sábado, 24 de maio de 2014

FAZ FALTA SER CEGO

Faz falta ser cego,
ter como metidas nos olhos raspaduras de vidros,
cal viva,
areia a ferver,
para não ver a luz que salta em nossos actos,
que ilumina por dentro a nossa língua,
a nossa palavra quotidiana.

Faz falta querer morrer sem lápide de glória e alegria,
sem participação nos hinos futuros,
sem lembrança nos homens que julguem o passado sombrio da Terra.

Faz falta querer já na vida ser passado,
obstáculo sangrento,
coisa morta, esquecimento seco.


Rafael Alberti,
(1902-1999)
Trad. de José Bento

 in " Antologia da Poesia Espanhola Contemporânea"

O SALTO


Somos como um cavalo sem memória,
somos como um cavalo
que não se lembra já
da última vala que saltou.

Vimos correndo e correndo
por uma longa pista de séculos e obstáculos.
De quando em quando, a morte...
o salto!

e nimguém sabe quantas
vezes já saltamos
para chegar aqui, nem quantas ainda saltaremos
para chegar a Deus que está sentado
no final da corrida...
à nossa spera.

Choramos e corremos,
caímos e giramos,
vamos de tombo em tumba,
dando pulos e voltas entre cueiros e mortalhas.

León Felipe
(1884-1968)
Trad. de José Bento.

quinta-feira, 22 de maio de 2014

OS DOIS IRMÃOS

Um foi prisioneiro na Alemanha
e há trinta anos olha fixamente o pão
como se tivesse a fome de outrora.
O outro fez a guerra em África
e a água no copo contempla-a
com a sede do deserto.
Hoje fechados em casa
não querem ver ninguém.
Dormem de costas voltadas
com o rosto afundado no travesseiro
da grande cama.
Às vezes saem de noite
por estradas largas e vazias
como a Lua e a Terra no céu
um atrás do outro
não se sabe para onde.

Tonino GUERRA
(1920-2012)
Trad. de Mário Rui de Oliveira.

terça-feira, 20 de maio de 2014

OS ABANDONADOS PELA MORTE.


Um com um punho apoiado na cara,
o outro com a cabeça afundada nas mãos
e o terceiro com os olh0s abertos para o vazio
os três velhos dormitam ao redor da mesa, na esplanada de um bar.
Depois do café, acalorados, esperam a desconhecida
que nos sonhos os visita, pacientes ou impacientes,
e acaricia as máscaras dos seus rostos,
que o suor desenha e apaga.
De súbito, o ruído de uma moto
e um par jovem e enlaçado atravessa a estrada,
depois o estrondo, os previsíveis sinais da morte
que procura a juventude e não os corpos decrépitos.
Os três velhos olham-se e choram o seu abandono.

Juan Luis Panero
(1942-2013)
In "Poemas"
Trad. de Joaquim Manuel Magalhães.





segunda-feira, 19 de maio de 2014


 O HOMEM INVISÍVEL.
 
 
Olha-se ao espelho que já não o reflecte,
tudo, menos ele, aparece na fria superfície,
o quarto, móveis e quadros, a variável luz do dia.
Assim aprende, com terror silencioso, a ver-se
não nos gestos teatrais - ainda traços humanos - da morte,
mas nos dias de depois, no vazio do nada.
Inútil fechar os olhos, estúpido quebrar o espelho obstinado,
procurar outro mais fiel ou mais amável.
É ele só, o homem invisível, o que desaparece,
é só ele, um rasto apagado,
que não contempla ninguém, porque é ninguém,
o nada no vidro indiferente da vida.


Juan Luis Panero
(1942-2013)
In "Poemas"
Trad. de Joaquim Manuel Magalhães
A MEMÓRIA E A MORTE

Só são tuas - na verdade - a memória e a morte,
a memória que apaga e desfigura
e a sombra da morte que aguarda.
Só lembranças fantasmais e o nada
repartem entre si a herança sem destino.
Depois de contratos sórdidos,mentiras,
de gestos inoportunos e palavras
- irreais palavras ilusórias -,
só um testamento de cinza
que o vento move,espalha e desordena.

Juan Luis Panero
(1942-2013)
"in Rosa do Mundo 2001 Poemas para o futuro"
Trd. de José Bento
E DE SÚBITO ANOITECE.

Viver é ver morrer, envelhecer é isso,
enjoativo, tenaz cheiro da morte,
enquanto repetes, inutilmente, umas palavras,
cascas secas, vidro partido.
Ver morrer aos outros, àqueles,
poucos, a quem verdadeiramente amaste,
desmoronados, desfeitos, como o fim deste cigarro,
rostos e gestos, imagens queimadas, enrugado papel.
E ver-te morrer a ti também,
remexendo frias cinzas, apagados perfis,
disformes sonhos, turva memória.
Viver é ver morrer e é frágil a matéria
e tudo se sabia e não havia engano,
mas carne e sangue, misterioso fluir,
querem perseverar, afirmar o impossível.
Copo vazio, trémulo pulso, cinzeiro sujo,
na luz nublada do entardecer.
Viver é morrer, nada se aprende,
tudo é um desapiedado sentimento,
anos, palavras, peles, despedaçada ternura,
calor gelado da morte.
Viver é ver morrer, nada nos protege,
nada teve o seu ontem, nada o seu amanhã,
e de súbito anoitece.

Juan Luis Panero
(1942-2013)
In "Poemas"
Trad. de Joaquim Manuel Magalhães.