domingo, 5 de outubro de 2014

SE O OUTONO.


Se o Outono
fosse o cheiro de frutos
na memória

e os frutos
a calma dos sentidos

o nosso rosto com luz
ou neon
pelos cabelos
seria um retrato de mágoa
olhando o chão

António Reis
(1927-1991)
In "Poemas Quotidianos"
(1967)

sábado, 4 de outubro de 2014

Mercê

A todos chamarás amigo, irmão
Menos a quem estenderes a tua mão.

"Terás o mundo todo: terra e mar,
Menos a parte onde quiseres ficar.

Os frutos poderás colher, comer,
Menos aquele que te apetecer.

E haverá sonhos p´ra sonhar, fugir;
Porém nunca ninguém te deixará dormir.

Não terás nem divisas, nem bandeiras,
Mas hão-de rodear-te de fronteiras."

António Manuel Couto Viana
(1923-2010)
In "No Sossego da Hora)
(1949)

 
ENTRONIZAÇÃO


Tenho o braço cansado,
A mão dorida, trôpega...
Mas uma espécie de ânsia sôfrega
Ordena:
Empurrar tudo!
- Não quero, nem passado,
 Nem presente,
Nem futuro!-

O braço faz de muro,
A mão abre  caminho, coerente...

Quero uma estrada cá dentro...lisa, plana,
Para a tua palavra mágica, profética,
Bela e magnética,
Passear livremente,
E demoradamente!...


Leonor de Almeida
(N. 1915)
In " Caminhos Frios"
(1947)

SE HOUVESSE DEGRAUS NA TERRA.


Se houvesse degraus na terra e tivesse anéis o céu,
eu subiria os degraus e aos anéis me prenderia.
No céu podia tecer uma nuvem toda negra.
E que nevasse, e chovesse, e houvesse luz nas montanhas,
e à porta do meu amor o ouro se acumulasse.

 
Beijei uma boca vermelha e a minha boca tingiu-se,
levei um lenço à boca e o lenço fez-se vermelho.
Fui lavá-lo na ribeira e a água tornou-se rubra,
e a fímbria do mar, e o meio do mar,
e vermelhas se volveram as asas da águia
que desceu para beber,
e metade do sol e a lua inteira se tornaram vermelhas.

Maldito seja quem atirou uma maçã para o outro mundo.
Uma maçã, uma mantilha de ouro e uma espada de prata.
Correram os rapazes à procura da espada,
e as raparigas correram à procura da mantilha,
e correram, correram as crianças à procura da maçã.

Herberto Helder

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

FUGA


Numa nuvem de esquecimento
passar a vida,
sem mágoas, sem um lamento,
água correndo, impelida
pelo vento.

Ouvir a música do instante que passa
e recolhê-la no coração,
olhos fechados à dor e à desgraça,
os ouvidos atentos à canção
do instante que passa.
Beber a luz doirada que irradia
dos vastos horizontes,
e ver escoar-se o dia
entre pinhais e montes...
Doce melancolia.
Esquecer todas as agruras
que lá vão
e este negro mar de desventuras
em que voga ao sabor de torvas ondas
meu coração.


Luís AMARO
(N: 1923)
PERCAM PARA SEMPRE AS TUAS MÃOS...


Percam para sempre as tuas mãos o jeito de pedir.
Esqueça para sempre a tua boca
O que disse a rezar.
E os teus olhos nunca mais, nunca mais saibam chorar
Porque é inútil.

Faz como os outros fizeram
Quando chegou o momento
De perder o medo à morte
Por ter muito amor à vida.


Raul de Carvalho
(1920-1984),
In "As Sombras e as Vozes"
(1949)

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

AMANHÃ É CADA INSTANTE.


Amanhã é cada instante.
Amanhã é cada passo.
Amanhã é cada brado.
Amnhã está nos teus braços
e pode ser hoje mesmo.

Armindo Rodrigues
(1904-1993)
In "Beleza Prometida"
(1950)