quinta-feira, 18 de setembro de 2014


 A VIDA DA MORTE


Ouvir chover não mais, sentir-me vivo;
o universo convertido em bruma
e em cima a consciência como espuma
por onde as compassadas gotas crivo.

Morto em mim tudo quanto seja activo,
enquanto toda a visão a chuva esfuma,
e lá em baixo a abismo em que se suma
da clepsidra a água; e o arquivo

desta memória, de lembranças mudo;
o ânimo saciado em inércia forte;
sem lança e por isso já sem escudo,

todo à mercê dos vendavais da sorte;
este viver, que é o viver desnudo,
- não é acaso já o viver da morte?

Miguel de Unamuno
(1864-1936)
Tradução: José Bento


SEM TRANSACÇÃO



Sem transacção
nem balança,
tão boa a ternura 
  de uma criança!


Puro sol matinal
entre a verdura.
Levo a manhã pela mão,
orvalho sobre a secura.



João José Cochofel
(1919-1982)

quarta-feira, 17 de setembro de 2014

 PASSADO


As lembranças, esta sombra demasiado longa
do nosso breve corpo,
esta estria de morte
que deixamos vivendo,
as lúgubres e duradouras lembranças,
ei-las que aparecem:
melancólicos e mudos
fantasmas agitados por um vento fúnebre.
E não me és mais que uma lembrança.
Estás morta na minha memória.
Agora sim que posso dizer
que me pertences
e qualquer coisa entre nós aconteceu
irremediavelmente.
Tudo acabou tão rápido!
Precipitado e leve
o tempo reúne.
Dos fugitivos instantes se tece uma história
bem acabada e triste.
Devíamos saber que o amor
a vida cresta e faz voar o tempo.

Vincenzo Cardarelli
  (1887-1959)
(tradução: Jorge de Sena)
In "Rosa do Mundo 2001 Poemas Para o Futuro"
GAIVOTAS


Não sei onde as gaivotas fazem ninho,
onde encontram a paz.
Sou como elas,
em perpétuo voo.
Raso a vida
como elas rasam a água
em busca de alimento.
E amo, talvez como elas, o sossego,
o grande sossego marinho,
mas o meu destino é viver
faiscando na tempestade.



Vincenzo Cardarelli
(1887-1959)
Tradução: Albano MARTINS
SE O TEMPO.


Se o tempo
fosse
uma flor, o seu
perfume
seria
esta luz
escorrendo
pelas escarpas
do dia.



Albano MARTINS
(N: 1930)


PALAVRAS FUNDAMENTAIS


Faz com que a tua vida seja
sino que repique
ou sulco onde floresça e frutifique
a árvore luminosa da ideia.
Alça a tua voz sobre a voz sem nome
de todos os demais, e faz com que ao lado
do poeta se veja o homem.

Enche o teu espírito de lume;
procura as eminências do cume
e, se o esteio nodoso do teu báculo
encontrar algum obstáculo ao teu intento,
sacode a asa do atrevimento
perante o atrevimento do obstáculo.


Nicolás Guillén
(1901-1990)
Tradução: Albano MARTINS

terça-feira, 16 de setembro de 2014

 A PAZ


Ter em minhas mãos
Uns jasmins com sol,
Com o primeiro sol;
Saber que amanhece
Em meu coração;
Ouvir de manhã
Uma única voz...

É tudo o que quero.

Regressar sem ódios,
Calmo adormecer,
Sonhar ter nas mãos
Silindras com sol,
Com o último sol;
Dormir escutando
Uma única voz...

É tudo o que quero.

Juan Ramón Jiménez
(1881-1956)
 Tradução: Manuel Bandeira