sexta-feira, 9 de outubro de 2015

IMPROPÉRIA

Que venha a luz da terra iluminar a treva.
Que venha a luz do céu iluminar a treva.
Que venham ambas, numa só, iluminar a treva.

Trazer conhecimento;
Visão, sobretudo visão pra quem a pede.
Pra quem a não pede... mas que venha cedo.

A hora é de pasmar, calamitosa.
A hora funde a espada nas entranhas.
A hora é de comer raízes frias
Ou de tecer mais espessa a teia que nos cobre.

fbrque nem tudo se perdeu, nem tudo
É como quer quem se vendeu aos poucos
A outrem ou a si — pior que tudo.
Porque nem sempre é preciso descer escadas
Perseguido pelo fantasma que em nós vive.

Porque ainda há vozes traiçoeiras
Capazes de indicar caminho ignoto.
Eu canto, mas imploro, eu invoco
A multidão dos anjos debruçada
Sobre o ser vivo, sobre um corpo morto
Geladamente; iluminado apenas
Por assassinos focos...

Eu canto: sonho e vivo, mas não tremo,
Invoco de novo os anjos — testemunhos
Calados, pacientemente aflitos
Do mal que cresce;
Nos afunda, afoga
Em cada um de nós.

Porque tudo se perdeu ou perde.
Nem tudo é como queríamos que fosse
Sonhado ou procurado...
Porque nem sempre a fome é saciada,
Menos a sede, ainda a mais violenta,
Eu canto, eu imploro, eu invoco:

Que venha a luz da terra iluminar a treva.
Que venha a luz do céu iluminar a treva.

Mas se a hora é de comer raízes frias
(Meus queridos anjos tão abandonados...)
Que venha Cristo em fogo alimentar-nos!




Ruy Cinatti
(1915-1986)

FERIDA

Quando um signo adverso em mim se instala e me enche
de vazio, corrente vida acima prossigo, o coração aberto
— e sua fábrica antiga — a uma ferida de névoa
em minha porção humana encomendada,
para tornar em estilhas o córtice de um vento
que em seu punho me abafa. Ninguém demora nada
já passado. São só as trevas que voltam
e se afastam a fugir, deixando chaga idêntica
após cada regresso. E eu gostaria, às vezes,
de ficar para sempre entre os caniços.

María Victoria Atencia
(N: 1931)
Trad. de José Bento
A CAMINHADA

Éramos gente afeita ao dom da mansidão
e à vaga lembrança de um caminho para um sítio.
E ninguém deu a ordem. — Quem saberia seu instante? -
Mas todos, ao mesmo tempo e em silêncio, deixámos
o abrigo habitual, o lume aceso que enfim se apagaria,
as ferramentas dóceis pelo contacto com as mãos,
o cereal crescido, as palavras a meio, a água a derramar-se.
Sinal nenhum chegou. Pusemos-nos de pé.
Não voltámos o rosto. Começámos a andar.

María Victoria Atencia
N:1931
Trad. de José Bento

quinta-feira, 8 de outubro de 2015

ERA MINHA DOR TÃO ALTA


Era minha dor tão alta
que a porta da minha casa
donde saí soluçando
chegava à minha cintura.

Que pequenos pareciam
os homens que iam comigo!
Cresci como uma  labareda
de pano branco e cabelos.

Se prostrassem minha fronte
os touros bravos saíam,
luto em desordem, dementes,
contra os corpos humanos.

Era minha dor tão alta
que avistava o outro mundo
olhando sobre o poente.

Manuel Altolaguirre
(1905-1959)
Trad. de José Bento

SEPARAÇÃO


Levo em mim a solidão,
torre de cegas janelas.

Quando meus braços estendo
abro suas portas de entrada
e dou caminho macio
a quem quiser visitá-la.

Pintou a lembrança os quadros
que enfeitam as suas salas.
Minhas venturas de outrora
com a dor de hoje ali contrastam.

Que juntos os dois estávamos!
Quem o corpo?Quem a alma?
Nossa ultima despedida,
que morte foi tão amarga!

Dentro de mim levo agora
a solidão alta e delgada.


Manuel Altolaguirre
(1905-1959)
Trad. de José Bento

 FAZ FALTA SER CEGO

Faz falta ser cego,
ter como metidas nos olhos raspaduras de vidros,
cal viva,
areia a ferver,
para não ver a luz que salta em nossos actos,
que ilumina por dentro a nossa língua,
a nossa palavra quotidiana.

Faz falta querer morrer sem lápide de glória e alegria,
sem participação nos hinos futuros,
sem lembrança nos homens que julguem o passado sombrio da Terra.

Faz falta querer já na vida ser passado,
obstáculo sangrento,
coisa morta,
esquecimento seco.

Rafael Alberti
(1902-1999)
Trad. de José Bento




 AS INQUIETAÇÕES





Esquece as inquietações
Todas as gares gretadas oblíquas sobre a estrada
Os fios telegráficos de que pendem
Os postes fazendo trejeitos que gesticulam e as estrangulam
O mundo estende-se alonga-se e contraí-se como um harmónio que uma mão sádica atormenta
Nos rasgões do céu as locomotivas em fúria
Escondem-se
E nos buracos
As rodas vertiginosas as bocas as vozes
E os cães malditos que uivam no nosso encalço
Os demónios andam à solta
Ferragens
É tudo um acorde falso
O brum-ru-rum das rodas
Choques
Saltos
Somos uma tempestade sob o crânio de um surdo...

 Blaise Cendrars
(1187-1961)
Trad. de Liberto Cruz)