quarta-feira, 8 de julho de 2015

     EPOPEIA


Não mais a África
da vida livre
e dos gritos agudos de azagaia!
Não mais a África
de rios tumultuosos

- veias entumecidas dum corpo de sangue!
Os brancos abriram clareiras
a tiros de carabina.
Nas clareiras fogos
roxeando a noite tropical
Fogos!
Milhões de fogos
num terreno em brasa!
Noite de grande lua
e um cântico subindo
do porão do navio.
O som das grilhetas
marcando o compasso!
Noite de grande lua
e destino ignorado!...
Foste o homem perdido
Em terras estranhas!...
No Brasil
ganhaste calo nas costas
nas vastas plantações do café!
No norte
foste o homem enrodilhado
nas vastas plantações de fumo!
Na calma do descanso nocturno
só saudade da terra
que ficou do outro lado...

- só canções bem soluçadas -

dum ritmo estranho!
Os homens do norte
ficaram rasgando
ventres e cavalos
aos homens do sul!
Os homens do norte
estavam cheios
dos ideais maiores
tão grandes
que tudo foi despropósito!...
Os homens do norte
os mais lúcidos e cheios de ideais
deram-te do que era teu
um pedaço para viveres...
Libéria! Libéria!
Ah!
Os homens nas ruas da Libéria
são dollars americanos
ritmicamente deslizando...
Quando cartas nos cabarés
Fazendo brilhar o marfim da tua boca
É a África que está chegando!
Quando nas Olimpíadas
Corres veloz
É a África que está chegando!
Segue em frente
irmão!
Que a tua música
seja o de uma conquista!
E que o teu ritmo
seja a cadência de uma via nova!
para que a tua gargalhada
de novo venha estralhaçar os ares
como gritos agudos e azagaia!


                                               Francisco José Tenreiro
                                               (1921-1963) 
PROMETEU

Abafai meus gritos com mordaças,
maior será a minha ânsia de gritá-los!

Amarrai meus pulsos com grilhões,
maior será minha ânsia de quebrá-los!

Rasgai a minha carne!
Triturai os meus ossos!

O meu sangue será a minha bandeira
e meus ossos o cimento duma outra humanidade.

Que aqui ninguém se entrega
- isto é vencer ou morrer -
é na vida que se perde
que há mais ânsia de viver!


Joaquim Namorado
(1914-1986)


NOSSA SENHORA DA APRESENTAÇÃO

O altar as vagas,
O dossel a espuma!
Missas rezadas pelo vento,
ora pelos fiéis defuntos que se foram
noutras vagas,
ora pelas barcaças que, uma a uma,
buscaram as sereias na distância
e se foram com elas.
Sobre o altar, entre círios, que não são
Os círios murchos das igrejas velhas
Mas os lumes das estrelas,
ELA,
Nossa Senhora da Apresentação.
aquela
que não tem mantos da cor do céu,
nem fios de oiro nos cabelos,
nem anéis nos dedos;
aquela
que não traz um menino nos seus braços
porque os seios mirraram
e já não têm pão para lhe dar;
aquela
que tem o corpo negro e sujo
e os ossos a saltar
da pele
e dos rasgões da saia e do corpete;
Nossa Senhora da Apresentação
da Beira-Mar,
que tem capelas
em cada peito de marinheiro,
que morre e, num instante,
se renova
e que anda
quer nos engaços do sargaceiro
ou nas gamelas do pilado
e palhabotes da Terra Nova.
Aquela
a quem todos adoram.
Dos meninos
feitos no intervalo das campanhas
aos bichanos que limpam de cabeças,
e tripas de pescado
as muralhas do cais.

O dossel a espuma.
O altar as vagas
─ e que altar enorme! ─
Entre círios de estrelas,
Nossa Senhora da Apresentação
e Justificação
─ a Fome!

