domingo, 19 de julho de 2015

 É UM HOMEM. VAI SÓ PELO CAMPO.


É um homem. Vai só  pelo campo.
Escuta o seu coração, como bate,
e, de repente, o homem detém-se
e põe-se a chorar sobre a terra.

Juventude da dor. Cresce a seiva
verde e amarga da primavera.

Para o ocaso vai. Um pássaro
triste canta entre os ramos negros.

Já o homem apenas chora. Intriga-se
com o sabor a morto da sua língua.


Antonio Gamoneda
In " Oração Fria"
Trad. de João Moita.
 POEMA


O grande vento da noite
entra, lento, nos trigais.

Deixa a tua mão na minha
que são as nossas núpcias.

Tomo-te porque a minha pena
tem a cor dos teus olhos;

porque o meu pão é moreno
como a tua carne.



Antonio Gamoneda
Trad. de João Moita
PROMETEU NA FRONTEIRA

I

Talvez passemos pelo mesmo tormento.
Um deus caído na dor vale tanto
quando a dor se esta supera o pranto
e se levanta contra o firmamento.

Um deus imóvel é um deus sedento
e a mim cobrem-me com o mesmo manto.
Eu tenho sede e o que levanto
é a impotência de levantamento.

Oh que dura, feroz é a fronteira
da beleza e da dor; nem um Deus
pode cruzá-la com seu corpo puro.

Ambos estamos de igual maneira
a ferro e sede da solidão; os dois
acorrentados contra o mesmo muro.

II

E este dom de morrer, esta potência
degoladora da dor, de onde
nos vem? Em que deus se esconde
esta forma sinistra de clemência?

Uma única divina descendência
a esta zona de sombra corresponde.
Se falas a um deus, quando responde,
vem a morte por correspondência.

Se não fosse cobarde, se, mais forte,
num raio pudesse pela boca
expulsar este medo da morte,

como este imortal acorrentado
seria puro na dor. Oh, rocha,
meu mundo de sede, mundo olvidado



Antonio Gamoneda
In "Oração Fria"
Trad. de João Moita.

sábado, 18 de julho de 2015

EXISTIAM TUAS MÃOS

Um dia o mundo ficou em silêncio;
as árvores, acima, eram profundas e majestosas,
e nós sentimos sob nossa pele
o movimento da terra.

Tuas mãos foram suaves nas minhas
E eu senti a gravidade e a luz
E que vivias em meu coração.

Tudo era verdade sob as árvores,
tudo era verdade. Eu compreendia
todas as coisas como se compreende
um fruto com a boca, uma luz com os olhos.


Antonio Gamoneda
Trad. de Thiago Ponces de Moraes.
 POEMA


Consistência de fogo
sitiado pelo pranto.

Aquilo que primeiro se ama
são os olhos: porque incendeiam
com a sua luz a existência
reunida, olhando-se.

Mas a luz é uma causa
mortal. Ferido de transparência,
o meu coração oculta-se
e recolhe-se à beleza.


Antonio Gamoneda
Trad. de Alberto Soares

quarta-feira, 15 de julho de 2015

  HÁ CIDADES ACESAS.

Há cidades acesas na distância,
Magnéticas e fundas como luas,
Descampados em flor e negras ruas
Cheias de exaltação e ressonância.

Há cidades cujo lume
Destrói a insegurança dos meus passos,
E o anjo do real abre os seus braços
Em nardos que me matam de perfume.

E eu tenho de partir para saber
Quem sou, para saber qual é o nome
Do profundo existir que me consome
Neste país de névoa e de não ser.



Sophia de Mello Breyner Andresen
(1919-2004)
A CADA VERSO NASÇO...


A cada verso nasço...
É cada verso o meu primeiro grito
à vida...

Depois,
se caminho apalpando e aos tombos, e se, aflito,
não atino e me perco até de mim
-é que os raios do Sol cegaram, despiedados,
meus olhos mal abertos, costumados
à escuridão do ventre de onde vim.

Sebastião da Gama
(1924-1952)
in "Serra-Mãe"
Edição de Junho de 1957.