quarta-feira, 10 de setembro de 2014

A TEU LADO

A teu lado, amor,
não há muros, silêncio, morte.

Por cada espinho de aço cravado
em nossa carne,
há um rio de sangue e primavera.

Por cada bofetada,
um sorriso de criança.

Por cada insulto,
por cada punhalada,

uma seara, uma estrela, uma cidade.

Papiniano CARLOS
(1918-2012)
In "Caminhemos Serenos"
Edições Vértice
(Coimbra 1957)
MURAL


Não um anjo caído
nem um deus frustrado,
mas o Homem
maior que os anjos
e maior que os deuses,
criador de deuses e anjos,
construtor de si mesmo,
o Homem!
quantas vezes caído,
quantas vezes frustrado
mas, livre e invencível,
perpétuamente renovando
as asas e raízes.

Papiniano Carlos
(1918-2012)
In "Caminhemos Serenos"
Textos Vértice
(1957)

domingo, 7 de setembro de 2014

MAIS VALERA...

Baldadas, as tuas orações fervorosas,
vãs, as tuas vigílias sem cansaço,
inúteis, as tuas rugas que foram lágrimas, Mãe!
E são brancos os teus cabelos por ser negra a minha vida...

Todos os amparos pedidos para os meus passos,
todas as claridades imploradas para os meus caminhos,
todas as fontes solicitadas para as minhas sedes,
todos os vergéis requeridos para as minhas fomes,
todas as pedras com musgo seco rogadas para o meu descanso,
— tudo foi trocado para a felicidade doutra Mãe
que não orou, talvez, fervorosamente,
nem vigiou noites e noites um berço, como estrela,
nem, Mãe, chorou as lágrimas que deixaram no teu rosto essa tristeza.

Para mim veio este destino errante de poeta...
Comigo, a incerteza e frouxidão contínua de passos,
a escuridão em todos os caminhos inevitáveis,
a sede para que só há fontes secas,
a fome que nenhum fruto satisfaz,
as pedras ásperas onde o corpo não pode estender-se...

Mãe, porque não me levaram os ciganos?

Alberto de Serpa
(1906-1992)
In "Antologia Poética"

Prefácio à segunda edição de Novos Contos da Montanha (1944). 
S. Martinho de Anta, Setembro de 1945.
Querido leitor:
Escrevo-te da Montanha, do sítio onde medram as raízes deste livro. Vim ver a sepultura do Alma Grande e percorrer a via sacra da Mariana. Encontrei tudo como deixei o ano passado, quando da primeira edição destas aventuras.. Apenas vi mais fome, mais ignorância e mais desespero. Corre por estes montes um vento desolador de miséria que não deixa florir as urzes nem pastar os rebanhos.
O social juntou-se ao natural, e a lei anda de mãos dadas com o suão a acabar de secar os olhos e as fontes. Crestados e encarquilhados, os rostos dos velhos parecem pergaminhos milenários onde uma pena cruel traçou fundas e trágicas legendas. Na cara lisa dos novos pouca mais esperança há. Ora eu sou escritos, como sabes. Poeta, prosador, é na letra redonda que têm descanso as minhas angústias. Mas nem tudo se imprime. Ao lado do soneto ou do romance que a máquina estampa, fica na alma do artista a sua condição de homem gregário. E foi por isso que fiz aqui uma promessa que te transmito:
Que estava certo de que tu, habitante dos nateiros da planície, terias em breve compreensão e amor pela sorte áspera destes teus irmãos. Que um dia virias ao encontro da aridez e da tristeza contidas nas suas fragas, não como leitor do pitoresco ou do estranho, mas como sensível criatura tocada pela magia da arte e chamada pelos imperativos da vida.
Prometi isso porque me senti humilhado com tanto surro e com tanta lazeira, e envergonhado de representar o ingrato papel de cronista de um mundo que nem me pode ler. Tomei o compromisso em teu nome, o que quer dizer em nome da própria consciência colectiva. Na tua ideia, o que escrevo, como por exemplo estas histórias, é para te regalar, e se possível comover. Mas quero que saibas que ousei partir desse regalo e dessa comoção para te responsabilizar na salvação da casa que, por arder, te deslumbra os sentidos.

Teu
Miguel Torga
(1907-1995)

 
RIQUEZA

Por parques e praças,
Ruas e travessas,
Tu, meu olhar, caças
A vida. E tropeças.

Uma gargalhada
Vem dum par contente.
Guarda-a bem guardada,
Mas caminha em frente.

Surgem-te sorrisos
Dum e de outro lado.
Não faças juízos
Rápidos. Cuidado!

Uma face grave
Nada te revela?
Talvez a dor cave,
Só mais tarde, nela.

Num choro, num grito,
Pressentes a dor?
E quedas, aflito.
Seque, por favor!

Segue, bem aberto
Para cada canto!
Olha o desconcerto
Que parece tanto!

Corre, olhar, em roda!
O que me intimida?
A vida?Só toda
Pode amar-se, a vida.

Alberto de Serpa
In "Rua"
(1906-1992)

sábado, 6 de setembro de 2014

CÉU ESTRELADO

Saímos por aí a assobiar vagabundos
Embora uma bela mulher se veja
O leitor não a verá nem aos mundos
A que ela abre os braços dissoluta

Saímos por aí a assobiar vagabundos
Tomando á letra a lentidão dos vagões
Sucessivamente ensacada em adubos
Sacas brancas e cheiro a amoníaco

Saímos por aí a assobiar vagabundos
A promessa de voltar juntos
Á hora em que não há outro regresso
Os sonâmbulos erguem-se e caminham
(...)
José Falcão Tavares

( Médico, (Prémio Bial em 1991), escritor, poeta....e muito mais..)
( Excerto de "Casa, Casaca")

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

POEMA III

Como tu embriagas!
Vens, ó Poesia!, ou tumultuosa ou mansa,
Cerras o nosso olhar a estes tempos em chagas,
E cantas dentro em nós uma esperança.
És uma irmã que deixa
A fresca mão na nossa testa ardente,
Depois da luta que engrandece a queixa
Que temos sempre contra tanta gente.
És aquela que chega
— Se o tédio em nossas almas se insinua —
Sempre fácil e pronta para a entrega
Mais total e mais nua.
És tu, poesia, quem
— Quando nos prendem boca, mãos e pés —
A coragem raivosa nos mantém,
Ciciando-nos: “Talvez...”
Que bem hajas! Aqui
E em toda a parte, nossos passos guia!
Por cada hora, sejamos mais de ti,
E tu, mais nossa, Poesia!

Alberto de Serpa
(1906-1992)