Álvaro Feijó
(1916-1941)

domingo, 5 de julho de 2015

NAVEGA


Navega, descobre tesouros,
mas não os tires do fundo do mar,
o lugar deles é lá.
Admira a Lua,
sonha com ela,
mas não queiras trazê-la para Terra.
Goza a luz do Sol,
deixa-te acariciar por ele.
O calor é para todos.
Sonha com as estrelas,
apenas sonha,
elas só podem brilhar no céu.
Não tentes deter o vento,
ele precisa correr por toda a parte,
ele tem pressa de chegar sabe-se lá onde.
As lágrimas?
Não as seques,
elas precisam correr na minha, na tua, em todas as faces.
O sorriso!
Esse deves segurar,
não o deixes ir embora, agarra-o!
Quem amas?
Guarda dentro de um porta jóias, tranca, perde a chave!
Quem amas é a maior jóia que possuis, a mais valiosa.
Não importa se a estação do ano muda,
se o século vira, conserva a vontade de viver,
não se chega a parte alguma sem ela.
Abre todas as janelas que encontrares e as portas também.
Persegue o sonho, mas não o deixes viver sozinho.
Alimenta a tua alma com amor, cura as tuas feridas com carinho.
Descobre-te todos os dias,
deixa-te levar pelas tuas vontades,
mas não enlouqueças por elas.
Procura!
Procura sempre o fim de uma história,
seja ela qual for.
Dá um sorriso àqueles que esqueceram como se faz isso.
Olha para o lado, há alguém que precisa de ti.
Abastece o teu coração de fé, não a percas nunca.
Mergulha de cabeça nos teus desejos e satisfá-los.
Agoniza de dor por um amigo,
só sairás dessa agonia se conseguires tirá-lo também.
Procura os teus caminhos, mas não magoes ninguém nessa procura.
Arrepende-te, volta atrás,
pede perdão!
Não te acostumes com o que não te faz feliz,
revolta-te quando julgares necessário.
Enche o teu coração de esperança, mas não deixes que ele se afogue nela.
Se achares que precisas de voltar atrás, volta!
Se perceberes que precisas seguir, segue!
Se estiver tudo errado, começa novamente.
Se estiver tudo certo, continua.
Se sentires saudades, mata-as.
Se perderes um amor, não te percas!
Se o achares, segura-o!
Circunda-te de rosas, ama, bebe e cala.
"O mais é nada".


Fernando Pessoa
(1888-1935)
AQUELA SENHORA TEM UM PIANO.


Aquela Senhora tem um piano
Que é agradável mas não é o correr dos rios
Nem o murmúrio que as árvores fazem.

Para que é preciso ter um piano?
O melhor é ter ouvidos
E amar a natureza.


Alberto Caeiro / Fernando Pessoa
(1888-1935)

sábado, 4 de julho de 2015

 UMA GENTE



Uma gente em fuga de outra gente,
num país debaixo do sol
e de algumas nuvens.

Deixam para trás um tal seu tudo,
campos semeados, umas galinhas, cães,
espelhos, justamente nos quais o fogo se mira.

Levam às costas os cântaros e as trouxas,
quanto mais vazios mais pesados com o passar dos dias.

É em silêncio que alguém desfalece,
é na algazarra que alguém arranca o pão de alguém
e alguém sacode o filho morto.

Nunca é pela estrada que têm à frente,
nem é esta ponte
sob a qual passa um rio estranhamente avermelhado.
Em redor, disparos, ora longínquos ora próximos,
no alto, um avião errante rodopia.

Oportuna seria a invisibilidade,
uma parda rochosidade,
ou melhor a inexistência
durante um pouquinho ou por mais tempo.

Mais ainda está por acontecer, apenas onde eo quê.
 Alguém lhes sairá ao caminho, apenas quando e quem-
 de que forma e com que intenções.
Se puder escolher,
talvez não queira ser inimigo
e os deixe com alguma vida.

Wislawa Szymborska
(1923-2012) 
In "Instante"
 (Trad. Elzbieta Milewska e Sérgio das Neves)

PERFILADOS DE MEDO


Perfilados de medo, agradecemos
o medo que nos salva da loucura.
Decisão e coragem valem menos
e a vida sem viver é mais segura.

Aventureiros já sem aventura,
perfilados de medo combatemos
irónicos fantasmas à procura
do que não fomos, do que não seremos.

Perfilados de medo, sem mais voz,
o coração nos dentes oprimido,
os loucos, os fantasmas somos nós.

Rebanho pelo medo perseguido,
já vivemos tão juntos e tão sós
que da vida perdemos o sentido...

Alexandre O'Neill
(1924-1986)