segunda-feira, 28 de setembro de 2015


OUTONO

O outono vem vindo, chegam melancolias,
cavam fundo no corpo,
instalam-se nas fendas; às vezes
por aí ficam com a chuva
apodrecendo;
ou então deixam marcas, as putas,
difíceis de apagar, de tão negras,
duras.
 
Eugénio de Andrade
(1923-2005)

terça-feira, 22 de setembro de 2015

ALMA DE CÔRNO
Alma de côrno – isto é, dura como isso;
Cara que nem servia para rabo;
Idéas e intenções taes que o diabo
As recusou a ter a seu serviço –
 
Ó lama feita vida! ó trampa em viço!
Se é p’ra ti todo o insulto cheira a gabo
– Ó do Hindustão da sordidez nababo!
Universal e essencial enguiço!
 
De ti se suja a imaginação
Ao querer descrever-te em verso. Tu
Fazes dôr de barriga á inspiração.
 
Quér faças bem ou mal, hyper-sabujo,
Tu fazes sempre mal. És como um cú,
Que ainda que esteja limpo é sempre sujo.
 
Fernando Pessoa
(1888-1935)
Nota: Soneto atribuído a F.P. e escrito em 1910.

 OBSESSÃO

Quero a Noite completa, desumana.
A Noite anterior. A Noite virgem
de mim. A Noite pura. Quero a Noite,
aonde é impossível encontrar-te.

Que não há rio nem rua nem montanha
nem floresta nem prado nem jardim
nem pensamento algum nem livro algum
em que não me apareças sorridente.

Sebastião da Gama
(1924-1952)
In "Pelo Sonho é que Vamos"

segunda-feira, 21 de setembro de 2015


 OS CAMINHOS DESTA TARDE

Os caminhos desta tarde
fazem-se um, com a noite.
Por ele irei eu a ti,
amor que tanto te escondes.

Por ele irei eu a ti,
como vai a luz dos montes,
como a viração do mar,
como o aroma das flores.

Juan Ramón Jimenez
(1881-1956)
Trad. de José Bento

 ANTES...

Antes que o vento
venha e, hostil, desfaça
o que em mim há de puro ainda
-- gostava de cantar.

Antes que a noite
desça e, subtil, perturbe
mais o meu ser com seu mistério denso
-- gostava de cantar.

Antes que a vida
me arraste, pise e esmague
na torva confusão de ódios e lutas
-- gostava de cantar.

Antes que o mundo
me estreite mais no seu abraço imundo
(tão raras vezes belo)
-- gostava de cantar.

Luís Amaro
( N : 1923 )
AUSÊNCIA

Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência, essa ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim.

Carlos Drummond de Andrade
(1902-1987)
CONGRESSO INTERNACIONAL DO MEDO


Provisoriamente não cantaremos o amor,
que se refugiou mais abaixo dos subterrâneos.
Cantaremos o medo, que esteriliza os abraços,
não cantaremos o ódio porque esse não existe,
existe apenas o medo, nosso pai e nosso companheiro,
o medo grande dos sertões, dos mares, dos desertos,
o medo dos soldados, o medo das mães, o medo das igrejas,
cantaremos o medo dos ditadores, o medo dos democratas,
cantaremos o medo da morte e o medo de depois da morte,
depois morreremos de medo
e sobre nossos túmulos nascerão flores amarelas e medrosas.

Carlos Drummond de Andrade
(1902-1987)