segunda-feira, 3 de novembro de 2014

O DESEJO ERA UM PONTO IMÓVEL


Os corpos ficavam do lado solitário do amor
como se um ao outro se negassem sem negar o desejo
e nessa negação um nó mais forte que eles mesmos
os unisse indefinidamente.

Que sabiam os olhos e as mãos,
que sabia a pele, que retinha um corpo
da respiração do outro, quem fazia nascer
aquela lenta luz imóvel
como única forma do desejo?

José Ángel Valente
(1929-2000)
Trad. de José Bento.



  CONSINTO

Devo morrer. E, contudo, nada
morre, porque nada
tem fé suficiente
para poder morrer.

Não morre o dia,
passa;
nem uma rosa,
apaga-se;
resvala o sol,
não morre.

Somente eu, que toquei
o sol, a rosa, o dia,
e acreditei,
sou capaz de morrer.

José Ángel Valente
(1929-2000)
Trad. de José Bento)
"O mal de quem apaga as estrelas é não se lembrar de que não é com candeias que se ilumina a vida."
 Miguel Torga.
(1907-1995)
   Diário (1948)

domingo, 2 de novembro de 2014

A FAMA É UMA ABELHA.


A fama é uma abelha.
Tem uma canção -
Tem um ferrão -
Ah, tem asa, também.

Emily Dickinson
(1830-1886)
In "Cem Poemas"
Trad. de Ana Luísa Amaral.

DEVE HAVER UM LUGAR...


Deve haver um lugar onde um braço
e outro braço sejam mais que dois braços,
um ardor de folhas mordidas pela chuva,
a manhã perto nem que seja de rastos.


Eugénio de Andrade
(1923-2005)
DEVE CHAMAR-SE TRISTEZA


Deve chamar-se tristeza
Isto que não sei que seja
Que me inquieta sem surpresa,
Saudade que não deseja.


Sim, tristeza — mas aquela
Que nasce de conhecer
Que ao longe está uma estrela
E ao perto está não a ter.

Seja o que for, é o que tenho.
Tudo mais é tudo só.
E eu deixo ir o pó que apanho
De entre as mãos ricas de pó.


Fernando PESSOA
(1888-1935)
PRESERVAÇÃO.


Chama-se liberdade o bem que sentes,
Águia que pairas sobre as serranias;
Chamam-se tiranias
Os acenos que o mundo
Cá de baixo te faz;
Não desças do teu céu de solidão,
Pomba da verdadeira paz,
Imagem de nenhuma servidão!



Miguel Torga
(1907-1995)