?
Estão podres: e com elas apodrece o mundo
e se dissolve em lama a criação do homem
que só persiste em todos livremente
onde as palavras fiquem como torres
erguidas sexo de homens entre o céu e a terra.

JORGE de SENA