segunda-feira, 9 de novembro de 2015

 QUE CORPOS LEVES, SUBTIS.

Que corpos leves, subtis,
há, sem cor,
tão vagos como as sombras,
que não podem beijar-se
a não ser pondo os lábios
no ar, contra algo
que passa e se assemelha!

Que sombras tão morenas
existem, e tão duras
que seu frio, escuro mármore
não se nos rende nunca
de paixão, entre os braços!

E que faina, ir e vir
com o amor, velozmente,
dos corpos para as sombras,
do impossível aos lábios,
sem parar, sem saber nunca
se é alma de carne ou sombra
de corpo o que beijamos,
se é alguma coisa! A tremer
de acarinhar o nada!


Pedro Salinas
(1891-1951)
Trad. de José Bento

sábado, 7 de novembro de 2015

AS SUAS MÃOS AINDA ACODEM AOS MEUS SONHOS


As suas mãos ainda acodem aos meus sonhos antecipado-se a um
grito negro, a ferros ocultos no meu coração.

A minha velhice torce os seus ossos e queima os seus cabelos, a
minha velhice envolta numa pele húmida de amor

O seu olhar vem de países a que não irei nunca.

Sobre a minha pele fervem as suas lágrimas.

Antonio Gamoneda
Trad. de Jorge Melícias.


 NOCTURNO SONHADO

A terra leva-nos por terra;
Mas tu, mar,
levas-nos pelo céu.

Com que certeza de luz de prata e ouro
as estrelas nos marcam
a rota! - Dir-se-ia
que é a terra o caminho
do corpo,
que o mar é o caminho
da alma -.

Sim, parece
que é a alma a única viageira
do mar, que o corpo, só,
ficou além das praias,
sem ela, a expulsá-la,
pesado, frio, como morto.

Que semelhante
a viagem do mar à viagem da morte, 
à da eterna vida!


Juan Ramón Jiménez
(1881-1958)
Trad. de José Bento.


 VAI DEVAGAR, NÃO CORRAS

Vai devagar, não corras,
pois aonde tens que ir é só a ti!

Vai devagar, não corras,
que o menino do teu eu, recém-nascido
eterno,
não poderá seguir-te!

Juan Ramón Jiménez
(1881-19589
Trad. de José Bento.







CANÇÃO FINAL

As rosas de papel não são verdadeiras
e queimam
como a preocupação de uma sobrancelha, pensativa
ou a sensação de tacto numa camada de gelo.

As rosas de papel são, na verdade,
demasiadas quentes no meu peito.

 Jaime Gil de Biedma
(1929-1990)
Trad. de José Bento.

AMOR MAIS PODEROSO QUE A VIDA

A mesma qualidade que o sol no teu país,
a sair entre as nuvens:
alegre e delicado matiz numas folhas,
fulgor num vidro, modulação
do apagado brilho da chuva.

A mesma qualidade que a tua cidade,
tua cidade de vidro inumerável
idêntica e diferente, mudada pelo tempo:
ruas que desconheço e praça antiga
de pássaros povoada,
a praça em que uma noite nos beijámos.

A mesma qualidade que a tua expressão,
ao cabo dos anos,
esta noite ao fitar-me:
a mesma qualidade que a tua expressão
e a expressão ferida de teus lábios.

Amor que tem qualidade de vida,
amor sem exigência de futuro,
presente do passado,
amor mais poderoso do que a vida:
perdido e encontrado.
Encontrado, perdido...

Jaime Gil de Biedma
(1929-1990)
Trad. de José Bento

 DORME, RAPAZ.


A raiva da morte, os corpos torturados,
A revolução,um leque na mão,
Impotência do poderoso, fome do sedento,
Dúvida com mãos de dúvida,  pés de dúvida;


A tristeza, agitando seus colares
Para alegrar um pouco tantos velhos;
Tudo unido entre campas como estrelas,
Entre luxúrias como luas;

A morte, a paixão nos cabelos,
Dormitam tão minúsculas como uma árvore,
Dormitam tão pequenas ou tão grandes
Como uma árvore crescida até chegar ao solo.

Hoje contudo  também estás cansado."


Luis Cernuda
(1902-1963)
Trad. de José Bento.