quinta-feira, 23 de julho de 2015

DAS VIOLENTAS HUMIDADES


Das violentas humidades, dos

lugares onde se entrecruzam

resíduos de tormentas e soluços,

vem

esta pena arterial, esta memória

despedaçada.

Ainda enlouquecem

aquelas mães nas minhas veias.


Antonio Gamoneda
In "Ardem as Perdas"
Trad. de Jorge Melícias

quarta-feira, 22 de julho de 2015

 AMEI AS DESAPARIÇÕES


Amei as desaparições e agora o último rosto saiu de
mim.

Atravessei as cortinas brancas:

já só há luz dentro dos meus olhos.


Antonio Gamoneda
In "Livro do Frio"
Trad. de José Bento

segunda-feira, 20 de julho de 2015


O TERRORISTA OLHA


A bomba vai explodir no bar às treze e vinte.
São neste momento treze e dezasseis.
Alguns conseguem ainda entrar,
alguns sair.

O terrorista passou já para o outro lado da rua.
A esta distância ficará livre de perigo
e, quanto a vista, é como no cinema:

Uma mulher de casaco amarelo… entra.
Um homem de óculos escuros… sai.
Rapazes de jeans… conversam.
Treze horas, dezassete minutos e quatro segundos.
Aquele baixinho tem sorte e senta-se na vespa,
mais um tipo alto que entra.

Treze horas, dezassete minutos e quarenta segundos.
Passa uma moça de fita verde nos cabelos.
Só que o autocarro oculta-a.

Treze e dezoito.
A rapariga desapareceu.
Se foi bastante estúpida para entrar ou não,
isso se saberá pelas notícias.

Treze e dezanove.
Parece que ninguém entra.
Há porém um careca gordo que sai.
Mas olha, parece que procura algo nos bolsos,
faltam treze segundos para as treze e vinte,
e ele volta a entrar em busca das luvas que perdeu.

São treze e vinte.
Como o tempo voa.
Deve ser agora.
Ainda não.
Sim, é agora.
A bomba… explode.
 
Wislawa Szymborska
(1923-2012)
Trad. de Júlio Sousa Gomes
 


  OS AMIGOS
 
 
Amo devagar os amigos que são tristes com cinco dedos de cada lado.
Os amigos que enlouquecem e estão sentados, fechando os olhos,
com os livros atrás a arder para toda a eternidade.
Não os chamo, e eles voltam-se profundamente
dentro do fogo.
 ─ Temos  um talento doloroso e obscuro.
construímos um lugar de silêncio.
De paixão. 
 
 
Herberto Helder
(1930-2015)

domingo, 19 de julho de 2015

VI APENAS UMA VEZ


Vi apenas uma vez
um sol tão ensanguentado.
            E nunca mais
Descia funesto sobre o horizonte
e parecia
que alguém havia escancarado as portas do inferno.
Perguntei pelo observatório astronómico
e hoje sei o porquê.


O inferno, conhecemos: está em toda parte
e caminha sobre duas pernas.
            E o paraíso?
Talvez o paraíso nada mais seja
além de um sorriso
           por muito tempo esperado
e lábios
           que murmuram o nosso nome.
E aquele frágil instante fabuloso
quando depressa podemos esquecer-nos
do inferno.

Jaroslav Seifert
(1901-1986)
Trad. de Aleksandar Jovanovic.



NOCTURNO

Por onde quer que minha alma
navegue, ou ande, ou voe, tudo, tudo
é seu. Que tranquila
em toda a parte, sempre;
agora na alta proa
que em duas pratas abre o azul profundo,
descendo ao fundo ou subindo ao céu!

Oh, que serena a alma
quando se apoderou,
como rainha solitária e pura,
do seu império infindo!

Juan Ramón Jiménez
 In "Antologia Poética"
Trad. de José Bento



 HERANÇA



 Que rosa vermelha entre loureiros
há ressuscitado?
A pé, companheiros
que os mortos estão de pé ao nosso lado.

Roxos de fome, angústia, sede e morte
na solidão
Nada nos importe
senão a aurora que levamos no coração.

Que nos arranquem língua, veias, olhos, nervos
A pele que reste
Não é dos servos
o relâmpago espantoso que nos veste.


Papiniano Carlos
(1918-2012)
In "Caminhemos Serenos"