sexta-feira, 28 de março de 2014

NÃO TENHO MEDO NEM ESPERANÇA:

Não tenho medo nem esperança. De um hotel fora do
destino, vejo uma praia negra e, longínquas, as grandes
pálpebras de uma cidade cuja dor não me afecta.

Venho do metileno e do amor; tive frio debaixo dos
tubos da morte.

Agora contemplo o mar. Não tenho medo nem esperança.

Antonio Gamoneda
In "Livro do Frio"
Trad. de José Bento.

quarta-feira, 26 de março de 2014

NÃO TE CHAMO PARA TE CONHECER.

Não te chamo para te conhecer
Eu quero abrir os braços e sentir-te
Como a vela de um barco sente o vento

Não te chamo para te conhecer
Conheço tudo à força de não ser

Peço-te que venhas e me dês
Um pouco de ti mesmo onde eu habite

Sophia de Mello Breyner Andresen
(1919-2004)

terça-feira, 25 de março de 2014

BEETHOVEN


As montanhas e os rios são talhados em silêncio.
O silêncio desceu do céu e tapou-me os ouvidos,
e as montanhas e os rios talhou-os o silêncio.
-Só tenho quatro sentidos.

O riso das crianças é aberto - mas não ri.
O grito dos homens é um rosto amachucado,
e grita, silencioso, no mundo que descobri
Em redor de mim - tudo calado.

Mas dentro do meu corpo - um mar tumultuoso,
Mas sem limites, como o pensamento,
- onde nada é repouso
e tudo é movimento.

As montanhas e os rios são talhados em silêncio.
Mas, dentro de mim, os homens caminham!
- Pisam a terra, as nuvens, o sol e o mar...

E o mar do meu corpo, rasgado e profundo,
relampeja e revela os homens que caminham
- e salta a minha surdez para inundar
e abrir novos sulcos nas praias do mundo.

Sidónio Muralha
(1920-1982)
In "Orfeu Canta"
(Pequena Antologia de Poesia Portuguesa sobre Música)
Org. de José da Cruz Santos.

segunda-feira, 24 de março de 2014

É ASSIM, A MÚSICA

A música é assim: pergunta,
insiste na demorada interrogação
- sobre o amor?, o mundo?, a vida?
Não sabemos, e nunca
nunca o saberemos.
Como se nada dissesse vai
afinal dizendo tudo.
Assim: fluindo, ardendo até ser
fulguração – por fim
o branco silêncio do deserto.
Antes porém, como sílaba trémula,
volta a romper, ferir,
acariciar a mais longínqua das estrelas.

Eugénio de ANDRADE
(1923-2005)
MÚSICA

Vaga adolescência
que por mim perpassa.
É um olor de vento?
Um estado de Graça?

Um trecho de Mozart?
(Será de Ravel?)
Vontade de colher
rosas no papel

que abram o sorriso
a arder na luz fria
(o negrume do mar
abria e ardia)

ainda inconsciente,
sem o travo de mágoa
quando os olhos dela
se iluminam de água.

João José Cochofel
(1919-1982)

domingo, 23 de março de 2014

MÚSICA.

Esta música triste desprende-me do mundo.
Há quem possa explicá-la,
E nela apreenda frases
E descrições
E cores
E movimentos de alma.
Para mim, tem o encanto de tudo quanto é triste.
Ouço-a,
Os olhos fechados, a cabeça entre as mãos ...

Pouso nela a minha vida,
E não há mais simples nem mais bela música...

Alberto de Serpa
(1906-1992)
In "Orfeu Canta"
Pequena antologia de poesia portuguesa sobre música organizada por José da Cruz Santos.
DOIS COMPASSOS


Uma nota de guitarra
acordou na minha vida
uma história adormecida
a que a tristeza se agarra.

Um piano que tocou
uma coisa já ouvida
recordou uma hora ida
duma vida que passou.

Adolfo Casais Monteiro
(1908-1972)
In "Orfeu Canta"
Org. de José da Cruz Santos.