sábado, 4 de outubro de 2014

ENTRONIZAÇÃO


Tenho o braço cansado,
A mão dorida, trôpega...
Mas uma espécie de ânsia sôfrega
Ordena:
Empurrar tudo!
- Não quero, nem passado,
 Nem presente,
Nem futuro!-

O braço faz de muro,
A mão abre  caminho, coerente...

Quero uma estrada cá dentro...lisa, plana,
Para a tua palavra mágica, profética,
Bela e magnética,
Passear livremente,
E demoradamente!...


Leonor de Almeida
(N. 1915)
In " Caminhos Frios"
(1947)

SE HOUVESSE DEGRAUS NA TERRA.


Se houvesse degraus na terra e tivesse anéis o céu,
eu subiria os degraus e aos anéis me prenderia.
No céu podia tecer uma nuvem toda negra.
E que nevasse, e chovesse, e houvesse luz nas montanhas,
e à porta do meu amor o ouro se acumulasse.

 
Beijei uma boca vermelha e a minha boca tingiu-se,
levei um lenço à boca e o lenço fez-se vermelho.
Fui lavá-lo na ribeira e a água tornou-se rubra,
e a fímbria do mar, e o meio do mar,
e vermelhas se volveram as asas da águia
que desceu para beber,
e metade do sol e a lua inteira se tornaram vermelhas.

Maldito seja quem atirou uma maçã para o outro mundo.
Uma maçã, uma mantilha de ouro e uma espada de prata.
Correram os rapazes à procura da espada,
e as raparigas correram à procura da mantilha,
e correram, correram as crianças à procura da maçã.

Herberto Helder

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

FUGA


Numa nuvem de esquecimento
passar a vida,
sem mágoas, sem um lamento,
água correndo, impelida
pelo vento.

Ouvir a música do instante que passa
e recolhê-la no coração,
olhos fechados à dor e à desgraça,
os ouvidos atentos à canção
do instante que passa.
Beber a luz doirada que irradia
dos vastos horizontes,
e ver escoar-se o dia
entre pinhais e montes...
Doce melancolia.
Esquecer todas as agruras
que lá vão
e este negro mar de desventuras
em que voga ao sabor de torvas ondas
meu coração.


Luís AMARO
(N: 1923)
PERCAM PARA SEMPRE AS TUAS MÃOS...


Percam para sempre as tuas mãos o jeito de pedir.
Esqueça para sempre a tua boca
O que disse a rezar.
E os teus olhos nunca mais, nunca mais saibam chorar
Porque é inútil.

Faz como os outros fizeram
Quando chegou o momento
De perder o medo à morte
Por ter muito amor à vida.


Raul de Carvalho
(1920-1984),
In "As Sombras e as Vozes"
(1949)

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

AMANHÃ É CADA INSTANTE.


Amanhã é cada instante.
Amanhã é cada passo.
Amanhã é cada brado.
Amnhã está nos teus braços
e pode ser hoje mesmo.

Armindo Rodrigues
(1904-1993)
In "Beleza Prometida"
(1950)

domingo, 21 de setembro de 2014

QUE DERROTA HÁ MAIOR QUE NÃO QUERER?


Que derrota há maior que não querer?
Que silêncio há maior que não escutar?
Que traição há maior que concordar
por cobardia de contradizer?
Em qualquer parte onde uma luz houver
é porque há um olhar para olhar.
Tanto importa afirmar como negar.
Só não é nada não buscar saber.
É erro hoje o que ontem foi seguro,
como o que ontem foi erro o não é hoje
e talvez torne ainda a ser errado.
Porque não há-de o homem ser tão puro
que a cada novo instante se despoje
de cada erro nele enraizado?


Armindo Rodrigues
(1904-1993)
In "Beleza Prometida"
(1950)

sábado, 20 de setembro de 2014

 O LIMITE


Basta. Não é insistir olhar o longo brilho
de teus olhos. Ali, até ao fim do mundo.
Olhei e consegui. Contemplei, e passava.
A dignidade do homem está na sua morte.
Mas os brilhos temporais dão
cor, verdade. A luz pensada, engana.
Basta. No caudal de luz - teus olhos - pus
minha confiança. Por eles vi, vivera.
Hoje que piso meu fim, beijo estas margens.
Tu, minha limitação, meu sonho. Sejas!

Vicente Aleixandre
(1898-1984)
 Tradução: José Bento