domingo, 8 de junho de 2014

CONQUISTA

Bastou a gota luminosa da tua presença
a transfigurar-me o espaço coalhado e morno
dos sonhos que apodrecem sem que ninguém os visite
em presença física.
Isso bastou.

Hoje, a recordação dessa hora
apenas canta no pinheiral batido pelo Leste.
Mas ficou-me nos olhos o sinal
de quem alguma vez escutou
a chamada subterrânea da vida.

João José Cochofel
(1919-1982)

sábado, 7 de junho de 2014

DÓI-ME QUEM SOU:

Dói-me quem sou. E em meio da emoção
Ergue a fronte de torre um pensamento.
É como se na imensa solidão
De uma alma a sós consigo, o coração
Tivesse cérebro e conhecimento.

Numa amargura artificial consisto
Fiel a qualquer ideia que não sei,
Como um fingido cortesão me visto
Dos trajes majestosos em que existo
Para a presença artificial do rei.

Sim, tudo é sonhar quanto sou e quero.
Tudo das mãos caídas se deixou.
Braços dispersos, desolado espero.
Mendigo pelo fim do desespero,
Que quis pedir esmola e não ousou.

Fernando Pessoa
(1888-1935)
NÃO.

Não: devagar.
Devagar, porque não sei
Onde quero ir.

Há entre mim e os meus passos
Uma divergência instintiva.

Há entre quem sou e estou
Uma diferença de verbo
Que corresponde à realidade.

Devagar...
Sim, devagar...
Quero pensar no que quer dizer
Este devagar...

Talvez o mundo exterior tenha pressa demais.
Talvez a alma vulgar queira chegar mais cedo.
Talvez a impressão dos momentos seja muito próxima...
Talvez isso tudo...

Mas o que me preocupa é esta palavra devagar...
O que é que tem que ser devagar?
Se calhar é o universo...

A verdade manda Deus que se diga.
Mas ouviu alguém isso a Deus?

Álvaro de Campos / Fernando PESSOA
(1888-1935)
O SEU LUGAR FIEL.

Fundem-se os arvoredos e as nuvens
e o sol neles transparece a sua paz.
A harmonia do abraço é tão profunda
que até o mar a quer gozar também,
o mar que está distante e se aproxima,
que já se ouve pulsar e já rescende.

O cerco universal vai-se apertando,
e em toda a hora azul não há mais nada
que a nuvem, que a árvore, que a onda,
sínteses da glória zenital.
O fim está no centro. E a eternidade
sentou-se já aqui, seu lugar fiel.

Para isto viemos. (Tudo o mais
cai, pois era luz efémera).
E todos os destinos aqui saem,
aqui entram, aqui sobem, aqui estão.
Tem a alma um descanso de caminhos
que chegaram ao seu único final.

Juan Ramón Jimenez
(1881-1958)
Trad. de José Bento.
A MORTE BELA


Que me vais magoar, morte?
Não me faz doer a vida?
Porque hei-de ser mais ousado
para o viver exterior
que para o fundo morrer?

A terra, que é mais que o ar?
Porque nos há-de asfixiar,
porque nos há-de cegar?
porque nos há-de esmagar,
porque nos há-de calar?

Porque morrer há-de ser
o que chamamos morrer,
e viver só o viver,
o que calamos viver?
Porque o morrer verdadeiro
(o que calamos morrer)
não há-de ser doce e suave
como o viver verdadeiro
(o que chamamos viver?)

Juan Ramón Jimenez
(1881-1958)
Prémio Nobel 1956
Trad. de José Bento
In "Antologia Poética)

terça-feira, 3 de junho de 2014

SOMOS FOLHAS BREVES ONDE DORMEM

Somos folhas breves onde dormem
aves de sombra e solidão.
Somos só folhas e o seu rumor.
Inseguros, incapazes de ser flor,
até a brisa nos perturba e faz tremer.
Por isso a cada gesto que fazemos
cada ave se transforma noutro ser.

Eugénio de Andrade
(1923-2005)
In "As Mãos e os Frutos"

segunda-feira, 2 de junho de 2014

DORMIR

Dormir, sim,
quando o silêncio
dói. Mas nunca
se dorme quando
o amor
é uma insónia. Ninguém
ama de olhos
fechados.

Albano Martins
In "Palinódias, Palimpsestos"