domingo, 30 de março de 2014

ESPERAS.

Uma cidade ao fundo aguarda um vento.
Nela passas. Quem vê engana-se,
quem não olha conhece.
Olhar muito foi luz: cegos teus olhos.

Cala-te. A sombra avança. É a cidade que dorme ainda em mais sono.
Pó nocturno e olhos,
olhos nessa névoa escura. Em cima, a noite.
Cala-te. A solidão deitada também dorme.
Sozinho, nu,
esperas.

Vicente Aleixandre
(1898-1984)
Tradução: José Bento

sábado, 29 de março de 2014

MOMENTO NUM CAFÉ.

Quando o enterro passou
Os homens que se achavam no café
Tiraram o chapéu maquinalmente
Saudavam o morto distraídos
Estavam todos voltados para a vida
Absortos na vida
Confiantes na vida

Um no entanto se descobriu num gesto largo e demorado
Olhando o esquife longamente
Este sabia que a vida é uma agitação feroz e sem finalidade
Que a vida é traição
E saudava a matéria que passava
Liberta para sempre da alma extinta.

Manuel BANDEIRA
(1886-1968)
A SENTENÇA

Num velho livro topei com uma palavra escrita,
Que como um choque me marcou e ilumina toda a minha vida:
E quando me entrego ao prazer embotante,
E à essência prefiro a aparência, a mentira e o falso semblante,
Quando, de ânimo leve, a mim mesmo me engano com pequenos nadas,
Como se fosse clara a escuridão, como se a vida não tivesse mil portas
brutalmente fechadas,
E repito palavras cuja vastidão nunca senti,
Quando, com mãos aveludadas, o sonho bem-vindo me acaricia
E de trabalhos e dias me alivia,
Alienado do mundo, estranho à minha própria consciência,
Então ergue-se em mim essa palavra: Homem, torna à tua essência!

Ernst Stadler
(1835-1914)
In "Rosa do Mundo 2001 Poemas Para o Futuro"
Trad. e João Barrento.
POUCO A POUCO O CAMPO SE ALARGA E SE DOURA.

Pouco a pouco o campo se alarga e se doura.
A manhã extravia-se pelos irregulares da planície.
Sou alheio ao espectáculo que vejo: vejo-o,
É exterior a mim. Nenhum sentimento me liga a ele.
E é esse sentimento que me liga à manhã que aparece.

Alberto Caeiro/Fernando PESSOA
(1888-1835)
QUEM ME MANDOU A MIM QUERER PERCEBER.

Como quem num dia de Verão abre a porta de casa
E espreita para o calor dos campos com a cara toda,
Às vezes, de repente, bate-me a Natureza de chapa
Na cara dos meus sentidos,
E eu fico confuso, perturbado, querendo perceber
Não sei bem como nem o quê...
Mas quem me mandou a mim querer perceber?
Quem me disse que havia que perceber?
Quando o Verão me passa pela cara
A mão leve e quente da sua brisa,
Só tenho que sentir agrado porque é brisa
Ou que sentir desagrado porque é quente,
E de qualquer maneira que eu o sinta,
Assim, porque assim o sinto, é que é meu dever senti-lo...

Alberto Caeiro/Fernando PESSOA
(1888-1935)

sexta-feira, 28 de março de 2014

SCHUMANN POR HOROWITZ.

São herança camponesa, as mãos.
Estas pequenas mãos, de geração
em geração, vêm de muito longe:
amassaram a cal, abriram sulcos
frementes na terra negra, semearam
e colheram, ordenharam cabras,
pegaram em forquilhas para limpar
currais: de sol a sol nenhum
trabalho lhes foi alheio.
Agora são assim: frágeis, delicadas,
nascidas para dar corpo a sons
que, noutras épocas, outras mãos
se obstinaram em escrever como
se escrevessem a própria vida.
Ao vê-las, ninguém diria que
a terra corria no seu sangue.
São mãos envelhecidas, mas no teclado
são capazes do inacreditável: juntar
nos mesmos compassos o rumor
dos bosques em Setembro e os risos
infantis a caminho do mar.

Eugénio de ANDRADE
(1923-2005)
HÁ UM ANCIÃO DIANTE DE UMA SENDA VAZIA.

Há um ancião diante de uma senda vazia. Ninguém
regressa da cidade longínqua; apenas o vento sobre as
últimas pegadas.

Eu sou a senda e o ancião, sou a cidade e o vento.

Antonio Gamoneda
In "Livro do Frio"
Trad. de José Bento.