quinta-feira, 13 de novembro de 2014

ESTOU PERDIDO


Profeta de meus fins não duvidava
do mundo que pintou minha fantasia
nos enormes desertos invisíveis.

Reconcentrado e penetrante, só,
mudo, predestinado, esclarecido,
meu profundo isolamento e fundo centro,
meu sonho errante e solidão submersa,
dilatavam-se pelo inexistente,
até que vacilei, até que a dúvida
por dentro escureceu minha cegueira.

Um tacto escuro entre o meu ser e o mundo,
entre as duas trevas, definia
uma ignorada juventude ardente.
Encontra-me na noite. Estou perdido.


Manuel Altolaguirre
(1905-1959)
Tradução: José BENTO

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

VELHO TEMA, A SAUDADE


Quem não a canta? Quem? Quem não a canta e sente?
-Chama que já passou mas que assim mesmo é chama…
A Saudade, eu a sinto infinda, confidente.
Que de longe me acena e me fascina e chama…


Mágoa de todo o mundo e que tem toda gente:
Uns sorrisos de mãe… uns sorrisos de dama…
Um segredo de amor que se desfaz e mente…
Quem não os teve? Quem? Quem não os teve e os ama?

Olhos postos ao léu, altívagos, à toa,
Quantas vezes tu mesmo, a cismar, de repente
Te ficaste gozando uma saudade boa?

Se vês que em teu passado uma saudade adeja,
-Faze que uma saudade a ti seja o presente!
-Faze que tua morte uma saudade seja!

Jorge de LIMA
(1895-1953)

terça-feira, 11 de novembro de 2014

QUANDO FICAS SOZINHO.


Quando ficas sozinho, és espelho
do que foste:
uma manhã
contemplada da janela encostada
da varanda; alguns passos
harmoniosos que não seguiste
para não derramar teu gozo;
umas quantas palavras
que te modificaram mais que o tempo;
um olhar que se afogou
como luz em tuas veias;
uma viagem que não querias
terminar nunca; tua alma ausente
do que te esperava
ao ficares tão sozinho.

Ángel Crespo


(1926-1995)
Tradução: José Bento

segunda-feira, 10 de novembro de 2014


    POEMA DE AMOR.


    Os segredos do amor têm profundezas difíceis de alcançar,
    tal como a chuva que hoje cai e nos molha na calçada a face,
    nós olhando triste uma saudade imensa
    num corpo de mulher metamorfoseada.


    Sou demasiado são para me esquecer
    do tempo apaixonado que vivi nos teus braços
    e bebo no teu um coração meu
    adormecido no mar do meu cansaço
    ou no rio das minhas secas lágrimas.

    Tardará muito, se é que as horas contam,
    ver-te, de novo, perto de mim, longe,
    mas eu espero, sou paciente e, no meu canhenho, aponto,
    um dia a menos, o da tua chegada.
    E assim me fico, rente ao horizonte,
    abrigado da chuva numa cabine telefónica,
    e ligo para ti - que número? - ninguém responde
    do oceano que avança e retrai colinas,
    o vulto de um navio, tu na amurada
    acenando um lenço, ó minha pomba branca!...

    Como se tempestade houvesse e um naufrágio de chuva
    - as vidraças escorrem, as árvores liquefazem-se... -
    escurecendo os teus cabelos,
    ou, se preferes, a minha boca neles
    carregada de ilhas, de nocturnos perfumes
    que ateiam lumes, ó minha idolatrada,
    na minh'alma inquieta um outro bater d'asas
    ou num jardim um leito de flores!...

    Ruy Cinatti
    (1915-1986)

sábado, 8 de novembro de 2014

CONVITE

Nesta fase em que só o amor me interessa
o amor de quem quer que seja
do que quer que seja
o amor de um pequeno objecto
o amor dos teus olhos
o amor da liberdade


o estar à janela amando o trajecto voado
das pombas na tarde calma

nesta fase em que o amor é a música de rádio
que atravessa os quintais
e a criança que corre para casa
com um pão debaixo do braço

nesta fase em que o amor é não ler os jornais

podes vir podes vir em qualquer caravela
ou numa nuvem ou a pé pelas ruas
- aqui está uma janela acolá voam pombas -

podes vir e sentar-te e falar com as pálpebras
pôr a mão sob o rosto e encher-te de luz

porque o amor meu amor é este equilíbrio
esta serenidade de coração e árvores


Egito GONÇALVES
(1920-2001)
CORPO DE ESPERANÇA.


Neste curto espaço entre nós e a morte
tão mal gastamos nossa longa despedida!

Tu, amor de quem não sei o nome
de onde não sei a sorte,
vais passar além deste poema que era teu
e assim, de morte construída,
teus passos vão enchendo a minha vida.

Outro nome será flor sobre os teus lábios,
e outros dedos tocarão a límpida frescura
dos teus ombros quase d'água
e saberão de cor o horizonte branco do teu corpo...

E assim iremos de olhos futuros,
tu, envelhecendo da minha ausência,
eu, a erguer-te na curva da esperança,
e outra mão desmanchar a tua trança
e hei-de beijar teu rosto onde não eras
e serão só o que há antes das horas mais tristes
e será tarde até saber que não existes.

Neste curto espaço entre nós e a morte,
onde me vais perdendo,
onde te vou buscando,
nosso amor se vai embora alimentando
de despedida;

não porque morra o tempo em teus braços,
mas a vida.

Vítor Matos e Sá
(1926-1975)
In "Horizonte dos Dias"
(1952)
TRISTEZA BRANDA.


Num dia destes de tristeza mansa
cansado já de tanto experimentar
eu que só ainda me não matei
talvez gostasse de me matar
Mas se porventura me desse mal
que ao menos fosse lícito voltar
Ver os amigos e os inimigos
e pelas ruas outra vez passear
Mas agora que cantei da tristeza
não observo já os mais leves traços
e a minha maneira de me matar
é deixar cair ambos os braços.



Ruy Belo
(1933-1978)