skip to main |
skip to sidebar
ESTOU LOUCO.
Estou louco, é evidente!
Mas que louco é que estou?
É por ser mais sonhador
que gente que sou louco?
Ou é por ter mais completa
a noção de ser pouco?
Aberto Caeiro / Fernando PESSOA
(1888-1935)
QUEM, COMO EU, SOFRE...
Quem, como eu, sofre porque uma nuvem passa diante do sol,
como não há-de sofrer no escuro do dia
sempre encoberto da sua vida?
O meu isolamento não é a busca da felicidade,
que não tenho alma para conseguir;
nem de tranquilidade, que ninguém obtém
senão quando nunca a perder,
mas de sono, de apagamento, de renúncia pequena.
As quatro paredes do meu quarto pobre são-me,
ao mesmo tempo, cela e distância, cama e caixão.
As minhas horas mais felizes são aquelas em que não penso nada,
não quero nada, não sonho sequer,
perdido num torpor de mero musgo
que crescesse na superfície da vida.
Gozo sem amargor a consciência absurda de não ser nada
ante o sabor da morte e do apagamento.
Fernando PESSOA
(1888-1935)
CASTELOS TOMBADOS
Altos castelos tombados
De sonhos desiludidos
Arquitecturas tamanhas
Tecidas por mãos estranhas
Juncam o chão.
Nasce outro dia
Sobre as ruínas de há pouco.
E no tempo
Essas ruínas tão grandes
De sonhos tão desmedidos
Fazem apenas figura
Dum grão de areia sem peso
Leve ao acaso do vento...
Adolfo Casais MONTEIRO
(1908-1972)
QUE É VOAR?
Que é voar?
É só subir no ar,
levantar da terra o corpo,os pés?
Isso é que é voar?
Não.
Voar é libertar-me,
é parar no espaço inconsistente
é ser livre, leve, independente
é ter a alma separada de toda a existência
é não viver senão em não-vivência
E isso é voar?
Não.
Voar é humano
é transitório, momentâneo...
Aquele que voa tem de poisar em algum lugar:
isso é partir
e não voltar.
Ana Hatherly
HÁ UM ANCIÃO...
Há um ancião diante de uma senda vazia. Ninguém
regressa da cidade longínqua: apenas o vento
sobre as últimas pegadas.
Eu sou a senda e o ancião, sou a cidade e o vento.
António Gamoneda
In "Livro do Frio"
Trad. de José Bento.
É TUDO TÃO PEQUENO ESTA MANHÃ.
É tudo tão pequeno esta manhã.
As aves acordaram surpreendidas,
a voarem nos meus olhos
curvas fatigadas
de Primavera morta…
As mãos caem-me secas
ao longo do corpo
em folhas recortadas
de árvore de solidão…
As raízes sugam-me nas veias
o sangue da terra
das manhãs de sussurro…
Sim. Hoje só eu existo…
Eu com este remorso de gota de água
que se recusa a cair no mar
─ para se sentir maior
longe da cólera comum da Tempestade.
José GOMES FERREIRA
(1900-1985)
MÃOS
Que tristeza tão inútil essas mãos
que nem sempre são flores
que se dêem:
abertas são apenas abandono,
fechadas são pálpebras imensas
carregadas de sono.
Eugénio de ANDRADE
(1923-2005)