sábado, 7 de novembro de 2015


 NOCTURNO SONHADO

A terra leva-nos por terra;
Mas tu, mar,
levas-nos pelo céu.

Com que certeza de luz de prata e ouro
as estrelas nos marcam
a rota! - Dir-se-ia
que é a terra o caminho
do corpo,
que o mar é o caminho
da alma -.

Sim, parece
que é a alma a única viageira
do mar, que o corpo, só,
ficou além das praias,
sem ela, a expulsá-la,
pesado, frio, como morto.

Que semelhante
a viagem do mar à viagem da morte, 
à da eterna vida!


Juan Ramón Jiménez
(1881-1958)
Trad. de José Bento.


 VAI DEVAGAR, NÃO CORRAS

Vai devagar, não corras,
pois aonde tens que ir é só a ti!

Vai devagar, não corras,
que o menino do teu eu, recém-nascido
eterno,
não poderá seguir-te!

Juan Ramón Jiménez
(1881-19589
Trad. de José Bento.







CANÇÃO FINAL

As rosas de papel não são verdadeiras
e queimam
como a preocupação de uma sobrancelha, pensativa
ou a sensação de tacto numa camada de gelo.

As rosas de papel são, na verdade,
demasiadas quentes no meu peito.

 Jaime Gil de Biedma
(1929-1990)
Trad. de José Bento.

AMOR MAIS PODEROSO QUE A VIDA

A mesma qualidade que o sol no teu país,
a sair entre as nuvens:
alegre e delicado matiz numas folhas,
fulgor num vidro, modulação
do apagado brilho da chuva.

A mesma qualidade que a tua cidade,
tua cidade de vidro inumerável
idêntica e diferente, mudada pelo tempo:
ruas que desconheço e praça antiga
de pássaros povoada,
a praça em que uma noite nos beijámos.

A mesma qualidade que a tua expressão,
ao cabo dos anos,
esta noite ao fitar-me:
a mesma qualidade que a tua expressão
e a expressão ferida de teus lábios.

Amor que tem qualidade de vida,
amor sem exigência de futuro,
presente do passado,
amor mais poderoso do que a vida:
perdido e encontrado.
Encontrado, perdido...

Jaime Gil de Biedma
(1929-1990)
Trad. de José Bento

 DORME, RAPAZ.


A raiva da morte, os corpos torturados,
A revolução,um leque na mão,
Impotência do poderoso, fome do sedento,
Dúvida com mãos de dúvida,  pés de dúvida;


A tristeza, agitando seus colares
Para alegrar um pouco tantos velhos;
Tudo unido entre campas como estrelas,
Entre luxúrias como luas;

A morte, a paixão nos cabelos,
Dormitam tão minúsculas como uma árvore,
Dormitam tão pequenas ou tão grandes
Como uma árvore crescida até chegar ao solo.

Hoje contudo  também estás cansado."


Luis Cernuda
(1902-1963)
Trad. de José Bento.

domingo, 25 de outubro de 2015

 A RAFAEL MELERO


É proibido chorar.
É proibido ir com os rios para o mar
onde tudo é igual.
É proibido sorrir
de modo subtil, sem nada dizer,
dizendo que tanto faz o sim ou não.
É proibido violentar
e, ainda que armados de razão, atacar.
É proibido forçar.
É proibido falar do fim
quando tudo é no entanto um: ai! não aí,
e um flutuante ver chegar.
É proibido o gesto
de consciência pessoal, piscar de olhos da liberdade,
porque existem os outros.
É proibido morrer
por cultura, cepticismo, ou porque assim
se descansa de existir.
É proibida a moral
das boas intenções, que, associal,
por nada dá o mais próximo.
Há que crer e viver.
Resolutos, ainda que sem ódio, decidir
o dizer sim claramente.
Vem para mais perto, mais perto.
Não me perguntes o que é claro. Também o vês chegar
na unidade dos homens - tu por mim.


Gabriel Celaya
(1911-1995)
Trad. de Egito Gonçalves


 OUTRO REGRESSO


Ainda as palavras graves e já gastas,
os vocábulos do tempo, adjectivos doentes,
chegam a ti rebeldes, não te ajudam.
Tanto melhor; sem elas, assim, entras mais leve
na cidade, teatro, tantos anos,
de teus sonhos, andanças, convivências.
Em suas ruas já te envolvem e confortam
as luzes amarelas, fulgor do teu vazio;
e, qual onda que volta e se quebra fugaz,
a antiga liberdade.

Recolhe a alma, atenta a esta pobreza.

Ricardo Defarges
(1933-2013)
In "Antologia da Poesia Espanhola Contemporânea"
Trad. de José Bento