domingo, 16 de novembro de 2014

O DURO PÃO.


A insónia beber-me até à gota última.
Debandar pelos campos, de par em par os braços.
Conhecer de que angústia me chegam meus poemas.
Arrancar-me o vestido com mágoa mas sem lágrimas.
Morder o duro pão do egoísmo alheio.
Afogar-me no tumulto que por dentro me invade.
Evadir-me do teatro que me dão dia a dia.
O desdém prender em mim com um colar de geada.
Cravar agulhas rombas na minha pregadeira.
Esgarçar os instantes em que a fronte me pesa.
Lentamente afundar-me com este peso imposto.

Aguardar o momento em que rebente o fel.

María Victoria Atencia
(N: 1931)
(Trad. de José Bento)


PONTO DE ORVALHO


Nem se chega a saber como
um inusitado sorriso,
um volver de olhos doentes,
um caminhar indeciso
e cego por entre as gentes,
chamam a si, aglutinam,
essa dor que anda suspensa
(e é dor de toda a maneira)
como o vapor se condensa
sobre núcleos de poeira.
É essa angústia latente
boiando no ar parado
como um trovão iminente,
que em muda voz se pressente
num simples olhar trocado.
Essa angústia universal,
esse humano desespero,
revela-se num sinal,
numa ferida natural
que rói com lento exagero.
Não deita sangue nem pus,
não se mede nem se pesa,
não diz, não chora, não reza,
não se explica nem traduz.
A gente chega, respira,
olha, sorri, cumprimenta,
fala do frio que apoquenta
ou do suor que transpira,
e pronto, sem saber como,
inútil, seco, vazio,
cai na penumbra do rio,
emerge, bóia, soçobra,
fácil e desinteressado
como um papel que se dobra
por onde já foi dobrado.



António Gedeão
(1906-1997)

sábado, 15 de novembro de 2014

NÃO FIZ NADA, BEM SEI, NEM O FAREI


Não fiz nada, bem sei, nem o farei,
Mas de não fazer nada isto tirei,
Que fazer tudo e nada é tudo o mesmo,
Quem sou é o espectro do que não serei.


Vivemos aos encontros do abandono
Sem verdade, sem dúvida nem dono.
Boa é a vida, mas melhor é o vinho.
O amor é bom, mas é melhor o sono.


Fernando Pessoa
(1888.1935)

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

CÂNTICO.


Mundo à
nossa medida
Redondo como os olhos,
E como eles, também,
A receber de fora
A luz e a sombra, consoante a hora


Mundo apenas pretexto
Doutros mundos.
Base de onde levanta
A inquietação,
Cansada da uniforme rotação
Do dia a dia.
Mundo que a fantasia
Desfigura
A vê-lo cada vez de mais altura.

Mundo do mesmo barro
De que somos feitos.
Carne da nossa carne
Apodrecida.
Mundo que o tempo gasta e arrefece,
Mas o único jardim que se conhece
Onde floresce a vida.


Miguel TORGA
(1907-1995)
ESTOU PERDIDO


Profeta de meus fins não duvidava
do mundo que pintou minha fantasia
nos enormes desertos invisíveis.

Reconcentrado e penetrante, só,
mudo, predestinado, esclarecido,
meu profundo isolamento e fundo centro,
meu sonho errante e solidão submersa,
dilatavam-se pelo inexistente,
até que vacilei, até que a dúvida
por dentro escureceu minha cegueira.

Um tacto escuro entre o meu ser e o mundo,
entre as duas trevas, definia
uma ignorada juventude ardente.
Encontra-me na noite. Estou perdido.


Manuel Altolaguirre
(1905-1959)
Tradução: José BENTO

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

VELHO TEMA, A SAUDADE


Quem não a canta? Quem? Quem não a canta e sente?
-Chama que já passou mas que assim mesmo é chama…
A Saudade, eu a sinto infinda, confidente.
Que de longe me acena e me fascina e chama…


Mágoa de todo o mundo e que tem toda gente:
Uns sorrisos de mãe… uns sorrisos de dama…
Um segredo de amor que se desfaz e mente…
Quem não os teve? Quem? Quem não os teve e os ama?

Olhos postos ao léu, altívagos, à toa,
Quantas vezes tu mesmo, a cismar, de repente
Te ficaste gozando uma saudade boa?

Se vês que em teu passado uma saudade adeja,
-Faze que uma saudade a ti seja o presente!
-Faze que tua morte uma saudade seja!

Jorge de LIMA
(1895-1953)

terça-feira, 11 de novembro de 2014

QUANDO FICAS SOZINHO.


Quando ficas sozinho, és espelho
do que foste:
uma manhã
contemplada da janela encostada
da varanda; alguns passos
harmoniosos que não seguiste
para não derramar teu gozo;
umas quantas palavras
que te modificaram mais que o tempo;
um olhar que se afogou
como luz em tuas veias;
uma viagem que não querias
terminar nunca; tua alma ausente
do que te esperava
ao ficares tão sozinho.

Ángel Crespo


(1926-1995)
Tradução: José Bento