sábado, 7 de novembro de 2015








CANÇÃO FINAL

As rosas de papel não são verdadeiras
e queimam
como a preocupação de uma sobrancelha, pensativa
ou a sensação de tacto numa camada de gelo.

As rosas de papel são, na verdade,
demasiadas quentes no meu peito.

 Jaime Gil de Biedma
(1929-1990)
Trad. de José Bento.

AMOR MAIS PODEROSO QUE A VIDA

A mesma qualidade que o sol no teu país,
a sair entre as nuvens:
alegre e delicado matiz numas folhas,
fulgor num vidro, modulação
do apagado brilho da chuva.

A mesma qualidade que a tua cidade,
tua cidade de vidro inumerável
idêntica e diferente, mudada pelo tempo:
ruas que desconheço e praça antiga
de pássaros povoada,
a praça em que uma noite nos beijámos.

A mesma qualidade que a tua expressão,
ao cabo dos anos,
esta noite ao fitar-me:
a mesma qualidade que a tua expressão
e a expressão ferida de teus lábios.

Amor que tem qualidade de vida,
amor sem exigência de futuro,
presente do passado,
amor mais poderoso do que a vida:
perdido e encontrado.
Encontrado, perdido...

Jaime Gil de Biedma
(1929-1990)
Trad. de José Bento

 DORME, RAPAZ.


A raiva da morte, os corpos torturados,
A revolução,um leque na mão,
Impotência do poderoso, fome do sedento,
Dúvida com mãos de dúvida,  pés de dúvida;


A tristeza, agitando seus colares
Para alegrar um pouco tantos velhos;
Tudo unido entre campas como estrelas,
Entre luxúrias como luas;

A morte, a paixão nos cabelos,
Dormitam tão minúsculas como uma árvore,
Dormitam tão pequenas ou tão grandes
Como uma árvore crescida até chegar ao solo.

Hoje contudo  também estás cansado."


Luis Cernuda
(1902-1963)
Trad. de José Bento.

domingo, 25 de outubro de 2015

 A RAFAEL MELERO


É proibido chorar.
É proibido ir com os rios para o mar
onde tudo é igual.
É proibido sorrir
de modo subtil, sem nada dizer,
dizendo que tanto faz o sim ou não.
É proibido violentar
e, ainda que armados de razão, atacar.
É proibido forçar.
É proibido falar do fim
quando tudo é no entanto um: ai! não aí,
e um flutuante ver chegar.
É proibido o gesto
de consciência pessoal, piscar de olhos da liberdade,
porque existem os outros.
É proibido morrer
por cultura, cepticismo, ou porque assim
se descansa de existir.
É proibida a moral
das boas intenções, que, associal,
por nada dá o mais próximo.
Há que crer e viver.
Resolutos, ainda que sem ódio, decidir
o dizer sim claramente.
Vem para mais perto, mais perto.
Não me perguntes o que é claro. Também o vês chegar
na unidade dos homens - tu por mim.


Gabriel Celaya
(1911-1995)
Trad. de Egito Gonçalves


 OUTRO REGRESSO


Ainda as palavras graves e já gastas,
os vocábulos do tempo, adjectivos doentes,
chegam a ti rebeldes, não te ajudam.
Tanto melhor; sem elas, assim, entras mais leve
na cidade, teatro, tantos anos,
de teus sonhos, andanças, convivências.
Em suas ruas já te envolvem e confortam
as luzes amarelas, fulgor do teu vazio;
e, qual onda que volta e se quebra fugaz,
a antiga liberdade.

Recolhe a alma, atenta a esta pobreza.

Ricardo Defarges
(1933-2013)
In "Antologia da Poesia Espanhola Contemporânea"
Trad. de José Bento



 OS PASSOS

Mais noite que nas ruas cabe no homem
quando passa. O que buscamos?
Creio que além existe uma muralha.
Cai a desolação por terra. É solo.
Que charco. Que silêncio.
O limite, que claro. Noite crua,
faz-nos como teu gelo.

O diamante é duro. Está no fim.
O enxofre é ardente. Ultrapassa-se,
transborda, chega ao mais além. O seu triunfo
é um delírio. Oh morte.

Mas nós somos turvos.
Não coalhamos.
Não vemos bem a sombra.
E, contudo, que ágeis,
que fugitivos, ao dobrar a esquina,
subimos pela noite,
fugimos, perdemo-nos
nos anos.

César Simón
(1932-1997)
In "Antologia da Poesia Espanhola Contemporânea"
Trad. de José Bento

 ALOCUÇÃO PAGÃ

Porventura julgais vós que, por crer
na imortalidade,
terá que ser-vos dada?
É obra da fé, do egoísmo
ou da desolação.
E se existe, não importa não ter nela acreditado:
respostas ignorantes são todas as humanas
se a morte interrogamos.

Continuai vossos ritos ostentosos, oferendas aos deuses
ou grandes monumentos funerários,
as cálidas preces, vossa esperança cega.
Ou aceitai o vazio que virá,
onde nem sequer soprará um vento estéril.
O que terá de vir será de todos,
pois não há merecimento no nascer
e nada justifica nossa morte.

Francisco Brines
(N:1932)
In "Antologia da Poesia Espanhola Contemporânea"
Trad. de José Bento.