domingo, 25 de outubro de 2015

 A RAFAEL MELERO


É proibido chorar.
É proibido ir com os rios para o mar
onde tudo é igual.
É proibido sorrir
de modo subtil, sem nada dizer,
dizendo que tanto faz o sim ou não.
É proibido violentar
e, ainda que armados de razão, atacar.
É proibido forçar.
É proibido falar do fim
quando tudo é no entanto um: ai! não aí,
e um flutuante ver chegar.
É proibido o gesto
de consciência pessoal, piscar de olhos da liberdade,
porque existem os outros.
É proibido morrer
por cultura, cepticismo, ou porque assim
se descansa de existir.
É proibida a moral
das boas intenções, que, associal,
por nada dá o mais próximo.
Há que crer e viver.
Resolutos, ainda que sem ódio, decidir
o dizer sim claramente.
Vem para mais perto, mais perto.
Não me perguntes o que é claro. Também o vês chegar
na unidade dos homens - tu por mim.


Gabriel Celaya
(1911-1995)
Trad. de Egito Gonçalves


 OUTRO REGRESSO


Ainda as palavras graves e já gastas,
os vocábulos do tempo, adjectivos doentes,
chegam a ti rebeldes, não te ajudam.
Tanto melhor; sem elas, assim, entras mais leve
na cidade, teatro, tantos anos,
de teus sonhos, andanças, convivências.
Em suas ruas já te envolvem e confortam
as luzes amarelas, fulgor do teu vazio;
e, qual onda que volta e se quebra fugaz,
a antiga liberdade.

Recolhe a alma, atenta a esta pobreza.

Ricardo Defarges
(1933-2013)
In "Antologia da Poesia Espanhola Contemporânea"
Trad. de José Bento



 OS PASSOS

Mais noite que nas ruas cabe no homem
quando passa. O que buscamos?
Creio que além existe uma muralha.
Cai a desolação por terra. É solo.
Que charco. Que silêncio.
O limite, que claro. Noite crua,
faz-nos como teu gelo.

O diamante é duro. Está no fim.
O enxofre é ardente. Ultrapassa-se,
transborda, chega ao mais além. O seu triunfo
é um delírio. Oh morte.

Mas nós somos turvos.
Não coalhamos.
Não vemos bem a sombra.
E, contudo, que ágeis,
que fugitivos, ao dobrar a esquina,
subimos pela noite,
fugimos, perdemo-nos
nos anos.

César Simón
(1932-1997)
In "Antologia da Poesia Espanhola Contemporânea"
Trad. de José Bento

 ALOCUÇÃO PAGÃ

Porventura julgais vós que, por crer
na imortalidade,
terá que ser-vos dada?
É obra da fé, do egoísmo
ou da desolação.
E se existe, não importa não ter nela acreditado:
respostas ignorantes são todas as humanas
se a morte interrogamos.

Continuai vossos ritos ostentosos, oferendas aos deuses
ou grandes monumentos funerários,
as cálidas preces, vossa esperança cega.
Ou aceitai o vazio que virá,
onde nem sequer soprará um vento estéril.
O que terá de vir será de todos,
pois não há merecimento no nascer
e nada justifica nossa morte.

Francisco Brines
(N:1932)
In "Antologia da Poesia Espanhola Contemporânea"
Trad. de José Bento.
 ORDEM DO SONHO


Quando entrei a despedir-me dos âmbitos
a que já rendi meu adeus, não meu esquecimento,
a amada sombra estava a recortar-se,
qual negativo de uma antiga foto,
sobre leitosa luz de um dia que declina:
escura luz ou sombra iluminada,
símbolo, talvez, de uma terrível
desdita.
              Minha mão surpreendida,
que cria estar sozinha,
pôs luz no aposento, não na sombra,
nem no enigma que o tempo me abeirava
para apagar, com cada beijo sábio,
uma dor.
              Já passados, não posso recordá-los.
De mim partiram suas ocasiões, seus nomes.
Só falam em mim suas vozes confundidas.
E nem isso, por vezes: um vento que se afasta
entre o bater do mar, neve a cair.
             Através dos sonhos
o esquecimento abre passagem, os rancores
decaem, lentamente, como outono ante inverno.
A noite e suas preciosas criaturas
limpas de seu passado miserável;
salvas de elas mesmas, de mim mesmo,
de pé sobre outra terra: um paraíso.


Julia Uceda
(N: 1925)
In "Antologia da Poesia Espanhola Contemporânea"
Trad. de José Bento.

 QUANDO FICAS SOZINHO

Quando ficas sozinho, és espelho
do que foste:
                     uma manhã
contemplada da janela encostada
da varanda; alguns passos
harmoniosos que não seguiste
para não derramar teu gozo;
umas quantas palavras
que te modificaram mais que o tempo;
um olhar que se afogou
como luz em tuas veias;
uma viagem que não querias
terminar nunca; tua alma ausente
do que te esperava
ao ficares tão sozinho.

Ángel Crespo
(1926-1995)
In "Antologia da Poesia Espanhola Contemporânea"
Tradução: José Bento

sexta-feira, 23 de outubro de 2015


 ALHEIO

Longo se faz o dia a quem não ama
e ele sabe-o. E ele ouve esse toque
breve e duro do corpo, sua alquebrada
canção, a soar sempre à lonjura.
Fecha a sua porta e fica bem fechada;
sai e, por um momento, os seus joelhos
deslizam para o solo. Mas a alvorada
com generosidade perigosa
refresca-o e levanta-o. Muito clara
está sua rua, ele vagueia, pés incertos,
e coxeia em seguida porque anda
só com sua fadiga. E diz ar:
palavras mortas com sua boca viva.
Prisioneiro por não querer, abraça
a sua própria solidão. E está seguro,
mais seguro que ninguém porque nada
possuirá; e ele bem sabe que nunca
viverá aqui, na terra. A quem não ama,
como podemos conhecer ou como
perdoar? Dia longo e ainda mais longa
a noite. Mentirá ao tirar a chave.
Entrará. E nunca habitará a sua casa.

Claudio Rodríguez
 (1934-1999)
In "Antologia da Poesia Espanhola Contemporânea"
Tradução: José Bento