segunda-feira, 3 de agosto de 2015

 ESPERANÇA

 

Canto.
Mas o meu canto é triste.
Não sou capaz de nenhum outro, agora.
Uma ilusão,
Tolhida na amplidão
Que lhe sonhei...
Felizmente que sei
Cantar sem pressa.
Que sei recomeçar...
Que sei que há uma promessa
No acto de cantar...


Miguel Torga
(1907-1995)
  A VERDADE É QUE ERA UMA CRIANÇA.
 
 
A verdade é que era uma criança, e não se aguentou
quando o médico disse: aguente-se.
E as ruas são tão tristes. Precisam de mais luz.
Mas nesta, por exemplo, já puseram mais luz,
e mesmo assim é triste.
É até mais triste que as outras. Estou tão triste.
Vamos para férias, para o pequeno paraíso. 
Contaram-me que ele tinha uma alegria tão grande
que não podia aguentar um copo na mão: quebrava-o
com a força dos dedos, com a grande força da sua alegria.

Era uma criatura excepcional.
 
 
Herberto Helder
(1930-2015)
SECA


O sol como um pássaro de fogo
paira num céu azul sem piedade
e a ponta da sua asa
corre na planície sem sombra
como um cavalo de crinas a arder.


Até as lágrimas secaram
deixando o sal do sofrimento
nas rugas fundas da face,
ficou só esta raiva de morte
na planície vincada
de ribeiros secos e currais desertos.


Joaquim Namorado
(1914-1986)
In " A Poesia Necessária"
VÉRTICE
Coimbra - 1966.









DESENCONTRO

Só quem procura sabe como há dias
de imensa paz deserta; pelas ruas
a luz perpassa dividida em duas:
a luz que pousa nas paredes frias,
outra que oscila desenhando estrias
nos corpos ascendentes como luas
suspensas, vagas, deslizantes, nuas,
alheias, recortadas e sombrias.

E nada coexiste. Nenhum gesto
a um gesto corresponde; olhar nenhum
perfura a placidez, como de incesto,

de procurar em vão; em vão desponta
a solidão sem fim, sem nome algum -
- que mesmo o que se encontra não se encontra.


Jorge de Sena
(1919-1978)


domingo, 2 de agosto de 2015

 SILÊNCIO


Quando a ternura
parece já do seu ofício fatigada,

e o sono, a mais incerta barca,
inda demora,

quando azuis irrompem
os teus olhos

e procuram
nos meus navegação segura

é que eu te falo das palavras
desamparadas e desertas

pelo silêncio fascinadas.


Eugénio de Andrade
(1923-2005)

 NÃO DIGAS NADA



Não digas nada!
Nem mesmo a verdade
Há tanta suavidade em nada se dizer
E tudo se entender -
Tudo metade
De sentir e de ver...
Não digas nada
Deixa esquecer

Talvez que amanhã
Em outra paisagem
Digas que foi vã
Toda essa viagem
Até onde quis
Ser quem me agrada...
Mas ali fui feliz
Não digas nada.




Fernando Pessoa
(1888-1935)
 A UM TI QUE EU INVENTEI.


Pensar em ti é coisa delicada.
É um diluir de tinta espessa e farta
e o passá-la em finíssima aguada
com um pincel de marta.


Um pesar grãos de nada em mínima balança
um armar de arames cauteloso e atento,
um proteger a chama contra o vento,
pentear cabelinhos de criança.

Um desembaraçar de linhas de costura,
um correr sobre lã que ninguém saiba e oiça,
um planar de gaivota como um lábio a sorrir,


Penso em ti com tamanha ternura
como se fosses vidro ou película de loiça
que apenas como o pensar te pudesses partir.

António Gedeão 
(1906-1997)