sábado, 1 de agosto de 2015

 VENTO


As palavras
cintilam
na floresta do sono
e o seu rumor
de corças perseguidas
ágil e esquivo
como o vento
fala de amor
e solidão:
quem vos ferir
não fere em vão,
palavras.

Carlos de Oliveira
(1921-1981)



 ASSIM COMO FALHAM AS PALAVRAS...


Assim como falham as palavras quando querem exprimir qualquer pensamento,
Assim falham os pensamentos quando querem exprimir qualquer
realidade.
Mas, como a realidade pensada não é a dita mas a pensada,
Assim a mesma dita realidade existe, não o ser pensada.
Assim tudo o que existe, simplesmente existe.
O resto é uma espécie de sono que temos,
Uma velhice que nos acompanha desde a infância da doença.


Alberto Caeiro
(1888-1935)



PANFLETO CONTRA A PAISAGEM



Apaga-te, lua!
- lâmpada dos lírios e dos cães.

Não finjas de alma
esta realidade violenta
que me dói até às raízes.

Não pintes de mistério
estas bocas de fome
onde só há metafísicas de pão negro.

Não abras asas
na planície das pedras
de fogo apodrecido.

Apaga-te lua!
Peço-te que te apagues!
Para os tímidos poderem amar-se à vontade na sombra sem olhos,
para os humilhados de botas rotas cantarem serenatas às castelãs de carne invisível,
para as feias se entregarem nuas e abertas ao sexo da noite,
para os trémulos morrerem heróicos em barricadas de imaginação,
para os famintos devorarem com volúpia de vergonha o pão verde dos caixotes,
para os cegos dizerem: «Não vemos porque não há luar!»,
para os mendigos sonharem em voz alta que são reis a arrastar mantos negros,
para os escorraçados saírem dos canos lôbregos
e forrarem o mundo de luz própria como as estrelas,
para os ladrões velhinhos arrombarem as caixas das esmolas
onde só os pobres deitaram moedas falsas,
para os visionários mergulharem as mãos na noite
em busca de outra lua sem vincos de caveira,
para as mães das caves convencerem os filhos: «Moramos num palácio às escuras»...


Ouviste, lua?
Apaga-te!
- lâmpada dos cães e dos poetas magros.


José Gomes Ferreira
(1900-1985)

DECALQUE DE SETE DESENHOS DE MANUEL RIBEIRO DE PAVIA
(1907-1957)

1
Um menino chora,
sem razão?!…
A mãe limpa com um lenço branco
as lágrimas e chora,
chora porque chora
o seu menino,
sem razão?!…
2
Manta de maltez: sol do
inverno e sombra do
estio, mortalha pronta,
dossel do amor, tecto e
sobrado de não ter casa.
Manto de um rei das
encruzilhadas, sudário
rasgado de dentes e cutiladas;
uma almofada sobre as ortigas…
uma bandeira de Liberdade.
3
Flor da terra, carne dos
homens, de papoilas
bravas entre searas
coroada. Agua da fonte
corrente do rio, pão
ainda quente haste do
trigo. Porto seguro na
vida incerta, paz dos
teus braços da luta
incerta. Esperança e
consolo, pano de linho
sobre as feridas ainda
abertas; bandeira ao
vento. A manhã
que nasce está
nos teus olhos.
4
Os calos da mão apertam cabos
de enxadas quebradas e os
ferros dos arados rasgam
caminhos abertos nas futuras
madrugadas.
5
Um traço largo e profundo
debrua um corpo cansado,
sob a forma rígida de um braço
desenha-se o músculo empedernido
dos trabalhos.
Mapa da vida o teu rosto.
lavrado pelo trabalho,
um pergaminho vincado
da cicatriz da amargura.
Mas no fundo dos teus olhos,
tão firmes e tão seguros,
raia a certa madrugada
dos mundos futuros.
6
Num mundo de maiorais, de
feitores, de cães de guarda,
ficou no pó das estradas a
marca dos nossos passos
continuando outros passos. O
caminho é por aqui, dirá quem
vier depois olhando estes
sinais e disso estará tão certo
que o que ainda é distante lhe
será perto.
7
Sobre a planície cai
uma chuva de lume
do sol a prumo.
A solidão sem sombras
incendeia-se de estrelas
e o silêncio estala
como a pele de frenéticos tambores
batidos furiosamente.
Os homens dobrados para a terra levantam
as cabeças medindo os horizontes rasos e
distantes com olhos ávidos, sem piedade.


Joaquim Namorado
(1914-1986)
In "A Poesia Necessária)
VÉRTICE
Coimbra - 1966
REGRESSO

Em cada canto revejo a minha infância...
outras rosas iguais a estas rosas,
nenhuma tinha o perfume da lembrança
que estas rosas têm,
estas rosas colhidas no jardim distante
-- os ponteiros parados do relógio da torre
que horas marcam?
 Passou o tempo
ou é o emigrante que volta quem mudou?
Tudo me sabe ainda ao que deixei,
ou quero que me saiba porque sei
a recordação do que era?...

Em cada canto me encontro como fui
-- como sou, estrangeiro na minha casa,
ninguém, nem eu, me reconhece agora.

Joaquim Namorado
(1914-1986)
In " A Poesia Necessária"
CONTRACANTO
 
Aqui, longe do sol, que mais farei
Senão cantar o bafo que me aquece?
Como um prazer cansado que adormece
Ou preso conformado com a lei.
 
Mas neste débil canto há outra voz
Que tenta libertar-se da surdina,
Como rosa-cristal em funda mina
Ou promessa de pão que vem nas mós.
 
Outro sol mais aberto me dará
Aos acentos do canto outra harmonia,
E na sombra direi que se anuncia
A toalha de luz por onde vá.
 
 
José Saramago
(1922-2010)
 
 PAÍS DE AZULEJOS PARTIDOS


País de azulejos partidos
de erva trepando entre paredes em ruína
País entregue à sua sina
sem olhos e sem ouvidos

País voraz ruminando o almoço
rindo ou chorando incapaz de sorrir
País de corpo aberto a quem está a seguir
País do rastejar entre a pele e o osso

Pulinhos para trás e para a frente
de polegar na cava do colete
foguetes procissões uns copos de palhete
país da pequenez de si mesma contente

País indiferente aos que dão por ele a vida
País herói se não há perigo em sê-lo
País de velhos do Restelo
dado à mão-baixa perto e consentida

País que tudo quer e nada quer tudo suporta
País do faz como vires fazer
País do quero lá saber
do quem vier depois que feche a porta.



Mário Dionísio
(1916-1993)