terça-feira, 16 de setembro de 2014

 REQUIEM PARA UM DEFUNTO VULGAR



 Antoninho morreu. Seu corpo resignado
é como um rio incolor, regressando à nascente
num silêncio de espanto e mistério revelado.
Está ali - estando ausente.

Jaz de corpo inteiro e fato preto.
Ele, da cabeça aos pés,
trivial e completo,
estátua de proa e moço de convés.

Jaz como se dormisse (pelo menos
é o que dizem as velhas carpideiras).
Jaz imóvel, sem gestos, sem acenos.
Jaz morto de todas as maneiras.

Jaz morto de cansaço, de pobreza, de fome
(sobretudo, de fome). Jaz morto sem remédio.
É apenas, sobre um papel azul, um nome.
De ser mais qualquer coisa, a morte impede-o.

Jaz alheio a tudo à sua volta,
à grita dos parentes, companheiros,
como um cavalo à rédea solta
ou no mar largo, os rápidos veleiros.

Jaz inútil, feio, pesado,
a colcha de crochet aconchega-o na cama.
Nunca esteve tão quente e animado.
Nunca foi tão menino de mama.

Os filhos olham-no e fazem contas cuidadosas:
padre, enterro, velório, certidão
de óbito... E discutem, com manhas de raposas,
os parcos bens e a possível divisão.

Entanto, sobre o leito que foi da vida de casado,
Antoninho jaz morto. Definitivamente.
Os parentes e amigos falam dele no passado.
A viúva serve copos de aguardente.

Daniel Filipe 
 (1925-1964)

PAZ AOS MORTOS


Detestei sempre os arquitectos de infinito:
como é feio fugir quando nos espera a vida!
Nunca tive saudades do futuro
e o passado... o passado vivi-o, que fazer?!
- e não gosto que me ordenem venerá-los
se eu todo não basto a encher este presente.

Não tenho remorsos do passado. O que vivi, vivi.
Tenho, talvez, desprezo
por esta débil haste que raramente soube
merecer os dons da vida,
e se ficava hesitante
na hora de passar da imaginação à vida.
As pazadas de terra cobrindo o que já fui
sabem mal, às vezes; noutros dias
deliro quando lanço à vala um desses seres tristonhos
que outrora fui, sem querer.



Adolfo Casais Monteiro
(1908-1972)
In " Sempre e Sem Fim"

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

 ESTOU NU DIANTE DA ÁGUA.


Estou nu diante da água imóvel. Deixei a minha roupa
no silêncio dos últimos ramos.

Isto era o destino: 

chegar à margem e ter medo da quietude da água. 

António Gamoneda
  In "Livro do Frio"
Trad. de José Bento


 O DESTINO NÃO É UM LUGAR.



O caminho foi longo e houve névoa.
Porém, houve o espaço. Mas agora
adensou-se a névoa até ao ponto
de ser o espaço o muro que já roço.
Nele me deterei e, ao voltar
os olhos para trás, a mesma névoa
far-me-á tentar de novo o mesmo muro,
e, se eu dirigir o olhar ao céu
para ali me salvar, a negra névoa
irá cegar-me os olhos, e assim será
isso a que chamaste sono eterno.

Francisco Brines
(N: 1932)
Trad. de José Bento
 POR UM INCRUMPRIMENTO DO PRESSÁGIO



Não me envies dor. Já, minha vida,
me despedi há tempo do transtorno
que nos infundes cega. Muitos anos
o desejei supondo que ainda vinha.
Continuo a merecê-lo, mas agora
gostaria de desistir de sua vinda.
Despedir-me do mundo, com a ventura
que suspende os olhos do amante
seria graça maior que ter nascido.
Mas débil ante a dor e conhecendo
a matéria desprezível de que és feita,
não pares ante meus anos os teus passos,
não me ofereças aquilo que arrebatam
de tuas mãos os jovens. Dá-lhes,
a eles, com seu sabor, conhecimento;
se são agradecidos, vão amar-te
para sempre. Eu quero que os corpos
deixem seu belo fogo entre meus braços,
em troca de moedas ou palavras.
Mas o que já vivi, fique vivido;
Estou desabitado; não me tentes
Para ser infeliz tão fora de horas.

Francisco Brines
  (1932)
Tradução: José Bento


OS SINÓNIMOS.


Para lá da luz está a sombra,
e por trás da sombra não haverá luz
nem sombra. Nem silêncio, nem sons.
Chama-lhe eternidade, ou Deus, ou inferno.
Ou não lhe chames nada.
Como se nada tivesse acontecido.


Francisco Brines
(1932)

Trad. de José Bento
SAUDADE DE QUALQUER COISA


Saudade de qualquer coisa
que a memória, só ela,
realiza ainda.
Lembra e dói
apenas porque é finda.



A manhã sem sol nem música
cria-me melancolia.
Porque mastigo eu lágrimas que já não sinto
e me vergo em sobressaltos
já alisados pela tua mão?


A manhã fria
trouxe-me este absurdo desejo de Inverno
em pleno Verão.


João José Cochofel
(1919-1982)
In "Breve"
(Foto "Fel de Cão"
27 de Setembro de 2013 ).