domingo, 19 de outubro de 2014

 

 SIM, SOU EU, EU MESMO...

 

Sim, sou eu, eu mesmo, tal qual resultei de tudo,
Espécie de acessório ou sobresselente próprio,
Arredores irregulares da minha emoção sincera,
Sou eu aqui em mim, sou eu.

Quanto fui, quanto não fui, tudo isso sou.
Quanto quis, quanto não quis, tudo isso me forma.
Quanto amei ou deixei de amar é a mesma saudade em mim.

E ao mesmo tempo, a impressão, um pouco inconsequente,
Como de um sonho formado sobre realidades mistas,
De me ter deixado, a mim, num banco de carro eléctrico,
Para ser encontrado pelo acaso de quem se lhe ir sentar em cima.

E, ao mesmo tempo, a impressão, um pouco longínqua,
Como de um sonho que se quer lembrar na penumbra a que se acorda,
De haver melhor em mim do que eu.

Sim, ao mesmo tempo, a impressão, um pouco dolorosa,
Como de um acordar sem sonhos para um dia de muitos credores,
De haver falhado tudo como tropeçar no capacho,
De haver embrulhado tudo como a mala sem as escovas,
De haver substituído qualquer coisa a mim algures na vida.

Baste! É a impressão um tanto ou quanto metafísica,
Como o sol pela última vez sobre a janela da casa a abandonar,
De que mais vale ser criança que querer compreender o mundo —
A impressão de pão com manteiga e brinquedos,
De um grande sossego sem Jardins de Prosérpina,
De uma boa vontade para com a vida encostada de testa à janela,
Num ver chover com som lá fora
E não as lágrimas mortas de custar a engolir.

Baste, sim baste! Sou eu mesmo, o trocado,
O emissário sem carta nem credenciais,
O palhaço sem riso, o bobo com o grande fato de outro,
A quem tinem as campainhas da cabeça
Como chocalhos pequenos de uma servidão em cima.

Sou eu mesmo, a charada sincopada
Que ninguém da roda decifra nos serões de província.

Sou eu mesmo, que remédio!...

Álvaro de Campos
(1888-1935)
(6/8/1931)

EIS O QUE ME DISSERAM.


Os campos dão pedras, as vinhas estiolam,
as aldeias dão párias emigrando em porões.


Não deixes para amanhã o que podes fazer hoje;
não deixes para amanhã o quebrar do silêncio,
meter a foice no trigo sazonado,
carregar no botão, soltar a tempestade.


Quebra a solidão com o sol matinal
que aponta a claridade sobre as frondes.


As cidades dão fumo, queimam a amizade,
esmagam a consciência, distribuem o crepúsculo.


Um pequeno descuido, nova fuga de tempo,
o espelho transforma-te em velhice - perderás a vida,
pálido, encolhido, no fundo das caves.


É mais tarde do que pensas!
É difícil agora deste fruto ácido
conseguir raízes, flores e perfume.


Não deixes para amanhã o grito necessário,
o enforcamento sumário do agente opressor,
o tributo para a máquina de alargar horizontes...


Eis o que me disseram!


Egito Gonçalves
(1920-2001)
AMOR PERFEITO.

Perfeito?
Não existe.


Nem mesmo num canteiro
de jardim.


Porque a flor,
de veludo suave, lindo e triste,
multicor,
não tem cheiro.


Salvo em mim
- perfume que salvei, quando partiste,
e devolvo num verso ao mundo inteiro.


António Luís Moita
(N: 1925)

sábado, 18 de outubro de 2014



AS ESPÉCIES DE MORTOS


Há aqueles que morrem
com muitas espadas
no sangue coalhado

 
Há aqueles na cama
que morrem no corpo
consigo deitado


Há aqueles que morrem
com cavalo e sela
e fato completo


Há aqueles de amor
que morrem de tiro
com o coração


Há aqueles que morrem
por já ter caixão
e ser a idade


Há aqueles de luto
que morrem também
como o defunto


Há aqueles que morrem
com navalha certa
por causa do gume


Há aqueles de armas
que morrem em fila
organizados


Há aqueles que morrem
por não terem cura
e têm parentes


Há aqueles doentes
que morrem no fim
e depois há missa


Há aqueles que morrem
com a mesma morte
e a vida pior


Há aqueles de fome
que por isso morrem
e nem trazem vida


Há aqueles homens
que não têm vida
e morrem pior


Fiama Hasse Pais Brandão
(1938-2007)
In "Barcas Novas)
(1967)
O MEDO


Surgiu
Por detrás
Da nuvem escura
Que tapou a lua.
Escorregou
Sobre a planície,
Negro,
Envolto
Em longas chamas.
Era meu.
Pertencia-me.
Era o medo.



Maria Amélia Neto
(N: 1928)
In "O Vento e a Sombra"
(1960)

 ASCENSÃO



Beijava-te como se sobe uma escadaria:
pedra a pedra, do luminoso para o obscuro,
do mais visível para o mais recôndito
- até que os lábios fossem
não o ardor da sede, nem sequer a magia
da subida,
mas o tremor que é pétala do êxtase,
o lento desprender do sol do corpo
com o feliz quebranto dos meus dedos.



João Rui de Sousa
(N: 1928)
In " Obstinação do Corpo"

ÚLTIMO POEMA DO AMOR AUSENTE.



Todo o corpo lhes dói de acertar os relógios
De momento a momento às vantagens do tempo
Meu amor meu amor tem por vezes o gosto
Do veneno sorvido ao desabar das pontes



A mais frágil aragem os confunde
O espaço aberto enreda-lhes os passos
O convívio da vida esboroa as palavras
A liberdade é um peso enorme nos seus ombros


«Tudo quanto perdi na violência do tempo
Veio hoje até mim como o espinho da flor
Como o operário morto entre o ferro e o cimento
Da construção do amor


Foi um lento e incógnito perfume
Foi um lago sem margens intransposto
Foi uma pedra vermelha de lume
O mais belo sorrir de desgosto»


VASCO COSTA MARQUES
(1928-2006)
In "Poesia dos Dias Úteis)
(1956)