quarta-feira, 12 de agosto de 2015

  DOMINGO
 
 
 
A distância entre mim e o que me circunda,
sempre a repercutir-se nos meus gestos,
aflige-me e dói-me.

Olho para aquela rua vagamente,
olho em volta de mim neste café longínquo,
e todas as coisas não significam coisa alguma
e toda a gente tem escrita no rosto
quanta traição da vida!

Ah, que não consigo ser fraterno e integrar-me
e ser despreocupado e ignorante
do meu, do nosso drama...

Bem quisera esquecer-me e enlear-me
nas coisas fúteis, ingenuamente vis,
que alimentam o destino desta gente.
Mas olho para mim e sinto-me diferente,
amachucado pela lucidez duma intuição
que todas as tentativas para imiscuir-me 
não conseguem mais do que exacerbar.

Consola-me a certeza de que tudo isto é fictício,
e não me custa a renúncia, em troca deste contemplar
calado, discreto mas tumultuoso...
Lá fora há agitação e há bulício.
Paira sobre as coisas a inutilidade,
o frágil, o efémero...

(Chego às vezes a pensar que tudo não seja mais que representação.)

Cansado do espectáculo,
abandono esta mesa de café
e vou passear ilusões impossíveis,
até que a noite venha e eu recolha
à solidão do meu quarto
— mãos vazias e coração intranquilo.
 
 
Luís Amaro



  SERÁ?
 
 
Será breve?
Será longa?
Breve ou longa, será longa
Para Além,
Minha vida
Consumida
Só por só,
Neste viver
Sem querer
Mais nada que querer bem.
 
...E os outros passam...
— Se passam,
Que tem?
 
Antes bem só,
Do que estar inda mais só,
Com todos e sem ninguém!
 
 
António Pedro
(1909-1966)


UM DIA NÃO MUITO LONGE NÃO MUITO PERTO


Às vezes sabes sinto-me farto
por tudo isto ser sempre assim
Um dia não muito longe não muito perto
um dia muito normal um dia quotidiano
um dia não é que eu pareça lá muito hirto
entrarás no quarto e chamarás por mim
e digo-te já que tenho pena de não responder
de não sair do meu ar vagamente absorto
farei um esforço parece mas nada a fazer
hás-de dizer que pareço morto
que disparate dizias tu que houve um surto
não sabes de quê não muito perto
e eu sem nada pra te dizer
um pouco farto não muito hirto e vagamente absorto
não muito perto desse tal surto
queres tu ver que hei-de estar morto?



Ruy Belo
(1933-1978)
  ALJUBE,  1938
 
 
 
Inerte e vã, cai a penumbra,
indiferentemente,
por sobre os movimentos nítidos, ou indecisos,
as palavras
com segurança proferidas,
ou hesitantes, de timidez ou espanto,
os risos arejados e salubres,
ou as lágrimas sem remédio
das grandes desolações,
ou dos grandes dramas.
Inerte e vã, cai a penumbra,
impassível e inelutável,
ao mesmo tempo que, por isso mesmo, justiceira,
pois tudo, afinal, se equivale e se anula,
na sucessão voraz
dos sentimentos e das circunstâncias.
Inerte e vã, cai a penumbra.
Mas eu, decidido, fito-a,
ou, antes, fito o que ela envolve e adoça,
em lugar de também me abandonar a ela,
com a sua sedução de imponderável sono.
Inerte e vã, cai a penumbra.
É o fim da tarde no horizonte manso,
que no rio acende um último lampejo,
que só adivinho,
e em mim reata uma pungente saudade,
nem percebo de quê,
nem percebo de quando,
à força de ser com certeza de mim,
de antes de eu ter saudades de nada.
Inerte e vã, cai a penumbra.
Este ruído que oiço é o de um cão a ladrar,
ou o de portas fechando-se,
ou, mais simplesmente,
o do meu coração a querer evadir-se?
Agora, os cais devem estar apinhados,
o rio magoado lentamente desliza,
e a brisa que sopra as arestas morde
dos edifícios em monte
que as colinas cavalgam.
Há incêndios finais de dolorosas chagas
nalgumas vidraças que os derradeiros raios
do sol tange ainda.
Um surdo clamor cresce das ruas cheias
de uma gente agitada, que à pressa caminha,
e em tropel assalta os carros eléctricos
que telintam aflitos.
É a hora do enorme desafio
da alegria do cansaço vencido,
da proximidade do jantar fumegante,
da preguiça, do ócio, da intimidade.
Os automóveis cruzam-se,
ultrapassam-se, velozes,
de buzinas febris ferindo os ouvidos.
Nos parapeitos das janelas amargas,
com grades e redes poeirentas e vis,
alguns pombos descuidados debicam
as migalhas de pão que nós lhes deitamos
com os dedos crispados de amor e de angústia.
Inerte e vã, cai a penumbra.
E em cada um de nós, que um pudor emudece,
chora, mais negro, mais cruel, mais duro,
mais um dia inútil, perdido para a vida. 
 
 
Armindo Rodrigues
(1904-1938)


terça-feira, 11 de agosto de 2015

 MARESIA


  Neste mar à minha frente
O sol repousa e os nossos olhos dormem…

- Caem saudades mortas como chuva miúda,
Ou sobem, trémulas, como o vapor das algas,
Ou ficam, extáticas, como um bafo da areia,
Calmas, sobre a paisagem,
Como um véu de cambraia deixado…

Não sei se é o calor das algas,
Se é o bafo da areia que baila,
Ou se é a chuva miúda que cai neste dia de sol
Como um véu de cambraia deixado,

Sei que me lembram os signos do Zodíaco
Em boa caligrafia,
Uns signos como nem sequer eu tinha imaginado!...

E este calor que dimana da terra e nos confunde com ela,
Nos aquece as pernas de encontro à areia, numa vida exterior
Com mais sangue que a nossa e, sobretudo, cheia
Duma inconsciência que se não parece com nada,
Esta respiração pausada como as ondas, de trás para diante
Fazendo, lentas, e desfazendo
A mesma curva humaníssima e sensível,
Faz-me escrever, devagar, e com letra de menino pequeno
Sobre o chão acamado, esta palavra.

AMOR.

António Pedro
(1909-1966)
In "Rosa do Mundo 2001 Poemas Para o Futuro"




SEM ABRIGO

 

Só nos meus poemas encontro morada
Abrigo diferente não me foi cedido;
Ao próprio lar nunca me vi atraído,
E a tenda plo vento brutal foi levada.

Só nos meus poemas encontro morada.
E, se tal refúgio consigo nos matos,
Em estepes, cidades ou sítios ingratos,
Miséria nenhuma me afectará nada.

Ainda demora, mas há-de chegar
O tempo em que a força me abandonará
E em vão doces ditos irá requerer
Com que eu construía, e em que o chão irá
Guardar-me e eu me inclino pra esse lugar
Onde há uma cova no escuro a romper
.


J. Slauerhoff 
(1898-1936)
Trad. de Fernando Venâcio
In "Rosa do Mundo 2001 Poemas Para o Futuro"

segunda-feira, 10 de agosto de 2015


O GANHO


Nada perdeu,
Pois nada possuía,
Quem chegava inválido e despido.
Mas ganhou pouco a pouco, depressa,
o melhor de saudades, preguiça acobardada,
e uma medida rasa de incertezas
onde a ilusão com tédio vai procurar migalhas.


Pere Quart
(1899-1986)
Trad. de José Bento
In "Rosa do Mundo 2001 Poemas Para o Futuro"