terça-feira, 1 de setembro de 2015

QUANDO OLHO PARA MIM NÃO ME PERCEBO


Quando olho para mim não me percebo.
Tenho tanto a mania de sentir
Que me extravio às vezes ao sair
Das próprias sensações que eu recebo.

O ar que respiro, este licor que bebo
Pertencem ao meu modo de existir,
E eu nunca sei como hei-de concluir
As sensações que a meu pesar concebo.

Nem nunca, propriamente, reparei
Se na verdade sinto o que sinto. Eu
Serei tal qual pareço em mim? serei

Tal qual me julgo verdadeiramente?
Mesmo ante às sensações sou um pouco ateu,
Nem sei bem se sou eu quem em mim sente.

Álvaro de Campos / Fernando Pessoa
(1888-1935)

 NO FIM DE TUDO DORMIR.

No fim de tudo dormir.
No fim de quê?
No fim do que tudo parece ser...,
Este pequeno universo provinciano entre os astros,
Esta aldeola do espaço,
E não só do espaço visível, mas até do espaço total.


Álvaro de Campos / Fernando Pessoa
(1888-1935)

 OS BADAMECOS


Os badamecos
tão engraçados
sujam paredes,
são malcriados.

Andam em férias
como vadios.
Cheiram que fedem,
de mal lavados.

Têm brinquedos,
alguns perigosos,
adquiridos
pelos mais ranhosos.

E quando dormem
o seu soninho,
mijam na rua,
sonham-se grandes.

Nunca se faça
mal aos meninos,
à linda graça
de nós tontinhos.

Que nos lembremos
sempre aos demais:
Casa de filhos,
escola de pais!




Ruy Cinatti
(1915-1986)
In "Memória Dividida"




domingo, 30 de agosto de 2015

 A ILHA


A ilha era deserta e o mar com medo
de tanta solidão já te sonhava:
ia em vento chamar-te para longe
e longamente em espuma te esperava.

À cinza dos rochedos atirava
na grande madrugada adormecida,
já saudosos de ti, os braços de água,
sem ter acontecido a tua vida.

Sim, meu amor, antes de Zarco vir
provar o sumo e o travo à solidão,
no litoral de pedra pressentida
o mar imaginava esta canção.

E as lúcidas gaivotas desse tempo
talhavam como um voo o teu amor:
o início de lava e sal que deixa
(talvez) neste poema algum esplendor.


Carlos de Oliveira
(1921-1981)

SÚPLICA

Para alguém, foi, do teu olhar a flama,
Como, após noite escura, a luz d'aurora.

Da «selva oscura» entre a sombria trama,
Ouve, mulher, como esse alguém t'implora.

Oh, baixa sobre mim o olhar fulgente!...

Que o teu olhar é bálsamo que inora,
Do céu sobre este seio, em que, latente,

Remorde, há muito, o cancro de um anseio,
De um desejo insensato e sede ardente

De um não sei quê, que em teu olhar eu leio.


Ângelo de Lima
(1872-1921)


PORTUGAL SACRO-PROFANO LUGAR ONDE



Neste país sem olhos e sem boca 
hábito dos rios castanheiros costumados 
país palavra húmida e translúcida 
palavra tensa e densa com certa espessura 
(pátria de palavra apenas tem a superfície) 
os comboios mansos têm dorsos alvos 
engolem povoados limpamente 
tiram gente de aqui põem-na ali 
retalham os campos congregam-se 
dividem-se nas várias direcções 
e os homens dão-lhes boas digestões: 
cordeiros de metal ou talvez grilos 
que mãe aperta ao peito os filhos ao ouvi-los? 
Neste país do espaço raso do silêncio e solidão 
solidão da vidraça solidão da chuva 
país natal dos barcos e do mar 
do preto como cor profissional 
dos templos onde a devoção se multiplica em luzes 
do natal que há no mar da póvoa de varzim 
país do sino objecto inútil 
única coisa a mais sobre estes dias 
Aqui é que eu coisa feita de dias única razão 
vou polindo o poema sensação de segurança 
com saúde de um grito ao sol 
combalido tirito imito a dor 
de se poder estar só e haver casas 
cuidados mastigados coisas sérias 
o bafo sobre o aço como o vento na água 
País poema homem 
matéria para mais esquecimento 
do fundo deste dia solitário e triste 
após sucessivas quebras de calor 
antes da morte pequenina celular e muito pessoal 
natural como descer da camioneta ao fim da rua 
neste país sem olhos e sem boca
 
 
Ruy Belo
(1933-1978) 

O HOMEM E O MAR

Homem livre, tu sempre adorarás o mar!
O mar é o teu espelho; a tua alma contemplas
Na sua ondulação, no infinito vaivém,
E o teu espírito é fosso não menos amargo.

Gostas de mergulhar na tua própria imagem;
Chegas mesmo a beijá-la, e o teu coração
Distrai-se algumas vezes do seu próprio som
Com o rumor dessa queixa indomável, selvagem.

Sois ambos, afinal, discretos, tenebrosos:
Homem, ninguém conhece os teus fundos abismos;
Ó mar, ninguém conhece os teus tesouros íntimos,
Tanto que sois dos vossos segredos ciosos!

E porém, desde sempre, há séculos inumeráveis,
Que os dois vos combateis sem piedade ou remorso,
De tal modo gostais da carnagem, da morte,
Ó lutadores eternos, irmãos implacáveis!

Charles Baudelaire
(1821-1867)
In "As Flores do Mal"
Trad. de Fernando Pinto do Amaral.