terça-feira, 19 de agosto de 2014

NÃO ME DIGAS MAIS NADA.

Não me digas mais nada. O resto é a vida.
Sob onde a uva está amadurecida.
Moram meus sonos, que não querem nada.
Que é o mundo? Uma ilusão vista e sentida.

Sob os ramos que falam com o vento,
Inerte, abdico do meu pensamento.
Tenho esta hora e o ócio que está nela.
Levem o mundo: deixem-me o momento!

Se vens, esguia e bela, deitar o vinho
Em meu copo vazio, eu, mesquinho
Ante o que sonho, morto te agradeço
Que não sou para mim mais do que um vizinho.

Quando a jarra que trazes aparece
Sobre meu ombro e a sua curva desce
A deitar vinho, sonho-te, e, sem ver-te,
Por teu braço teu corpo me apetece.

Não digas nada que tu creias. Fala
Como a cigarra canta. Nada iguala
O ser um sonho pequeno entre os rumores
Com que este mundo.

A vida é terra e o vivê-la é lodo.
Tudo é maneira, diferença ou modo.
Em tudo quando faças sê só tu,
Em tudo quanto faças sê tu todo.

Fernando Pessoa
(1888-1935)
RUDES E BREVES AS PALAVRAS PESAM


Rudes e breves as palavras pesam
mais do que as lajes ou a vida, tanto,
que levantar a torre do meu canto
é recriar o mundo pedra a pedra;
mina obscura e insondável, quis
acender-te o granito das estrelas
e nestes versos repetir com elas
o milagre das velhas pederneiras;
mas as pedras do fogo transformei-as
nas lousas cegas, áridas, da morte,
o dicionário que me coube em sorte
folheei-o ao rumor do sofrimento:
ó palavras de ferro, ainda sonho
dar-vos a leve têmpera do vento.


Carlos de OLIVEIRA
(1921-1981)

domingo, 17 de agosto de 2014

CÉU

O céu não existe.
Simples distância nua
onde o rumor da terra se reflecte
como o eco dum grito,
deves chamar angústia à lua
e a cada estrela um coração aflito.

Se acaso for o rastro
dalgum cometa errando
no esplendor de tanta solidão,
é o meu desespero.
Lembra-te de tudo o que mais quero
e não lhe chames astro.

Carlos de OLIVEIRA
(1921-1981)
In "Trabalho Poético"
TERRA DE NINGUÉM


Todos têm para mim o desprezo dos fortes,
todos têm para mim
o desprezo
dos que encontram na vida um caminho
- que muitas vezes não encontraram
mas julgaram encontrar.


Caminho
que pode ser o seu
mas é um caminho...

Eu
continuarei a perder-me nos horizontes largos,
a andar às cegas entre o mal e o bem...
que a minha terra
é Terra de Ninguém

João José Cochofel
(1919-1982)
In "Breve"

sábado, 16 de agosto de 2014

SÓ O CORAÇÃO VAI AO LEME

Só o coração vai ao leme
nas águas frias das minhas mágoas.
Só ele não teme
os remoinhos dessas águas.

- Olha! Se perguntarem por mim,
diz que não estou.
Fui de viagem,
a triste viagem em que triste vou!

Perdi quanto era ainda
o leite branco da infância.
Vou de largada,
eu com a minha ânsia.

João José Cochofel
(1919-1982)
PANFLETO


Homem de qualquer mundo, homem:
levanta os gumes do perfil da fome
ceifado o medo rente ao fundo
não há sombras que te domem

Luís Veiga Leitão
(1912-1987)
In "Rosto por Dentro"

terça-feira, 5 de agosto de 2014

DE PROFUNDIS

Agora, o meu país são dois palmos de chão
Para uma cova estreita e resignada.
Tem o formato exacto de um caixão.
Agora, o meu país é pó, é cinza, é nada.
Reduziram-no assim para caber na mão
Fechada!

29 de Julho de 1976

António Manuel Couto Viana
(1923-2010)