quarta-feira, 5 de agosto de 2015

HÁ MULHERES QUE TRAZEM O MAR NOS OLHOS
 
 
 
Há mulheres que trazem o mar nos olhos
Não pela cor
Mas pela vastidão da alma
E trazem a poesia nos dedos e nos sorrisos
Ficam para além do tempo
Como se a maré nunca as levasse
... Da praia onde foram felizes
Há mulheres que trazem o mar nos olhos
pela grandeza da imensidão da alma
pelo infinito modo como abarcam as coisas e os Homens...
Há mulheres que são maré em noites de tardes
e calma.




Sophia de Mello Breyner Andresen
(1919-2004)

terça-feira, 4 de agosto de 2015



DA INOCÊNCIA À CONFIANÇA


Da inocência à confiança
da claridade à fidelidade
do sonho à consciência
da beleza à bondade
da poesia ao amor
do amor à verdade
da solidão à harmonia
da angústia à liberdade
todas as cores uniste
num arco-íris fraternal.

António Ramos Rosa
(1924-2013)
SOMOS DE BARRO
Somos de barro. Iguais aos mais.
Ó alegria de sabê-lo!
(Correi, felizes lágrimas,
por sobre o seu cabelo!)
Depois de mais aquela confissão,
impuros nos achamos;
nos descobrimos
frutos do mesmo chão.
Pecado, Amor? Pecado fôra apenas
não fazer do pecado
a força que nos ligue e nos obrigue
a lutar lado a lado.
O meu orgulho assim é que nos quer.
Há de ser sempre nosso o pão, ser nossa a água.
Mas vencidas os ganham, vencedores,
nossa vergonha e nossa mágoa.
O nosso Amor, que história sem beleza,
se não fôra ascensão e queda e teimosia,
conquista... (E novamente queda e novamente
luta, ascensão... ) Ó meu amor, tão fria,
se nascêramos puros, nossa história!
Chora sobre o meu ombro. Confessamos.
E mais certos de nós, mais um do outro,
mais impuros, mais puros, nós ficamos
Sebastião da Gama
(1924-1952)


QUEM AMA A LIBERDADE CONHECE QUE É IDÊNTICA

Quem ama a liberdade conhece que é idêntica
a verdade e a não-verdade o ser e o vazio
e por isso na sua celebração a metáfora expande-se
na liberdade de ser a ténue sabedoria
desse momento e só desse momento em que o arco cresce
Há então que procurar a chuva dessa nuvem
ou desdizê-la não para o nosso olhar
mas para um outro rosto de areia que cresce no vazio
e poderá ser de pedra ou de ouro ou só de uma penugem
O poema é o encontro destas duas faces
de nenhuma substância quando no vazio do céu
os anjos se diluem com as mãos despojadas


António Ramos Rosa
(1924-2013)

  




 VOAM GAIVOTAS RENTE AO CHÃO.


Voam gaivotas rente ao chão.
Dizem que é a chuva a ir chegar.
Mas não, neste momento não:
São só gaivotas rente ao chão
Só a voar.

Assim também se há alegria
Dizem que assim que a dor que vem.
Talvez. Que importa? Se este dia
Tem aqui a sua alegria;
Que é que a dor tem?

Nada: só o rastro do futuro,
Quando vier, ficará triste.
Por ora é o dia bom e puro.
Hoje o futuro não existe.
Há um muro.

Goza o que tens, ébrio de seres!
Deixa o futuro onde ele está.
Poemas, vinho, ideais, mulheres ─
Seja o que for se é o que há,
Há para o teres.

Mais tarde... Mas mais tarde sê
O que o mais tarde te for dando.
Por ora aceita, ignora e crê.
Sê rente à terra, mas voando,
Como a gaivota é.


Fernando Pessoa
(1888-1935)

segunda-feira, 3 de agosto de 2015

 ESPERANÇA

 

Canto.
Mas o meu canto é triste.
Não sou capaz de nenhum outro, agora.
Uma ilusão,
Tolhida na amplidão
Que lhe sonhei...
Felizmente que sei
Cantar sem pressa.
Que sei recomeçar...
Que sei que há uma promessa
No acto de cantar...


Miguel Torga
(1907-1995)
  A VERDADE É QUE ERA UMA CRIANÇA.
 
 
A verdade é que era uma criança, e não se aguentou
quando o médico disse: aguente-se.
E as ruas são tão tristes. Precisam de mais luz.
Mas nesta, por exemplo, já puseram mais luz,
e mesmo assim é triste.
É até mais triste que as outras. Estou tão triste.
Vamos para férias, para o pequeno paraíso. 
Contaram-me que ele tinha uma alegria tão grande
que não podia aguentar um copo na mão: quebrava-o
com a força dos dedos, com a grande força da sua alegria.

Era uma criatura excepcional.
 
 
Herberto Helder
(1930-2015)