terça-feira, 3 de junho de 2014

SOMOS FOLHAS BREVES ONDE DORMEM

Somos folhas breves onde dormem
aves de sombra e solidão.
Somos só folhas e o seu rumor.
Inseguros, incapazes de ser flor,
até a brisa nos perturba e faz tremer.
Por isso a cada gesto que fazemos
cada ave se transforma noutro ser.

Eugénio de Andrade
(1923-2005)
In "As Mãos e os Frutos"

segunda-feira, 2 de junho de 2014

DORMIR

Dormir, sim,
quando o silêncio
dói. Mas nunca
se dorme quando
o amor
é uma insónia. Ninguém
ama de olhos
fechados.

Albano Martins
In "Palinódias, Palimpsestos"
TELEOLOGIA

Atravessamos perigos sem saber.
Abismos.
Condores.
Causas sinistras.

Nos intervalos cíclicos votamos
seguir em frente.

Que fazer, não fazer
nestes compromissos
a que nos entregamos?

Perigos não previstos
surgem nos abismos
da realidade.

Sinistras aves, a verdade simples,
descem abismos
sempre quando somos.

Ruy Cinatti
(1915-1986)
DENTRO DE MIM

Abarco todo o horizonte
Dentro de mim há só água,
água estagnada, dos charcos
represos da minha mágoa.

Tenho tudo nos meus olhos,
as cores todas, e ponho
um leve acento de angústia
nas margens tristes do sonho.

Dentro de mim só há sombra.
O que possa acontecer
vai rasgando espaços brancos
nas fronteiras do meu ser.

Albano Martins

domingo, 1 de junho de 2014

POEMAS DE DESILUSÃO E DE REVOLTA

IV


Isto
 de ser o que se não é,
de andar sempre a mentir
(quantas vezes a nós próprios!)
tiranizados,
forçados,
chegando mesmo a esquecer
por vezes,
que somos bois debaixo de uma canga:
Isto,
juro-vos,
ainda há-de acabar.

João José Cochofel
(1919-1982)
In "Descoberta"
Coimbra Editora
(1945)
JÁ NÃO ME DÁ AMARGOS DE BOCA

Já não me dá amargos de boca
o mundo.
Sei o que quero desta vida oca:
não me confundo.

Mágoas que chorei,
mesmo sentidas:
falta de sol,
álcool sobre as minhas feridas.

Excesso de lembrança,
dor que outra dor levanta.
Xadrez de quem vive sozinho
e não canta

João José Cochofel
(1919-1982)
FRUTO DE SOL NA MINHA BOCA

Fruto de sol na minha boca.
-- Terra tão vasta
e a vida tão pouca!

De Inverno e de Verão faça sol de Agosto.
-- Fruto na boca
deixou o seu gosto.

Assim deito meus olhos à flor do mundo.
Nem me peçam mais:
os lagos serenos têem menos fundo.

João José Cochofel
(1919-1982)
In "Descoberta"
Coimbra (1949).