quarta-feira, 5 de março de 2014

QUISERA ESTAR SÓ NO SUL


Talvez meus lentos olhos não vejam mais o sul
De ligeiras paisagens adormecidas no ar,
Com corpos à sombra de ramos como flores
Ou fugindo num galope de cavalos furiosos.

O sul é um deserto que chora enquanto canta,
E não se extingue essa voz como pássaro morto;
Para o mar encaminha os desejos amargos
Abrindo um eco débil que vive lentamente.

No sul tão distante quero estar confundido.
A chuva ali não é mais que rosa entreaberta.
A própria névoa ri: um riso branco no vento.
Obscuridade ou luz, ali são belezas iguais.


Luis Cernuda
(1902-1963)
Trad. de Eugénio de Andrade.

MONUMENTO




O pelourinho é talhado em cantaria
- Verdadeiro estilo manuelino –
E foi mesmo colocado
Diante da Câmara Municipal.

Antigamente… (ninguém se recorda!)
Serviu para prender os servos
Que levavam chicotadas!

Hoje… (todos se orgulham!)
É monumento nacional
E até já esteve na Exposição de Paris!
 
Amândio César
(1921-1987)
PROTESTO

São como flores fanadas os fúteis alfarrábios,
estagnados e doentios como a água adormecida,
do senhor dom artista que não quis colar os lábios
contra os seios da vida.

O homem que vende livros na velha padiola
expõe o romance da sua vida nessa espécie de montra
e grita contra os romances onde a vida estiola
em maciezas de lontra.

E em todos os cantos e recantos da rua
gritam contra os versos mornos, versos mansos, versos falsos,
as mulheres bem vestidas que ganham a vida nuas
e os garotos descalços

Sidónio Muralha
(1920-1982)
SALMO

A vida
é o bago de uva
macerado
nos lagares do mundo
e aqui se diz
para proveito dos que vivem
que a dor
é vã
e o vinho
breve.

Carlos de OLIVEIRA
(1921-1981)
OUVI OS SÁBIOS TODOS DISCUTIR

Ouvi os sábios todos discutir,
Podia a todos refutar a rir.
Mas preferi, bebendo na ampla sombra,
Indefinidamente só ouvir.

Manda quem manda porque manda, nem
Importa que mal mande ou mande bem.
Todos são grandes quando a hora é sua.
Por baixo cada um é o mesmo alguém.

Não invejo a pompa, e ao poder,
Visto que pode, sem razão nem ser.
Obedece, que a vida dura pouco
Nem há por isso muito que sofrer.

Fernando PESSOA
(1888-1935)

terça-feira, 4 de março de 2014

CALMARIA.

Mar!
o teu cântico verde-azul
insinuou-se-me no sangue,
salgou-me os lábios.
E o corpo inteiro
ressou-me de ecos silenciosos
esmaecidos em bruma;
os sentidos,
temperados de Sol e água,
espreguiçaram-se indolentes de ritmo.
Rara
esta inteireza de espírito,
quando nem o passado deixou resíduos
nem o futuro espreita...

João José Cochofel
(1919-1982)
QUANTAS VEZES CAMINHEI PELA PRAIA.

Quantas vezes caminhei pela praia
à espera que viesses. Luas inteiras.
Praias de cinza invadidas pelo vento.
Quantas estações quantas noites
indormidas. embranqueceram-me
os cabelos. E só hoje
quando exausto me deitei em mim
reparei
que sempre estiveste a meu lado.
Na cal frágil dos meus ossos.
Nas hastes do mar infiltradas
no sangue. Na película
dos meus olhos quase cegos

Casimiro de Brito