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QUALQUER MÚSICA.
Qualquer música, ah, qualquer,
Logo que me tire da alma
Esta incerteza que quer
Qualquer impossível calma!
Qualquer música – guitarra,
Viola, harmônio, realejo…
Um canto que se desgarra…
Um sonho em que nada vejo…
Qualquer coisa que não vida!
Jota, fado, a confusão
Da última dança vivida…
Que eu não sinta o coração!
Fernando PESSOA
(1888-1935)
In "Orfeu Canta"
(Pequena antologia de poesia portuguesa sobre música organizada por José da Cruz Santos)
QUARTO.
Que quietas estão as coisas
e que bem se está com elas!
Por toda a parte, suas mãos
com as nossas mãos se encontram.
Quantas discretas carícias,
que respeito pela ideia;
como olham, extasiadas,
o sonho que sonha alguém!
Como gostam do que outrem
gosta; como se esperam,
e, à nossa volta, que doces
nos sorriem, entreabertas!
Coisas – amigas, irmãs,
mulheres –, alegre verdade,
que nos devolveis, zelosas,
as mais fugazes estrelas!
Juan Ramón Jiménez
(1881-1958)
Trad. de José BENTO.
CARTA DA INFÂNCIA
Amigo Luar:
Estou fechado no quarto escuro
e tenho chorado muito.
Quando choro lá fora
ainda posso ver as lágrimas caírem na palma das
minhas mãos e brincar com elas ao orvalho
nas flores pela manhã.
Mas aqui é tudo por demais escuro
e eu nem sequer tenho duas estrelas nos meus olhos.
Lembro-me das noites em que me fazem deitar tão
cedo e te oiço bater, chamar e bater, na fresta
da minha janela.
Pelo muito que te tenho perdido enquanto durmo
vem agora,
no bico dos pés
para que eles te não sintam lá dentro,
brincar comigo aos presos no segredo
quando se abre a porta de ferro e a luz diz:
bons dias, amigo.
Carlos de OLIVEIRA
(1921-1981)
In "Terra de Harmonia"
(1950)
MADRUGADA
Rápidas mãos frias
retiram uma a uma
as vendas da sombra
Abro os olhos
Ainda
estou vivo
No centro
de uma ferida ainda fresca.
Octavio Paz
(México, 1914-1998)
Trad. de José Bento
PEDRA DE TOQUE.
Aparece
Ajuda-me a existir
Ajuda-te a existir
Ó inexistente pela qual existo
Ó pressentida que me pressente
Sonhada que me sonha
Aparecida desvanecida
Vem voa ascende desperta
Rompe diques avança
Moita de brancuras
Maré de armas brancas
Mar sem freio galopando na noite
Estrela erguida
Esplendor que te cravas no peito
(Canta ferida fecha-te boca)
Aparece
Folha em branco tatuada de outono
Formoso astro de ondulados movimentos de tigre
Vagaroso relâmpago
Fincada águia estremecida
Cai pluma flecha engalanada cai
Faz soar a hora do encontro
Relógio de Sangue
Pedra de toque desta vida
Octavio Paz
(1914-1998)
Trad. de Luís Pignatelli.

A GUERRA, QUE AFLIGE COM OS SEUS ESQUADRÕES.
A GUERRA, que aflige com os seus esquadrões o mundo,
É o tipo perfeito do erro da filosofia.
A guerra, como tudo humano, quer alterar.
Mas a guerra, mais do que tudo, quer alterar e alterar muito
E alterar depressa.
Mas a guerra inflige a morte.
E a morte é o desprezo do Universo por nós.
Tendo por consequência a morte, a guerra prova que é falsa.
Sendo falsa, prova que é falso todo o querer-alterar.
Deixemos o universo exterior e os outros homens onde a Natureza os pôs.
Tudo é orgulho e inconsciência.
Tudo é querer mexer-se, fazer coisas, deixar rasto.
Para o coração e o comandante dos esquadrões
Regressa aos bocados o universo exterior.
A química directa da natureza
Não deixa lugar vago para o pensamento.
A humanidade é uma revolta de escravos.
A humanidade é um governo usurpado pelo povo.
Existe porque usurpou, mas erra porque usurpar é não ter direito.
Deixai existir o mundo exterior e a humanidade natural!
Paz a todas as coisas pré-humanas, mesmo no homem,
Paz à essência inteiramente exterior do Universo!
Alberto Caeiro, in "Poemas Inconjuntos"
Heterónimo de Fernando Pessoa
(1888-1935)
BILHETE POSTAL.
Escrevo-te agasalhando o nosso amor,
que o tempo é este inverno sem disfarce:
Pelos meus olhos fartos de miséria
Mereço bem a luz da tua face.
Mas no meu coração as pobres coisas
choram, a cada lágrima exigida,
a tristeza precisa pra que eu saiba
quanto custa a alegria de uma vida!
Carlos de OLIVEIRA
(1921-1981)