sábado, 8 de novembro de 2014

TRISTEZA BRANDA.


Num dia destes de tristeza mansa
cansado já de tanto experimentar
eu que só ainda me não matei
talvez gostasse de me matar
Mas se porventura me desse mal
que ao menos fosse lícito voltar
Ver os amigos e os inimigos
e pelas ruas outra vez passear
Mas agora que cantei da tristeza
não observo já os mais leves traços
e a minha maneira de me matar
é deixar cair ambos os braços.



Ruy Belo
(1933-1978)

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

DÁVIDA


Lá muito ao fundo
daquela estrada
uma luz cintila.
Será a vida?
A meio da noite
escura que existe
dentro de nós mesmos,
uma luz cintila.
Densa névoa envolve
minha sombra indecisa:
mas, pura, lá surge
a luz que cintila.
Tudo a vida nega
à sede antiga e ardente.
Só não se apaga nunca
a pequenina estrela.



Luís AMARO

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

MAS QUE SEI EU.


Mas que sei eu das folhas no outono
ao vento vorazmente arremessadas
quando eu passo pelas madrugadas
tal como passaria qualquer dono?


Eu sei que é vão o vento e lento o sono
e acabam coisas mal principiadas
no ínvio precipício das geadas
que pressinto no meu fundo abandono

Nenhum súbito súbdito lamenta
a dor de assim passar que me atormenta
e me ergue no ar como outra folha

qualquer. Mas eu que sei destas manhãs?
As coisas vêm vão e são tão vãs
como este olhar que ignoro que me olha


Ruy BELO
(1933-1978)
EXAUSTO


Eu quero uma licença de dormir,
perdão pra descansar horas a fio,
sem ao menos sonhar
a leve palha de um pequeno sonho.
Quero o que antes da vida
foi o sono profundo das espécies,
a graça de um estado.
Semente.
Muito mais que raízes.


 Adélia Prado

terça-feira, 4 de novembro de 2014

NOITE ABERTA


Bem-vinda a noite para quem vai seguro
e com os olhos claros olha sereno o campo,
e com a vida limpa olha com paz o céu,
sua cidade e sua casa, sua família e sua obra.


Mas de quem vacilante anda e vê sombra, vê o duro
cenho do céu e vive o castigo de sua terra
e a malevolência de seus seres queridos,
inimiga é a noite e sua piedade acosso.

E ainda mais neste páramo da tão alta Rioja,
onde se abre com tal claridade que deslumbra,
tão próxima palpita que muito assombra, e muito
penetra na alma, fundamente a perturba.

Porque a noite sempre, como o fogo, revela,
melhora, pule o tempo, a oração e o soluço,
dá pureza ao pecado, limpidez à lembrança,
castigando e salvando toda uma vida inteira.

Bem-vinda a noite com seu belo perigo.


Claudio Rodríguez

(1934-1999)
Tradução: José Bento
ESPERA SEMPRE.


Entre os anos, a morte espera sempre,
qual uma árvore secreta que sombreia,
de súbito, a brancura de um carreiro,
e vamos caminhando e surpreende-nos.


Então, na orla da sua sombra,
um tremor misterioso nos detém:
olhamos para o alto, e nossos olhos
rebrilham, como a lua, estranhamente.

Como a lua, na noite penetramos,
sem saber onde vamos, e a morte
em nós vai crescendo, sem remédio,
com um doce terror de fria neve.

A carne decompõe-se na tristeza
de terra sem claridade que a sustém.
Ficam somente os olhos que interrogam
entre a noite total e nunca morrem.


José Luis Hidalgo
(1919-1947)
Tradução: José Bento

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

REGRESSO.


Quanto mais longe vou, mais perto fico
De ti, berço infeliz onde nasci.
Tudo o que tenho, o tenho aqui
Plantado.
O coração e os pés, e as horas que vivi,
Ainda não sei se livre ou condenado.

Miguel Torga
(1907-1995)