segunda-feira, 5 de maio de 2014

PROTESTO

Desespero da vida, crime turvo
Como o de água de rio que não corre;
Traição de bicho, arrependido e curvo
Dentro da concha onde se abisma e morre.

Cegueira negra no areal batido
Por altas e divinas claridades;
Pinheiro seco no pinhal, erguido
Como fantasma vil doutras idades.

Desespero da vida! Cobardia
Do tripulante duma embarcação
Que leva sonho, céu e maresia
Nas velas, no convés e no porão!

Miguel TORGA
(1907-1995)
In "Líricas Portuguesas"
( 2ª série Selecção, prefácio e notas de Cabral do Nascimento)
Outubro de 1945.

domingo, 4 de maio de 2014

POETA

Lembras-te, Mãe

do menino que perdeste
e que ficou...
do menino que ficou
mas que fugiu...?

Anda agora pela vida...

É o poeta dos olhos molhados
do sorriso triste
dos dedos longos...

Anda agora pela vida...

E um dia, Mãe
ele há-de voltar
novamente,
para lhe aqueceres as mãos frias
e chorar com ele as ilusões perdidas.

Entretanto
deixa-o sofrer mais algum tempo...

João José Cochofel
(1919-1982)
In "Descoberta"
Coimbra Editora
(1945)

sexta-feira, 2 de maio de 2014

CAIXAS E SACOS

Quanto maior é a caixa, mais leva.
As caixas vazias levam tanto como as cabeças vazias.
Muitas caixinhas vazias que se deitam numa grande caixa vazia,
enchem-na toda.
Uma caixa meio-vazia diz: “Ponham-me mais.”
Uma caixa bastante grande pode conter o mundo.
Os elefantes precisam de grandes caixas para guardar uma dúzia de
lenços de assoar para elefantes.

As pulgas dobram os seus lencinhos e arrumam-nos com cuidado
em caixas de lenços para pulgas.
Os sacos encostam-se uns aos outros e as caixas levantam-se
independentes.
As caixas são quadradas e têm cantos, ou então são redondas
e têm círculos.
Pode empilhar-se caixa sobre caixa até que tudo venha abaixo.
Empilhe caixa sobre caixa, e a caixa do fundo dirá: “Queira notar que tudo repousa sobre mim.”
Empilhe caixa sobre mim, e a que está em cima perguntará: “É capaz de me dizer qual de nós cai para mais longe quando caímos todas?”
As pessoas-caixas vão à procura de caixas e as pessoas-sacos à procura de sacos.

Carl Sandburg
(1878-1967)
Trad. de Alexandre O'Neill
In "Rosa do Mundo 2001 Poemas Para o Futuro"

quinta-feira, 1 de maio de 2014

NÃO CHORES.

Não chores, pois ainda tens
o vento e a distância.

O amor é o vento. Sem solução,
o abismo surge no teu olhar.

É certo que me turvas a garganta
com o teu pranto e a tua mão distante.

Não chores ainda: do ar bebes
o aroma da tristeza nas minha mãos.

Antonio Gamoneda.
REVELAÇÃO


Deixai o meu sangue correr para um outro sol
e pó cobrir os meus olhos
e uma nova crença surgir...

Há muito que morreu o mundo dos homens
e o reino de Deus nunca nos foi revelado
e a carne é efémera, e o ódio eterno.

Deixai o meu sangue correr para um outro sol,
porque a minha paz está numa outra terra
onde o sangue não é a hóstia
nem cada sorriso sangue e pedra

Tomaz Kim
(1915-1967)

MIOPIA

Sempre que vejo
o que os meus olhos não queriam
ver
(mas que sabem ser verdade)
É sempre este doer.
Como se a minha sensibilidade
estivesse toda no olhar e ver.
Como se a minha revelação
apenas viesse inteira,
para além da fronteira
do que os meus olhos dão.

Sempre que vejo...
Porque me dói assim?
Porque se desprende em mim
essa mágoa-essência
de surpresa retardada?

A minha consciência
está míope e cansada.

Fernanda BOTELHO
(1926-2007)
LUZ

A mesurável condição humana,
quanto me exige! Quanto proclama
o seu poder em mim!

Tal submissão nem me redime
nem me liquida.
Não é renúncia sublime
nem carícia retribuída.

Não tenho eira nem beira,
vivo nas dobras da terra
e aceito quanto me dão.

Eis o meu nome: toupeira.
- E o meu olhar se descerra
apenas na escuridão.

Fernanda BOTELHO
(1926-2007)