sábado, 15 de novembro de 2014

NÃO FIZ NADA, BEM SEI, NEM O FAREI


Não fiz nada, bem sei, nem o farei,
Mas de não fazer nada isto tirei,
Que fazer tudo e nada é tudo o mesmo,
Quem sou é o espectro do que não serei.


Vivemos aos encontros do abandono
Sem verdade, sem dúvida nem dono.
Boa é a vida, mas melhor é o vinho.
O amor é bom, mas é melhor o sono.


Fernando Pessoa
(1888.1935)

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

CÂNTICO.


Mundo à
nossa medida
Redondo como os olhos,
E como eles, também,
A receber de fora
A luz e a sombra, consoante a hora


Mundo apenas pretexto
Doutros mundos.
Base de onde levanta
A inquietação,
Cansada da uniforme rotação
Do dia a dia.
Mundo que a fantasia
Desfigura
A vê-lo cada vez de mais altura.

Mundo do mesmo barro
De que somos feitos.
Carne da nossa carne
Apodrecida.
Mundo que o tempo gasta e arrefece,
Mas o único jardim que se conhece
Onde floresce a vida.


Miguel TORGA
(1907-1995)
ESTOU PERDIDO


Profeta de meus fins não duvidava
do mundo que pintou minha fantasia
nos enormes desertos invisíveis.

Reconcentrado e penetrante, só,
mudo, predestinado, esclarecido,
meu profundo isolamento e fundo centro,
meu sonho errante e solidão submersa,
dilatavam-se pelo inexistente,
até que vacilei, até que a dúvida
por dentro escureceu minha cegueira.

Um tacto escuro entre o meu ser e o mundo,
entre as duas trevas, definia
uma ignorada juventude ardente.
Encontra-me na noite. Estou perdido.


Manuel Altolaguirre
(1905-1959)
Tradução: José BENTO

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

VELHO TEMA, A SAUDADE


Quem não a canta? Quem? Quem não a canta e sente?
-Chama que já passou mas que assim mesmo é chama…
A Saudade, eu a sinto infinda, confidente.
Que de longe me acena e me fascina e chama…


Mágoa de todo o mundo e que tem toda gente:
Uns sorrisos de mãe… uns sorrisos de dama…
Um segredo de amor que se desfaz e mente…
Quem não os teve? Quem? Quem não os teve e os ama?

Olhos postos ao léu, altívagos, à toa,
Quantas vezes tu mesmo, a cismar, de repente
Te ficaste gozando uma saudade boa?

Se vês que em teu passado uma saudade adeja,
-Faze que uma saudade a ti seja o presente!
-Faze que tua morte uma saudade seja!

Jorge de LIMA
(1895-1953)

terça-feira, 11 de novembro de 2014

QUANDO FICAS SOZINHO.


Quando ficas sozinho, és espelho
do que foste:
uma manhã
contemplada da janela encostada
da varanda; alguns passos
harmoniosos que não seguiste
para não derramar teu gozo;
umas quantas palavras
que te modificaram mais que o tempo;
um olhar que se afogou
como luz em tuas veias;
uma viagem que não querias
terminar nunca; tua alma ausente
do que te esperava
ao ficares tão sozinho.

Ángel Crespo


(1926-1995)
Tradução: José Bento

segunda-feira, 10 de novembro de 2014


    POEMA DE AMOR.


    Os segredos do amor têm profundezas difíceis de alcançar,
    tal como a chuva que hoje cai e nos molha na calçada a face,
    nós olhando triste uma saudade imensa
    num corpo de mulher metamorfoseada.


    Sou demasiado são para me esquecer
    do tempo apaixonado que vivi nos teus braços
    e bebo no teu um coração meu
    adormecido no mar do meu cansaço
    ou no rio das minhas secas lágrimas.

    Tardará muito, se é que as horas contam,
    ver-te, de novo, perto de mim, longe,
    mas eu espero, sou paciente e, no meu canhenho, aponto,
    um dia a menos, o da tua chegada.
    E assim me fico, rente ao horizonte,
    abrigado da chuva numa cabine telefónica,
    e ligo para ti - que número? - ninguém responde
    do oceano que avança e retrai colinas,
    o vulto de um navio, tu na amurada
    acenando um lenço, ó minha pomba branca!...

    Como se tempestade houvesse e um naufrágio de chuva
    - as vidraças escorrem, as árvores liquefazem-se... -
    escurecendo os teus cabelos,
    ou, se preferes, a minha boca neles
    carregada de ilhas, de nocturnos perfumes
    que ateiam lumes, ó minha idolatrada,
    na minh'alma inquieta um outro bater d'asas
    ou num jardim um leito de flores!...

    Ruy Cinatti
    (1915-1986)

sábado, 8 de novembro de 2014

CONVITE

Nesta fase em que só o amor me interessa
o amor de quem quer que seja
do que quer que seja
o amor de um pequeno objecto
o amor dos teus olhos
o amor da liberdade


o estar à janela amando o trajecto voado
das pombas na tarde calma

nesta fase em que o amor é a música de rádio
que atravessa os quintais
e a criança que corre para casa
com um pão debaixo do braço

nesta fase em que o amor é não ler os jornais

podes vir podes vir em qualquer caravela
ou numa nuvem ou a pé pelas ruas
- aqui está uma janela acolá voam pombas -

podes vir e sentar-te e falar com as pálpebras
pôr a mão sob o rosto e encher-te de luz

porque o amor meu amor é este equilíbrio
esta serenidade de coração e árvores


Egito GONÇALVES
(1920-2001)