sábado, 17 de outubro de 2015


 TERRA

Humanamente falando, é um suplício
ser homem e suportá-lo até às fezes,
saber que somos luz e sofrer frio,
humanamente escravizados pela morte.

Atrás do homem vem soltando gritos
o abismo, adiante abre seus hélices
a vertigem, e, afogando-se em si mesmo,
no meio deles, o medo cresce, cresce.

Humanamente falando, é o que digo
não há forma de morrer que não nos gele.
Feroz é a sombra e viva é sempre a faca.
Que fazer, homem de Deus, senão morrer?

Humanamente, em terra, é o que escolho.
Morrer horrivelmente, para sempre.
Devolver-me, morrer, não ter nascido
humanamente nunca em nenhum ventre.

 Blas de Otero
(1916-1979)
Trad. de José Bento

 SÓ A NATUREZA É DIVINA, E ELA NÃO É DIVINA...


Só a Natureza é divina, e ela não é divina...

Se às vezes falo dela como de um ente
É que para falar dela preciso usar da linguagem dos homens
Que dá personalidade às coisas,
E impõe nome às coisas.

Mas as coisas não têm nome nem personalidade:
Existem, e o céu é grande e a terra larga,
E o nosso coração do tamanho de um punho fechado...

Bendito seja eu por tudo quanto não sei.
Gozo tudo isso como quem sabe que há o sol.


Alberto Caeiro / Fernando Pessoa
(1888-1935)

sexta-feira, 16 de outubro de 2015

ÁGUA


A água pura dos poços
que a alma teve
leva já lodo à superfície:
é o escuro tempo da velhice
e nós tão moços.

A água tormentosa
que a alma agora tem
cai dos meus olhos tristes:
ó tempo, ó tempo alegre,
onde é que existes?

Carlos de Oliveira
(1921-1981)
In "Trabalho Poético"


sábado, 10 de outubro de 2015

 AGORA QUE ESTOU QUASE NA MORTE E VEJO TUDO JÁ CLARO.


Agora que estou quase na morte e vejo tudo já claro,
Grande Libertador, volto submisso a ti.

Sem dúvida teve um fim a minha personalidade.
Sem dúvida porque se exprimiu, quis dizer qualquer coisa
Mas hoje, olhando pra trás, só uma ânsia me fica —
Não ter tido a tua calma superior a ti-próprio,
A tua libertação constelada de Noite Infinita.

Não tive talvez missão alguma na terra,

Álvaro de Campos / Fernando Pessoa
(1888-1935)

 A MÚSICA


Arrasta-me por vezes como um mar, a música!
Rumo à minha estrela,
Sob o éter mais vasto ou um tecto de bruma,
Eu levanto a vela;

Com o peito prà frente e os pulmões inchados
Como rija tela,
Escalo a crista das ondas logo amontoadas
Que a noite me vela;

Sinto vibrar em mim as inúmeras paixões
De uma nau sofrendo;
O vento, a tempestade e as suas convulsões

Sobre o abismo imenso
Embalam-me. Outras vezes é a calma, esse espelho
Do meu desespero!

Charles Baudelaire
(1821-1867)
In "As Flores do Mal"
Trad. de Fernando Pinto do Amaral.

sexta-feira, 9 de outubro de 2015

IMPROPÉRIA

Que venha a luz da terra iluminar a treva.
Que venha a luz do céu iluminar a treva.
Que venham ambas, numa só, iluminar a treva.

Trazer conhecimento;
Visão, sobretudo visão pra quem a pede.
Pra quem a não pede... mas que venha cedo.

A hora é de pasmar, calamitosa.
A hora funde a espada nas entranhas.
A hora é de comer raízes frias
Ou de tecer mais espessa a teia que nos cobre.

fbrque nem tudo se perdeu, nem tudo
É como quer quem se vendeu aos poucos
A outrem ou a si — pior que tudo.
Porque nem sempre é preciso descer escadas
Perseguido pelo fantasma que em nós vive.

Porque ainda há vozes traiçoeiras
Capazes de indicar caminho ignoto.
Eu canto, mas imploro, eu invoco
A multidão dos anjos debruçada
Sobre o ser vivo, sobre um corpo morto
Geladamente; iluminado apenas
Por assassinos focos...

Eu canto: sonho e vivo, mas não tremo,
Invoco de novo os anjos — testemunhos
Calados, pacientemente aflitos
Do mal que cresce;
Nos afunda, afoga
Em cada um de nós.

Porque tudo se perdeu ou perde.
Nem tudo é como queríamos que fosse
Sonhado ou procurado...
Porque nem sempre a fome é saciada,
Menos a sede, ainda a mais violenta,
Eu canto, eu imploro, eu invoco:

Que venha a luz da terra iluminar a treva.
Que venha a luz do céu iluminar a treva.

Mas se a hora é de comer raízes frias
(Meus queridos anjos tão abandonados...)
Que venha Cristo em fogo alimentar-nos!




Ruy Cinatti
(1915-1986)

FERIDA

Quando um signo adverso em mim se instala e me enche
de vazio, corrente vida acima prossigo, o coração aberto
— e sua fábrica antiga — a uma ferida de névoa
em minha porção humana encomendada,
para tornar em estilhas o córtice de um vento
que em seu punho me abafa. Ninguém demora nada
já passado. São só as trevas que voltam
e se afastam a fugir, deixando chaga idêntica
após cada regresso. E eu gostaria, às vezes,
de ficar para sempre entre os caniços.

María Victoria Atencia
(N: 1931)
Trad. de José Bento